A barreira da língua é enorme”: Wagner Moura fala de sua primeira experiência em Hollywood

O ator baiano abre seu coração sobre suas dificuldades de trabalhar ao lado de Matt Damon na ficção científica “Elysium”.

Moura com Matt Damon

Wagner Moura com Matt Damon

Depois que abandonou a franquia Bourne, Matt Damon está desfrutando um renascimento na carreira com uma série de grandes projetos. Primeiro foi o namorado flamejante de Liberace no filme da HBO “Behind the Candelabra”. Recentemente, terminou de participar de “Men in Berlin” juntamente com o bom amigo George Clooney, sobre um grupo de historiadores de arte que tenta desesperadamente recuperar uma coleção de valor inestimável roubada pelos nazistas.

Agora Damon acaba de fazer “Elysium”, um thriller de ficção científica pós-apocalíptica dirigido pelo sul-africano naturalizado canadense Neill Blomkamp (“Distrito 9”). Damon interpreta Max, um ex-ladrão de carro que vive em Los Angeles, uma cidade que evoluiu para uma gigantesca favela no futuro. Depois de ser exposto a uma dose letal de radiação no local de trabalho, Max tem apenas cinco dias para viver. Isso o inspira a migrar para Elysium, uma gigantesca estação onde as elites super-ricas vivem, já que a Terra se tornou um deserto tóxico dominado pelo crime. Elysium fornece a todos os seus residentes máquinas que curam todas as doenças e lesões em poucos segundos e Max está determinado a romper essa barreira de classe e se salvar.

Max é ajudado em sua missão por um velho amigo, o gangster Spider. Para o papel, Blomkamp escolheu o brasileiro Wagner Moura. É o primeiro filme de Moura para um estúdio americano. Moura obteve o convite muito por conta de seu desempenho como o policial fascista Capitão Nascimento. Spider, no entanto, ao contrário de Nascimento, joga do lado do bem. Moura está bastante à vontade como um bandidão politicamente correto.

“Este filme fala sobre a idéia de globalização e de exclusão e essa é uma das razões pelas quais Neil queria um elenco internacional “, me disse Moura (a atriz Alice Braga também está no filme). “Durante a minha primeira leitura do roteiro para o papel, eu fiz algo que ele não tinha inicialmente previsto para o personagem. Neil, porém, gostou da minha interpretação particular e disse-me me disse para continuar na mesma direção. Ele me mostrou que estava aberto como director”. Moura conversou comigo sobre sua primeira experiência internacional e seus problemas com outro idioma.

O que o levou a trabalhar em “Elysium”?

Eu fiz o filme porque achei que era um projeto brilhante e porque adorei o personagem que me foi oferecido. Mas foi duro trabalhar em inglês porque você não tem a mesma relação com as palavras que tem na sua língua nativa. Quando eu falo minha língua, posso apreciar cada nuance e cada forma de frasear as palavras. Eu não consigo fazer isso em inglês .

Você teve um professor de inglês no filme?

Eu tinha um treinador de dialeto que trabalhou comigo em duas cenas do filme – não em todo o filme. Precisei disso em algumas cenas que eram particularmente difíceis e importantes porque queria fazer o melhor trabalho possível. De qualquer maneira, o diretor foi tolerante com meu sotaque porque, obviamente, eu não podia fazer muito a respeito disso.

Você está de olho agora numa carreira internacional ou vai continuar trabalhando no Brasil?

Eu quero continuar trabalhando principalmente no Brasil. Filmes internacionais desse tipo são eventos extraordinários e acontecerão uma vez por ano ou menos. Eu não acho que vou trabalhar freqüentemente lá fora porque não estou completamente à vontade atuando em outro idioma e não sou capaz de projetar o tipo de referências culturais necessárias quando ​​você está atuando com alguém de outra nacionalidade.

Essas são questões difíceis quando se trata de trabalhar no cinema americano. A barreira da língua é enorme e também a barreira cultural. Por isso não estou tão interessado em trabalhar em filmes americanos.

(Nota: apesar dessas alegadas dificuldades, Wagner Moura me disse que vai fazer o papel do diretor Federico Fellini num filme em inglês que vai falar da passagem do cineasta italiano em Los Angeles. Fellini desapareceu por dois dias em 1957, antes de uma cerimônio de entrega do Oscar. Vai ser a primeira vez da história em que Fellini terá um sotaque baiano).

Sobre o autor: Harold Von Kursk–DCM
Alemão, naturalizado canadense, Harold tem 52 anos e é, além de jornalista, diretor de cinema. Em mais de 20 anos, entrevistou atores e cineastas para a mídia americana e europeia. Com todas teve grandes conversas. Exceto por Scarlett Johansson. “Ela é uma linda diva mimada”, diz.
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“Adele”, o filme lésbico que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, é pornô ou arte?

Uma coisa é certa: o longa que está causando barulho na Europa é um tédio.

10 minutos ininterruptos de beijos, lambidas etc

Emma e Adele: 10 minutos ininterruptos de sexo

Os franceses sempre gostaram de decadência de todos os tipos. Excessos eróticos foram tema central na literatura, pintura e cinema. Do Marquês de Sade a Proust e a Emmanuelle, o sexo tem ocupado a consciência e o subconsciente gauleses. Sua cultura floresceu com a força de diretrizes paralelas gêmeas – o rigor intelectual obsessivo, a formalidade e a arrogância numa sociedade que tolera amantes, clubes de swing para os ricos e famosos, e todas as formas de prazer da carne.

Agora a França optou por premiar um filme que provavelmente vai se tornar um dos mais controversos e debatidos na memória recente. O júri do Festival de Cannes deu a Palma de Ouro a La Vie d’Adele – Chapitres 1 et 2, um turbodrama do franco-tunisiano Abdellatif Kechiche. O manifesto lésbico de 3 horas conta a história da sedução de uma jovem (Adele Exarchopoulos) por Emma (Léa Seydoux), um espírito livre de vinte e poucos anos.

Além da narrativa gay, há uma cena gráfica de sexo, que dura 10 minutos ininterruptos, em que as duas se lambem, beijam, chupam e fazem a posição da tesoura, chegando ao clímax merecido, testando a paciência dos espectadores, bem mais que a das atrizes. Esses encontros sexuais prolongados têm provocado uma onda de discussão sobre sua intensidade e realismo evidente e não simulado. Seydoux, 27 anos, uma jovem estrela do cinema francês, e Exarchopoulos, de 18, relativamente desconhecida, abraçaram o desafio de interpretar o amor lésbico com intensidade, alternadamente ferozes e doces.

Como vários países ao redor do mundo, incluindo a França, estão começando a legalizar o casamento gay, La Vie d’Adele é um estudo de caso relevante. Embora longo demais, o filme serve como uma cartilha sobre o amor gay, o sexo e a paixão. Ainda que imperfeito, autoindulgente e, às vezes, panfletário, ele ajuda a legitimar o amor gay de maneira mais sedutora e atraente do que os clichês de Brokeback Mountain, por exemplo.

As atrizes e o diretor em Cannes

As atrizes e o diretor em Cannes

O fato de Cannes e um júri liderado por um diretor conservador como Spielberg darem o prêmio a Adele (as duas atrizes também ganharam a palma, assim como o diretor) é evidência de um universo moral em rápida mudança na sociedade ocidental. Claro, é duvidoso que um filme que mostrasse dois homens envolvidos em ginásticas com seus membros oscilantes fosse tratado com tanta tolerância e aceitação. Mas a visão de duas mulheres jovens e atraentes se apaixonando e se envolvendo em relações sexuais extasiantes conquistou Cannes e um amplo consenso crítico. Havia uma certa vontade irresistível de premiar Adeletanto pela sua audácia como por seus dons artísticos.

Livremente adaptado por Kechiche e pela co-roteirista Ghalia Lacroix da graphic novel de Julie Maroh, o filme explora a vida de Adele, nascida na classe trabalhadora da cidade de Lille, norte da França. Depois de um breve romance e uma aventura sexual com um colega, Thomas, ela sucumbe aos encantos da sedutora Emma, uma sofisticada estudante de arte com o cabelo tingido de azul e lábios ofegantes e volumosos. As diferenças de classe logo são varridas pelo destino amoroso.

Embora os espectadores vão apreciar a odisseia romântica, o longa atinge seu apogeu nas cenas de sexo que exaltam as virtudes do amor lésbico para um público de massa. O filme habilmente borra a diferença gráfica entre o pornô softcore e o cinema de arte. Desta forma, o aspecto erótico ousado desarma qualquer falta de conforto que se possa ter com o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo.

Grande parte do poder do filme reside na desenfreada e sublime performance de Léa Seydoux e no talento fresco de Adele Exarchopoulos. Sexo explícito não é inteiramente novo no cinema de arte, mas as próprias atrizes foram forçadas a questionar se o filme cruzou a linha imaginária entre a arte e a pornografia (definida estritamente como algo que mostra o sexo pelo sexo, com o objetivo de excitar o espectador).

É simbólico que os franceses tenham escolhido premiar a história de uma espécie de amor outrora proibida, num momento em que milhares de manifestantes conservadores marchavam em oposição à passagem da legislação do casamento gay. Mas o fato de debatermos uma cena longa entre duas atrizes maiores de idade representando uma atividade tão banal e corriqueira como o sexo é um tema mais urgente para a nossa reflexão coletiva.

Julie Maroh, autora da graphic novel, não gostou do que viu. “Como feminista e lésbica, não posso endossar o modo como Kechiche lidou com essas questões”, disse. “Foi uma exibição brutal e cirúrgica do chamado sexo lésbico, transformando-o em pornografia, o que me deixou pouco à vontade”. Ela afirma que, quando foi assistir, “todo o mundo (na platéia) estava dando risadinhas… e as únicas pessoas que não riam eram os caras que estavam muito ocupados festejando seus olhos com a encarnação de suas fantasias na tela”. Para Maroh, as protagonistas não sabiam bem o que fazer: “Parece-me que era isso o que estava faltando no set: lésbicas”.

Mas o filme não deve ser elogiado ou criticado por causa disso. Podemos traçar uma analogia útil com o romancista britânico Edmund Wilson, cujo ensaio “Who Cares Who Killed Roger Ackroyd?” (“Quem Se Importa Com Quem Matou Roger Ackroyd?”) sugeriu que não devemos dar muita bola para os esquemas narrativos dos escritores de mistério. Não deveria haver qualquer confusão sobre La Vie d’Adele além do tédio da duração de 3 horas, disfarçada de grande arte.

Afinal, quem se importa com quem comeu Adele Exarchopoulos?

"Faltaram lésbicas no set"

Julie, autora da graphic novel: “Faltaram lésbicas no set”

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Alemão, naturalizado canadense, Harold tem 52 anos e é, além de jornalista, diretor de cinema. Em mais de 20 anos, entrevistou atores e cineastas para a mídia americana e europeia. Com todas teve grandes conversas. Exceto por Scarlett Johansson. “Ela é uma linda diva mimada”, diz.

A tirania do mau gosto nos blockbusters do cinema by Harold Von Kursk

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Jean-Luc Godard, o apóstolo profano da Nouvelle Vague, disse certa vez que, que em algum momento, “Hollywood vai fazer apenas um filme e todo mundo vai ver.” Essa declaração, de 1968, foi uma leitura profética do destino manifesto da indústria cinematográfica internacional, que atingiu a apoteose com a abominação Avatar, de James Cameron, e se espalhou como um vírus através de telas do mundo.

Com uma trama que deveria envergonhar até mesmo um roteirista aspirante, Avatar foi um divisor de águas na história do cinema, uma vez que criou um clima incomparável de cobiça dentro das torres de marfim dos grandes estúdios. Agora, a notícia é que Homem de Ferro 3 já faturou cerca de 700 milhões de dólares de bilheteria em todo o mundo em sua primeira semana de lançamento. O filme possui todos os clichês para alcançar um triunfo extraordinário do nada.

Nada nele é real. Não há nenhum ponto, nenhum significado, nenhuma substância, nada que se aproxime de uma verdadeira aparência da personalidade humana. É como se a aplicação do conceito de “suspensão da descrença” – a velha ideia de que o público está disposto a suspender as percepções comuns da lógica e da compreensão para permitir que a imaginação aceite narrativas, personagens e enredos artificiais – tivesse alcançado o orgasmo total.

Num excelente filme de Wim Wenders, de 1976, No Decurso do Tempo, um dos personagens principais afirma: “Os ianques colonizaram nosso subconsciente.” O que aconteceu com Hollywood?

Nos anos 60 e 70, o cinema americano ainda estava vivo e bem em termos de sua capacidade de produzir um quinhão de filmes notáveis ​​que os estúdios não estavam dispostos a bancar.

No início dos 70, por exemplo, os estúdios faziam coisas aclamadas pela crítica, como Cada Um Vive Como Quer, Operação França, Os Implacáveis, O Poderoso Chefão, Chinatown, O Estranho no Ninho, O Longo Adeus et al. Diretores como Arthur Penn, Robert Altman, Roman Polanski, Bob Rafelson, Sam Peckinpah e William Friedkin eram os “touros indomáveis” (como Peter Biskin os definiu em seu livro Easy Riders, Raging Bulls) de uma brilhante nova geração de cineastas.

Ao longo do caminho, diretores altamente iconoclastas e inventivos como David Lynch e John Dahl tentaram abrir caminho em favor de um cinema mais corajoso, antes de desaparecer no esquecimento. A paisagem, uma vez sublime, do cinema americano deu lugar à estupidificação generalizada que tem deixado autores de lado, na busca desesperada de financiamento e distribuição. Os estúdios se prostraram diante de um algoritmo de marketing infernal, que deriva do impulso de fazer filmes para adolescentes em busca da promessa de sexo pós-pipoca.

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“Crepúsculo”
É por isso que Robert Redford, ex-golden boy de Hollywood, decidiu tornar-se um produtor independente e fundou o Instituto Sundance como um meio de criar um fórum permanente para o cinema independente. Enquanto ainda era escravo das tarifas dos estúdios, Redford usou seu nome e suas finanças pessoais para financiar uma grande variedade de filmes – O Candidato, Jeremiah Johnson e Todos os Homens do Presidente, a crônica de Watergate. Seu último filme, The Company You Keep, sobre o movimento subversivo Weather Underground, mostra que ele ainda tem o compromisso de combater o sistema em algum nível.

Significativamente, os grandes estúdios de Hollywood nunca contribuíram com um centavo para o Sundance. Sexo, Mentiras e Videotape, de Steven Soderbergh, foi gerado lá, como muitas outras pedras preciosas independentes, como O Balconista e Cães de Aluguel.

Mas esses diretores enfraqueceram quando assumiram seu compromisso com a popularidade. Tarantino tem se fetichizado em uma orgia repetitiva de violência e excesso como em Django. Soderbergh aparentemente decidiu se aposentar. Apenas os irmãos Coen continuam firmes. Onde Os Fracos Não Têm Vez ganhou o Oscar de melhor filme e o mais recente Inside Llewyn Davis, co-estrelado por Justin Timberlake e Carey Mulligan, foi selecionado para o Festival de Cannes deste mês.

Infelizmente, com o declínio e desaparecimento dos Altmans, Rafelsons, Ashbys, Peckinpahs, Friedkins, Lynchs e Dahls, o cinema independente americano foi englobado e subvertido por Hollywood. Hoje, a inteligência das pessoas foi corrompida por uma fonte incessante de blockbusters de destruição em massa, com sua demanda cada vez maior de efeitos especiais e personagens de desenho animado. Mesmo após o renascimento fracassado de Super Homem, de 2007, um novo filme está para estrear, com a esperança de reviver a marca.

Durante a última década, temos visto uma explosão de longas inspirados em desenho animado que beira o absurdo – Demolidor, Mulher-Gato, Elektra, X-Men, e, claro, o criminoso degenerado Lanterna Verde, para não mencionar Hulk (pode haver algo mais absurdo do que Ang Lee dirigindo um filme sobre um mutante radioativo com o cabelo ruim?)

A série Crepúsculo transformou os protagonistas Robert Pattinson e Kristen Stewart em ícones, deliciando os tablóides com fofocas. Os filmes são tão mal dirigidos quanto novelas da Globo (sim, eu tentei assistir no Canadá). O filósofo Walter Benjamin expressou sua decepção com a degradação estética da Europa, referindo-se a ela como a “tirania do mau gosto.” Ele fez essa declaração em 1932. Penso no que teria dito ao testemunhar o suicídio cultural atual.

Eu fico ouvindo a melodia melancólica de Pete Seeger em Where Have All the Flowers Gone enquanto vejo a lista de blockbusters, pensando em como ficou fácil saturar as plateias com lixo. De alguma maneira, é preciso fugir disso. Talvez com Sidney Bechet ou John Coltrane como um antídoto para a dor. Ou com uma assinatura da HBO para ver Mad Men e driblar o tédio, como disse uma vez John Malkovich para Clint Eastwood.

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Harold Von Kursk-Diário do Centro do Mundo-DCM

Por que Gwyneth Paltrow é a atriz mais odiada do planeta

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Imagine uma estrela de cinema mimada, arrogante e ingênua, que batiza seus filhos como “Apple” e “Moisés”, recomenda uma dieta que até Mahatma Gandhi acharia intolerável e reafirma sua posição privilegiada na sociedade, declarando: “Eu sou quem eu sou. Eu não posso fingir ser alguém que ganha US$ 25 mil por ano”. A mesma celebridade também tem seu próprio website — GOOP – e aconselha seus seguidores a ir às compras, recomendando roupas e acessórios que custam US$ 458 mil. Ela ainda indica a sua legião de fãs que comprem uma marca rara de queijo que custa US$ 4 mil o quilo e precisa ser importado especialmente do Senegal. E, como uma medida de suas credenciais feministas, aconselha as mulheres que estão irritadas com seus maridos que passem a fazer um blow job como uma forma de aliviar a tensão.

Mas não precisamos imaginá-la. Gwyneth Paltrow, agora com 40 anos, está viva e entregando-se a um ritual de autoindulgência com renovada paixão. Com a recente publicação de seu livro de culinária de auto-ajuda, Paltrow mapeia um caminho brilhante para um nirvana dietético. Mas, como a maioria dos autointitulados messias, Gwyneth meteu os pés pelas mãos e concebeu dietas que médicos respeitáveis estão descrevendo como “cozinha negligente” e “ciência maluca”.

Paltrow é uma espécie de Maria Antonieta pós-moderna que, em vez de aconselhar as massas a “comer bolo”, recomenda “dieta de eliminação” US $ 300 por dia, que promete a salvação através de couve e outros produtos alimentares espartanos. O resultado é tão sofrível que nós somos lembrados daquela frase no filme 300: “Hoje à noite, jantaremos no inferno”.

Paltrow é inconsciente de sua incapacidade de se conectar ao mundo. Seu estilo de vida é corrompido por suas próprias pretensões elitistas. Ela aspira a ser uma fornte de sabedoria prática à maneira de Martha Stewart, mas soa como uma deusa que desce do Olimpo para ensinar as massas ignaras a levar uma vida boa.

Seria impossível inventar Gwyneth Paltrow. Ela existe em seu próprio universo alternativo, o produto de uma família rica de Nova York, cujo pai, o falecido Bruce Paltrow, foi um bem sucedido produtor de TV e diretor, enquanto sua mãe, Blythe Danner, é um atriz premiada. O padrinho de Gwyneth é Steven Spielberg e ela cresceu com as crianças mais ricas do Upper East Side de Manhattan. Logo depois começou a atuar, Hollywood a ungiu como sua última It-Girl e a relação com Brad Pitt rapidamente a transformou em uma celebridade cuja beleza era amplificada pela tela grande. Seu Oscar por “Shakespeare Apaixonado” foi comprado em grande parte pelo svengali da produtora Miramax, Harvey Weinstein, em uma das mais impressionantes campanhas promocionais da indústria cinematográfica. Seu discurso choroso foi talvez o ponto alto de sua fama e ela estava à beira de se tornar uma Grace Kelly moderna.

Mas “Gwynnie”, como seus amigos a chamam, se autoimplodiu. Ela nunca iria encontrar um outro filme ou papel que correspondesse à glória circundante de “Shakespeare”. Casamento e filhos deveriam preencher seu vazio em Hollywood, mas depois de enfrentar uma terrível depressão pós-parto, ela tentou se reinventar com a culinária. Como Anne Hathaway, ela tenta demasiadamente ser amada e aceita, e agora o mundo se virou contra ela. Como Beyoncée, tornou-se intoxicada com sua própria imagem e senso de autoimportância.

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O livro de receitas suicidas
Em uma época de reality shows depravados e acelerada degradação cultural, Paltrow evoluiu para uma Paris Hilton. Alegando ter quase morrido depois de um aborto espontâneo, ela quer levar aos fãs um apocalipse gastronômico pós-vegan. O ódio de Paltrow, a diva da dieta detox, pode ser explicado em alguns itens:

1. Sua dieta

Com o seu site GOOP, Paltrow apresenta-se como guru de um estilo de vida saudável. Mas, ao longo dos últimos anos, criou um regime exigente e rarefeito que inspirou descrença generalizada e a condenação de fãs, médicos e nutricionistas.

Embora ela esteja nessa balada hoje, em 2010 admitiu que passou três meses de Nashville se entupindo de frango frito e cerveja enquanto trabalhava no filme “Country Strong”. Durante esse tempo, ela admitiu ter ficado “nua e chorando” no set e falava para seus filhos: “Não, vocês não podem visitar a mamãe hoje”.

2. Sua pretensão crônica

Suas inúmeras gafes e a propensão a fazer pronunciamentos oraculares em vida são terríveis. Ela pontifica de uma forma que irrita, surpreende e causa vômitos projetivos.

“Eu sou apenas uma mãe normal, com as mesmas lutas de qualquer outra mãe que está tentando fazer tudo de uma vez e tentar ser uma esposa e manter um relacionamento. Não há absolutamente nada perfeito da minha vida, mas eu tento arduamente torna-la perfeita.”

“Sou realmente muito boa no meu trabalho. Pessoas que são interessantes e importantes sabem disso e o que importa.”

“Eu prefiro morrer a deixar meus filhos comerem sopa instantânea”.

“Eu me sinto em perfeita harmonia comigo mesmo.”

“Eu não preciso comprar maçãs porque eu tenho um pomar no quintal da minha casa (uma mansão nos Hamptons)”.

“Eu tenho a bunda de uma stripper de 22 anos de idade.”

“Eu prefiro fumar crack a comer queijo industrializado.”

3. Sua arrogância e delírios de grandeza

“Quando você vai a Paris e seu concierge te recomenda algum restaurante, sua reação deve ser: ‘Prefiro um bar com vinhos orgânicos. Onde posso obter um depilação na virilha em Paris?’”

“Eu não tenho amigos que bebem. Meu amigos são adultos. Acho incrivelmente embaraçoso quando as pessoas estão bêbadas. É ridículo. Eu penso: ‘Oh, você está se envergonhando agora ficando bêbado em público”.

4. Sua ingenuidade e estupidez

Em uma recente entrevista para a revista Harper’s Bazaar, Gwyneth fez uma reflexão filosófica:

“O que torna a vida interessante é encontrar o equilíbrio entre cigarros e tofu.”

E emendou: “Não é simplesmente maravilhoso ser Gwyneth Paltrow?”

Harold Von Kursk-Diário do Centro do Mundo-DCM

Alemão, naturalizado canadense, Harold tem 52 anos e é, além de jornalista, diretor de cinema. Em mais de 20 anos, entrevistou atores e cineastas para a mídia americana e europeia. Com todas teve grandes conversas. Exceto por Scarlett Johansson. “Ela é uma linda diva mimada”, diz.

Uma mentira conveniente: por que “Argo” é uma fraude histórica

O filme de Ben Affleck inverte e distorce os fatos em sua tentativa frenética de apresentar um agente da CIA como heroi.

A cena em que os fugitivos são parados no aeroporto: isso nunca aconteceu

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Durante o stalinismo, a história foi reescrita com freqüência em conformidade com a ortodoxia soviética. O protagonismo de Leon Trotsky, um dos principais arquitetos da Revolução Russa de 1917, foi minimizado ou apagado – até mesmo fotos de Trotsky em pé ao lado de Lenin, Stalin e outros membros do comitê central foram desajeitadamente retocadas para remover vestígios de sua existência.

Com “Argo”, um exercício desenfreado de ufanismo americano e imperialismo cultural, Ben Affleck cometeu uma forma similar de fraude. Essa é a opinião de Ken Taylor, o ex-embaixador canadense no Irã que realmente arquitetou a fuga dos seis reféns que ele e o primeiro-secretário da embaixada John Sheardown haviam escondido em suas casas, em situação de risco pessoal considerável.

“Foram três meses de preparação intensiva para a fuga”, explica Taylor. “Eu acho que o meu papel foi um pouco mais importante do que abrir e fechar a porta da frente da embaixada.” (Essas são essencialmente as imagens que comprovam a existência de Taylor no esquema criacionista de Argo.)

Affleck fez um filme de propaganda, uma auto-felação que inverte e distorce os fatos em sua tentativa frenética de apresentar o agente da CIA Tony Mendez (interpretado por ele mesmo) como a pessoa que trabalhou nos bastidores para realizar a retirada. O roteiro se baseia em documentos confidenciais da CIA, abertos ao público nos anos 80, que revelaram como Mendez desenvolveu um disfarce para os seis americanos – o de uma equipe de cinema que queria fazer um filme de ficção científica no Irã.

Essa é a única parte do filme de Affleck que possui alguma verdade. Praticamente todo o resto é uma mentira para satisfazer um público americano faminto de heróis.

O embaixador do Canadá, Ken Taylor: “concierge de luxo” na visão de Affleck

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“Tony Mendez ficou um dia e meio no Irã”, diz Ken Taylor. Em vez de apresentar um relato honesto de uma missão de resgate histórico, que o embaixador canadense tinha em grande parte planejado e que a CIA apenas ajudou a executar, Affleck se entrega a uma pirotecnia mal disfarçada que corrompe a verdade, dando primazia ao envolvimento dos EUA.

Na sexta passada, a frustração de Taylor atingiu o limite. “Não haveria filme sem os canadenses. Abrigamos os seis sem que nos fosse solicitado”. Argo tem recebido vários prêmios nos últimos meses. Embora Affleck tenha sido supostamente “esnobado” por Hollywood ao não ser apontado na lista de melhor diretor no Oscar, seu longa recebeu várias indicações.

Além de “Argo” ter sido canonizado por ligas e premiações de diferentes setores nos meses passados, a questão mais ampla é como Affleck conseguiu enganar tanta gente em seu caminho para a glória da crítica, apesar das enormes distorções, invenções e fabricações que o filme comete para defender a CIA como um grupo de espiões inteligentes. Como a Grande Mentira tomou conta da imaginação limitada de Affleck?

“Argo” se situa no Irã, logo após a queda do Xá em 1979, quando a Guarda Revolucionária invadiu a embaixada americana. Seis funcionários conseguiram escapar e se esconderam por vários dias até que dois deles entraram na residência do casal Pat e Ken Taylor. Outros quatro foram para a casa de John Sheardown e de sua mulher Zena depois que o funcionário consular Robert Anders telefonou para o amigo Sheardown pedindo que ele o recebesse com seus três colegas fugitivos. “Por que você demorou tanto?”, foi a resposta do Sheardown.

(Nada disso aparece na versão de Affleck. Sheardown sequer é mencionado.)

Os fugitivos passaram três meses no limbo das duas residências até que Taylor finalmente convenceu um reticente departamento de estado americano de que as autoridades iranianas estavam começando a farejar as casas.

Em seu zelo para contar a história do agente Tony Mendez, Affleck reescreveu boa parte da história e enxugou radicalmente o papel do embaixador. Não foi só ele que deixou clara sua discordância. Em uma entrevista para o jornalista Piers Morgan na semana passada, o ex-presidente americano, Jimmy Carter, afirmou que “90% do plano foi dos canadenses”, mas o filme “dá crédito quase completo à CIA”.

Affleck defende sua selvageria autoral dizendo que uma TV canadense já havia feito um filme em 1981. De acordo com ele, “Argo” foi concebido para revelar o “papel secreto da CIA” – que basicamente se resume à criação de uma equipe de cinema a fim de enganar os funcionários da alfândega no aeroporto de Teerã. “Este filme mostra um maravilhoso espírito de colaboração e cooperação. É um grande cumprimento para o Canadá”, afirmou Affleck para mim.

(Taylor tinha originalmente planejado que eles se passassem por engenheiros, apenas para ter sua ideia rejeitado pela CIA, que de alguma forma bizarra pensou que o approach hollywoodiano fazia mais sentido.)

Os fugitivos são recebidos na Casa Branca em 79: a CIA foi coadjuvante

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Não havia absolutamente nenhuma necessidade de transformar o papel central do embaixador num “concierge” de luxo, que basicamente servia bebidas e canapés e seguia ordens. Taylor, que é interpretado pelo canadense Victor Garber, declarou que “‘Argo’ faz parecer que os canadenses estavam ali apenas a passeio”.

Affleck respondeu um tanto irritado: “Eu admiro Ken por seu papel no resgate. Estou surpreso que ele continue a ter problemas com o filme”. Em outubro, quando Argo estava sendo lançado na América do Norte, Affleck soube que Taylor estava começando a falar publicamente sobre sua decepção com seu trabalho. Ben Affleck organizou às pressas uma exibição e, depois de ouvir suas objeções, concordou em inserir um texto no início dos créditos: “O envolvimento da CIA complementou os esforços da embaixada canadense”.

A verdade é outra: Taylor planejou a fuga, enquanto a CIA e seus homens, Mendez à frente, simplesmente ajudaram a preparar o estratagema esquisito que serve como um contraponto cômico para o drama subjacente no Irã. Tony Mendez era uma espécie de assessor técnico. Mas, na narrativa falsificada de Affleck, todo o heroísmo é reservado para seu alter ego.

A história real por trás da fuga evoluiu de outra forma. Durante os quase três meses em que os seis fugitivos estiveram escondidos, o governo canadense em Ottawa preparou documentos oficiais – passaportes, carteiras de motorista, até mesmo alfinetes com a bandeira –, enviados a Teerã via mala diplomática.

O papel da CIA foi forjar os vistos de entrada – mas até isso eles conseguiram ferrar. Os selos falsos continham um erro catastrófico feito por um agente, que se equivocou na data de entrada. Um membro da embaixada canadense, Roger Lucey, apontou a burrada (ele podia ler farsi, em oposição ao apparatchik da CIA). Lucey passou várias horas debruçado sobre uma lupa, forjando os passaportes e torcendo para que seu trabalho penoso passasse despercebido pelas autoridades.

Outro ato flagrante de omissão de Argo é que a CIA contou com Taylor para fornecer informações sobre o caos da tomada de reféns em curso na embaixada dos EUA, onde 52 americanos ainda estavam sendo mantidos em cativeiro pela Guarda Revolucionária. Taylor pediu a um sargento canadense, Jim Edwards, que saísse e monitorasse, com seu time, a área ao redor da embaixada dos EUA durante várias semanas, para uma possível missão dos Estados Unidos.

Edwards foi detido e interrogado por cinco horas, até ser liberado por volta da uma da manhã. “Nós bebemos um monte de uísque juntos”, Taylor recordou. “Ele poderia facilmente ter sido preso como um espião.”

Mark Lijek, um dos dois americanos que passaram 79 dias na casa de Sheardown, confirma o relato. “Toda a embaixada canadense passou a se concentrar em nossa sobrevivência e eventual saída, o que é praticamente sem precedentes na história diplomática”, Lijek explicou. “É triste que Argo ignore tudo isso.”

O passeio no bazar: só na cabeça do cineasta

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Argo também inventa três cenas-chaves que nunca aconteceram. A primeira é quando Affleck-Mendez leva os fugitivos a um local e atravessa um bazar iraniano. “Isso teria sido suicida,” diz Lijek. A segunda instância da imaginação fantasiosa de Affleck é a sequencia do aeroporto, no final, em que a Guarda Revolucionária interroga o grupo – o que simplesmente nunca aconteceu.

Finalmente, “Argo” inventa o clímax em que um jipe militar cheio de soldados armados persegue o avião na pista. “É tudo ficção”, conta Taylor. “Foi bom ir ao aeroporto – exceto por nossos nervos”.

Affleck é um homem cujo coração está normalmente no lugar certo. Ele apoia causas liberais, defende a liberdade de expressão, é delicado nas entrevistas e frequentemente crítico da direita republicana. Mas ele ou é terrivelmente ingênuo ou estúpido quando se trata de sua leitura do registro histórico. Ele achou que seu bolo fofo de entretenimento lhe dava a “licença artística” para cortar, ajustar e mentir. Em uma entrevista ao Hollywood Reporter, afirmou que era um ex-estudante de assuntos do Oriente Médio da Universidade de Vermont e que escreveu um artigo sobre a revolução iraniana.

Mas, como um crítico frequente da política externa americana e da administração Bush, por que Affleck decidiu cantar os louvores da CIA, que projetou a queda de Mossadegh e a subsequente substituição pelo Xá?

Ele deveria checar os fatos. Podemos perdoar a adição de um jipe ​​carregado de metralhadoras perseguindo um jato comercial. Podemos perdoar a adição de um tour suicida em um bazar lotado. Podemos até perdoar “Argo” por fazer John Sheardown desaparecer. Mas não há como desculpar uma visão manipuladora e irremediavelmente distorcida da realidade para maquiar uma peça de propaganda.
HAROLD VON KURSK 25/02/2013-Diário do Centro do Mundo

Bin Laden pode levar o Oscar

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O filme “A Hora Mais Escura”, sobre a caçada ao líder da Al-Qaeda, está bombando
Antes mesmo de entrar em cartaz, o filme já ganhou seus primeiros prêmios.
Quando a corrida para o Oscar parecia já ter seu principal candidato a vencedor com The Master, de Paul Thomas Anderson, eis que aparece um grande concorrente, causando polêmica e arrecadando prêmios: A Hora Mais Escura, o novo filme da diretora Kathryn Bigelow em parceria com o roteirista Mark Boal, ambos vencedores no Oscar de 2010 por Guerra ao Terror.

A Hora Mais Escura, que estreia dia 18 de janeiro no Brasil, conta a história da caça do exército americano a Bin Laden. O título não apenas se refere a um termo cunhado pelos soldados para denominar o horário (meia-noite e meia) da missão, como a escuridão dela em si.

O roteiro original era focado no começo da década passada, quando se acreditava que Bin Laden estava escondido nas montanhas afegãs de Tora Bora. Mas a morte do líder da Al-Qaeda em 2011 forçou-os a reescrever grande parte da história.

Mesmo antes de começar a ser rodado, o filme já causava polêmica, acusado de ser pró-Obama. Por conta disso, teve sua data de lançamento remarcada para dezembro de 2012. Inicialmente, o filme entraria em cartaz em outubro, exatamente um mês antes das eleições. Além disso, a liberação de conteúdo confidencial do governo aos produtores envolvidos no projeto foi motivo de muita discussão. Muitos jornalistas afirmaram que as informações favoreciam Obama.

Jessica-Chastain
Jessica Chastain faz uma agente da CIA no longa
Com toda essa Controvérsia, o filme estreou no Festival de Nova York e acabou aclamado pela crítica, vencendo os prêmios de Melhor Direção, Melhor Filme e Melhor Direção de Fotografia, além de render elogios a Jessica Chastain, que vem se firmando como uma das grandes atrizes do cinema atual desde sua participação em A Árvore da Vida, de Terrence Mallick. Jessica faz uma agente da CIA que participa da operação.

Mesmo polarizando opiniões, A Hora Mais Escura tem tudo para ser um dos maiores filmes do ano, juntando a competência do time de Guerra ao Terror a um dos acontecimentos mais marcantes deste século, tornando-se histórico por ser o primeiro a abordar, com informações extraídas diretamente de documentos do governo americano, o assassinato do terrorista mais conhecido do mundo, responsável pela catástrofe de 11 de setembro.

E, definitivamente, entrará para a corrida do Oscar 2013, com grande possibilidade de receber os votos patrióticos da Academia.
DIEGO MARQUES__Diário do Centro do Mundo

Connery, Moore ou Craig: quem foi o melhor James Bond? (Alguém falou em George Lazenby??)

Você pode gostar mais de Sean Connery, e você estará correto, mas cada um dos seis atores contribuiu para a carreira de uma das franquias mais longevas e bem-sucedidas do cinema (mais de 15 bilhões de dólares). Operação Skyfall tem estreia marcada para 26 de outubro e fará crescer o bolo da bondmania em mais alguns milhões.

Criado em 1953 pelo escritor inglês Ian Fleming, bon-vivant nascido numa família rica, com passagem pela Inteligência Naval britânica, James Bond já nasceu, de certa forma, anacrônico, como um heroi de um império em decadência (“Antigamente, nós lhes mostrávamos os dentes. Hoje, apenas as gengivas”, diz ele em Moscou Contra 007). A Guerra Fria acabou, as mulheres tomaram o poder, ninguém mais pede dry-martini, mas ele continua vivo e saltitante.

Há 50 anos, em O Satânico Doutor No, o escocês Sean Connery, com sua peruca, incorporou pela primeira vez o homem com licença para matar e consolidou um tipo inesquecível: violento, aristocrático e macho. Com a passagem dos anos, James Bond teve de se adaptar. Roger Moore era mais suave e palhaço. Daniel Craig, o atual, é bombado e triste. Timothy Dalton era.. quem era Timothy Dalton? Lembre-se:

SEAN CONNERY

O primeiro e, para muitos, definitivo Bond: atlético, sarcástico, predador sexual, mestre do wit. Connery estrelou a série seis vezes, até 1971, voltando em 1983 para o auto-referente Nunca Mais Outra Vez. Por razões financeiras, ele se recusou a participar das comemorações de 50 anos do personagem. Curiosamente, Ian Fleming preferia outro para seu agente: Cary Grant. Ainda bem que Grant não topou.

GEORGE LAZENBY

Embora tenha feito apenas A Serviço Secreto de Sua Majestade, considerado o melhor livro de Fleming, o ex-modelo Lazenby conferiu um lado mais dark a 007, que foi seguido por Daniel Craig depois. Mas não sobreviveu à avalanche de críticas e à sombra de Connery. Podia ter passado sem uma frase, depois que uma garota rouba seu carro na praia: “Isso nunca teria acontecido com o outro cara”.

ROGER MOORE

Engraçado, às vezes patético, mas não era culpa dele. James Bond tinha de se virar com as feministas, os pacifistas e uma década em que todo o mundo, sem exceção, se vestia mal. Moore, a certa altura, virou aquele tio que conta piadas de pavê. Fora as sequencias estapafúrdias, como aquela em que ele começa descendo o rio Amazonas e termina nas cataratas do Iguaçu. De qualquer maneira, fez pelo menos dois clássicos: O Espião Que Me Amava, com o inesquecível vilão Jaws e seus dentes de aço, e Somente Para Seus Olhos.

TIMOTHY DALTON

Marcado Para Morrer foi um sucesso. Em compesanção, tinha a maldita música-tema do A-ha, Living Daylights. Era o único dos intérpretes com passagem pela Royal Shakespere Academy, o que, rigorosamente, não quer dizer nada, a não ser que ele conseguia declamar algumas falas de Hamlet. O segundo filme, Licença para Matar, flopou miseravelmente e levou Dalton consigo. No auge do pânico da Aids, ninguém queria saber de um agente secreto adepto do sexo casual e frequente.

PIERCE BROSNAN

Brosnan esteve em quatro filmes de James Bond, todos eles bem sucedidos. O primeiro foi GoldenEye. 007 não ficava tão bem num tuxedo desde Sean Connery. Ele conseguiu juntar a ironia de Connery ao lado paspalho de Moore (Brosnan é um bom comediante, aliás). Beneficiou-se, também, dos avanços tecnológicos do cinema, com filmes em que explosões e perseguições ganharam espaço. Espaço demais, para alguns.

DANIEL CRAIG

O nanico Craig (ele teve de usar palmilhas em Quantum of Solace diante de um dos vilões) é um pouco sério e sensível demais, mas, novamente, é sinal dos tempos. Casino Royale é um dos grandes filmes da série, com a linda Eva Green e seu olhos verdes fazendo o homem sofrer como nunca. Em Operação Skyfall, Craig tem de lidar com o passado nebuloso da chefe M (Judi Dench, ou Dame Judi Dench, a Fernanda Montenegro deles). Precisa dar um desconto. Seja como for, com Craig ou sem Craig, 007 estará por aqui pelos próximos 50 anos.

Kiko Nogueira
Jornalista, músico e ex-falso ponta esquerda mais falso do futebol brasileiro. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

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