Agenda Hollywood e os super-heróis: ingovernabilidade para o mundo

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Por Wilson Roberto Vieira Ferreira ( CineGnose )

Numa manhã de domingo de 2001 Karl Rove, Vice-Chefe da Casa Civil do presidente Bush, reuniu-se em Beverly Hills com os chefões de Hollywood. Era o início da criação da “Agenda Hollywood” para esse século – mais uma vez, a indústria do entretenimento norte-americana era convocada  a servir de braço político para o jogo geopolítico mundial. Na época, o terrorismo da Al Qaeda. Hoje, as várias “primaveras”, árabe e brasileira, e o xadrez político jogado contra os países que compõem os BRICS. Sincronicamente quando a Agenda Hollywood intensifica a presença das franquias de super-heróis nas telonas, as diversas “primaveras” (manifestações e protestos em diversos países) são tomadas por bizarros adereços do super-heróis do cinema como metáforas de solução para crises políticas nacionais. Com isso, a Agenda Hollywood avança da simples propaganda para o “neurocinema”: moldar a percepção de que problemas podem ser resolvidos através da amoralidade dos super-heróis. A palavra-chave do jogo é indução à ingovernabilidade em países emergentes, como o Brasil.

Era novembro de 2001. Sob o impacto dos atentados de 11 de setembro daquele ano nos EUA, Karl Rove, Vice-Chefe da Casa Civil da administração George Bush, reuniu-se numa manhã de domingo com os chefões da indústria do entretenimento no Peninsula Hotel, Beverly Hills.

Estavam lá Summer Redstone, dono do império Viacom (MTV e Estúdios Paramount), Rubert Murdoch (News Corporation, rede Fox, 20th Centrury Fox, rede de TV Star na Ásia e jornais The Times e The Sun), presidente da Walt Disney Co. Robert Iger, presidente da MGM Alex Yemenidijian, o chefe da Warner Bros. Television Tom Rothman. Além de diretores, atores de Hollywood e roteiristas.

Numa reunião de 90 minutos, Rove exibiu para a plateia slides em Power Point sobre a história e alcance da rede terrorista Al Qaeda de Osama Bin Laden. Com muitas informações até então restritas à Inteligência da Casa Branca.

O resultado final foi a criação de uma agenda para Hollywood projetada para os próximos 20 anos: linhas gerais de criação de conteúdos (narrativas, temas, personagens etc.) buscando transformar TV e Cinema em uma braço dos esforços de propaganda de guerra.

Filmes militares, históricos e de super-heróis

Rove pediu conteúdos não só para o público interno, mas principalmente para as unidades militares da linha de frente e para os povos das zonas de conflito: “nós temos um monte de filmes, mas todos estão velhos e já assistiram milhares de vezes”, disse Rove para a plateia. Especificamente Rove pediu mais filmes “de família” e mencionou especificamente filmes como O Senhor dos Anéis e Harry Potter e a Pedra Filosofal.

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Para o público interno filmes que salientassem o heroísmo e a ameaça externa; para o mundo, os valores familiares e morais pelos quais os EUA supostamente lutam pelo mundo afora.

Desde então, Hollywood iniciou uma escalada de filmes sobre protagonistas nas frentes do Afeganistão e Iraque (militares ou jornalistas) ou filmes “históricos” cujo ápice foi o filme Argo, premiado com o Oscar em um link ao vivo direto da Casa Branca – Michelle Obama abrindo o envelope de Melhor Filme de 2013 – sobre o filme como peça de propaganda clique aqui.

Sem falar a intensificação da exibição de franquias dos super-heróis da Marvel Comics e DC Comics como Homem Aranha, Batman, Os Vingadores, Homem de Ferro (no filme de estreia o protagonista Tony Stark é sequestrado por terroristas no Afeganistão), X-Men, entre outros. O que lembra os esforços de propaganda durante a Segunda Guerra Mundial quando os super-heróis Capitão América e Super-Homem era convocados a lutar contra os nazistas nas histórias em quadrinhos.

Quinze anos depois da criação dessa agenda pelos chefões do entretenimento, tudo leva a crer que o plano convocado por Karl Rove em 2001 tem hoje novos desdobramentos geopolíticos com a ascensão dos BRICS (Rússia, China, Brasil, Índia, África do Sul – projeto orgânico de alcance global que ameaça bloquear os planos expansionistas dos EUA) no cenário político-econômico global.

Vivemos atualmente a instabilidade política em dois países dos BRICS: Brasil e Rússia. No Brasil, o coquetel jurídico-midiático da “ingovernabilidade” e contra a Rússia a demonização da “agressão russa” na crise da Ucrânia e Síria e o ataque contra o rublo.

Hoje à propaganda comum do american way of life e demonização dos muçulmanos é acrescentada uma nova tática: o neurocinema. Mais uma vez a mitologia dos super-heróis é convocada para que a percepção da opinião pública dos países emergentes seja moldada não por valores explícitos de propaganda americana – mas pela amoralidade subliminar dos super-heróis (acima do Bem e do Mal, somente a Justiça) aplicada à suposta solução da corrupção e ingovernabilidade.

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Guerra Total

Os EUA tiveram que esperar até a Segunda Guerra Mundial para compreenderem a noção de “guerra total” do nazi-fascismo – a guerra não é apenas travada no campo de batalha mas principalmente no campo do imaginário da propaganda midiática e na esteticização da política.

Desde os primórdios do cinema a elite política e cultural dos EUA via a proliferação dos nickelodeons (diversão barata  para proletários, desocupados e migrantes) como uma ameaça a ordem pública com o riso descontrolado das massas que viam seus heróis nos filmes burlando autoridades e policiais.

Com a ascensão de Hollywood como indústria a partir de 1920, as imagens e a fúria do primeiro cinema foram domesticados pelo Código Hays de restrição temática e moral e por Edgar Hoover, do Bureau of Investigation, que passou a mapear filmes supostamente imorais e “anti-americanos” numa época onde conflitos trabalhistas e repressão policial cresciam.

Mas do outro lado do Atlântico o nazi-fascismo via o Cinema de outro modo. Hitler era obcecado com o poder de propaganda dos filmes. Segundo Ben Urwand no livro The Collaboration: Hollywood’s Pact With Hitler, os nazistas promoveram ativamente filmes americanos como Capitains Courageous (1937) que, acreditavam, promovia valores arianos. O livro revela o temor de Hollywood um perder o seu segundo maior mercado de distribuição, passando a cortar nomes de judeus nos créditos de filmes e evitar roteiros que sugerissem qualquer crítica a Hitler ou Nazismo – Hollywood não faria um filme anti-nazista até 1940.

Rolos de filmes alemães ou norte-americanos que passavam pelo crivo nazi eram levados aos países ocupados pelas blitzkrieg para serem exibidos nas linha de frente como um plano que ia além da propaganda militar – disseminar os valores arianos aos povos derrotados.

 

Mussolini no filme “Eternal City” (1922)

Mussolini

Hollywood e o fascismo

Já na Itália, os fascistas contavam ainda com artistas Futuristas que viam na guerra uma obra de arte em si mesma: a destruição do passado clássico dos museus e estátuas que instituiria a nova arte baseada na modernidade radical: máquina, foguetes e velocidade.

Ao lado de Hitler, Mussolini também soube compreender como o cinema poderia ser ferramenta de propaganda. Rodado no mesmo ano da Grande Marcha Sobre Roma que iniciou sua ascensão ao poder, Mussolini atuou interpretando ele mesmo no filme The Eternal City (1922) onde o fascismo era mostrado como o grande salvador do mundo. O filme permitiu ao regime fascista aproveitar-se de uma produção americana para levar sua mensagem para além da Itália, coisa que um filme italiano jamais teria conseguido.

Ou seja, se a elite norte-americana temia que o cinema e o entretenimento pudessem provocar desordem pública e anomia social, ao contrário, os nazi-fascistas viam no cinema uma ferramenta preciosa para criar novas ordens.

Tudo mudou com o ataque japonês a Pearl Harbor, forçando a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial. O presidente Roosevelt anuncia uma novidade: a Agência de Informação de Guerra com escritório em Hollywood para incentivar produtores e roteiristas a realizar produções patrióticas e anti-nazistas e anti-japoneses.

O que se viu a seguir foi uma série de filmes antigermânicos e antinipônicos com conotação racista. Alemães e japoneses eram chamados de “hunos”, “bestas”, “ratos de olho puxados”, “macacos amarelos”. E os temas recorrentes sobre histórias de sobrevivência e fuga, a vida em campos de concentração, espionagem e companheirismo nas tropas etc.

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Super-heróis vão à guerra

No esforço de propaganda associam-se a Hollywood os comics do Superman (herói criado na Grande Depressão para defender “a verdade, a justiça e os valores americanos) e do Capitão América. Passada a Guerra, a mitologia dos super-heróis até viveu uma breve fase progressista ajudando a desmoralizar grupos racistas como, por exemplo, quando em um episódio o Superman enfrenta a Ku Kux Klan. Mas esse esforço em criar uma consciência social nos jovens foi imediatamente reprimida quando criou-se a Comics Code Authority, instrumento de autocensura da indústria do entretenimento para eliminar “conteúdos mais violentos”.

Mas na verdade os murros e sopapos dos super-heróis foram redirecionados para finalidades menos sociais e muito mais patrióticas no contexto da Guerra Fria e a ameaça comunista – uniram-se à TV e Cinema na forma de séries, animações e filmes. Tal como hoje onde as franquias de super-heróis voltam a dominar as telas em uma geopolítica mundial ameaçada pelos terrorismo e os BRICS.

A palavra-chave é ingovernabilidade, a arma atual de propaganda dos EUA para desestabilizar países do Oriente Médio e dos BRICS, em particular o seu elo mais fraco: o Brasil. A intensificação das franquias Marvel ou DC Comics na telona é mais um capítulo da atual Agenda Hollywood.

A mitologia dos super-heróis não é explorada como propaganda explícita de valores norte-americanos, mas atualmente como estratégia de agenda setting ou ”  neurocinema” – a criação de um novo modelo cognitivo de percepção da opinião pública sobre impasses e mazelas políticas e econômicas internas de cada país alvo do xadrez geopolítico dos EUA.

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As versões nacionais de super-heróis nas diversas “primaveras”: acima, Egito e Brasil; abaixo, Paquistão (Batman, Superman e Lanterna Verde)

O super-herói amoral

A presença de novas versões de super-heróis nas chamadas “novas primaveras”, sejam árabes ou brasileiras (manifestações e protestos internos contra governos democraticamente eleitos, porém incômodos aos jogo global) é sintomática e recorrente. Brasil, Síria, Afeganistão e Paquistão apresentam bizarras novas versões dos super-heróis hollywoodianos em manifestações e veículos midiáticos.

A aplicação do modelo cognitivo do super-herói como expressão de problemas e soluções possui evidentes implicações ideológicas: a amoralidade política. Assim como os super-heróis são capazes de enfrentar seus inimigos destruindo cidades inteiras (desprezando baixas civis inocentes como “efeitos colaterais” na busca da Justiça), da mesma forma a busca de super-heróis nacionais implica em colocar abaixo o Estado de Direito e a Constituição como fosse  também um inevitável “efeito colateral” da luta contra governos corruptos – sobre a amoralidade dos super-heróis clique aqui.

Só existiria uma coisa além do Bem e do Mal para o super-herói: a Justiça. Em nome dela, Os Vingadores ou a Liga da Justiça podem fazer de tudo inclusive suspender direitos e garantias democráticas. Tudo que a geopolítica norte-americana precisa para tornar a política e economia interna de países-chave ingovernáveis e economicamente instáveis, quebrando a resistência de potencias regionais emergentes.

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Além disso, é sincrônico não só as representações de um juiz de primeira instância como Sérgio Moro como super-herói nas manifestações. Mas principalmente, em pleno momento de radical polarização política e os primeiros conflitos nas ruas, surgem nos cinemas um novo tema na saga dos super-heróis: lutas entre eles mesmos, divisões e guerra civil – Batman Vs Superman – A Origem da Justiça e Capitão América: Guerra Civil onde vemos países com opinião pública dividida levando ao conflito entre super-heróis.

Justamente quando lentamente, aqui e ali, em editorias de jornais, comentários em blogs e artigos em diversos veículos fala-se sobre um temor de “guerra civil” precipitado pelo atual ódio político.

Levando em consideração o histórico das ligações promíscuas entre Hollywood e as necessidades geopolíticas mundiais e como os EUA aprenderam tão bem as lições nazifascistas sobre propaganda e estetização da política, chega a ser preocupante esse timing e sincronismo entre os lançamentos do cinema e a realidade política das ruas.

CineGnose -Wilson Roberto Vieira Ferreira

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Spotlight:O silêncio das redações na mídia de Boston e do Brasil

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Surpresa no Oscar! Há vida inteligente no cinema americano. Um belo filme disputou e ganhou a estatueta de Melhor Filme e Melhor Roteiro Original (excelente), depois de receber aplausos e ter sido premiado também pelo Sindicato de Roteiristas de Los Angeles.  Oscars mais que merecidos.

Spotlight- Segredos Revelados, do diretor Tom McCarthy, trata da denúncia histórica de pedofilia que acabou pública, em 2002, envolvendo 249 padres criminosos e o Cardeal Bernard Law, de Boston, que acobertou nada menos que três mil casos durante 18 anos. Um episódio gravíssimo que, em médio prazo,  colocou em cheque  o corpo da igreja católica e ecoa até hoje nos quatro cantos do mundo.

O mega escândalo adormeceu durante 15 anos nas gavetas e nos arquivos do jornal The Boston Globe por conta da força de dissuasão e da influência avassaladora da igreja na cidade, maior comunidade católica dos Estados Unidos e oriunda de imigrantes irlandeses da mesma fé. Mais da metade dos assinantes do prestigioso jornal eram, na época, católicos: fieis fervorosos, a maioria praticantes,  outros, bissextos, de tradição familiar.

Muito já foi escrito sobre Spotlight no Brasil, há mais de um mês em cartaz, atraindo milhares de espectadores e candidato ao Oscar deste ano. As resenhas sobre o filme celebram, em geral, a ação do grupo de destemidos e sérios repórteres da editoria Spotlight – palavra que significa holofote, em inglês; no jargão jornalístico equivalente ao mantra ‘onde há sombras que se jogue a luz da informação’ -, do jornal The Boston Globe. Enfim, depois de uma década e meia (!) o diário pariu uma série de matérias com a sinistra história que levou algumas vítimas ao suicídio, e  lesões psicológicas irreparáveis em outras.
Quase todas as crianças violentadas, estupradas ou abusadas pelos padres vinham da população mais pobre de uma das mais opulentas, belas, bem administradas e esnobes cidades do país. Um detalhe do gênero ‘não vem ao caso’, quase nunca lembrado.

Mas o que nos incomoda e chama nossa atenção, nesse filme de linha, é o subtema do qual poucos profissionais da velha mídia tratam – e os da mídia independente também. O silêncio dos jornalistas do grande jornal bostoniano que jogavam golfe, frequentavam os mesmos bares, restaurantes, se visitavam e partilhavam de eventos sociais, eram amigos dos personagens envolvidos no escândalo abafado. Advogados, juízes, personagens ricos e respeitáveis da comunidade. Incomoda o manto de silêncio que desabou, discretamente, sobre a redação do The Boston Globe ocultando crimes da igreja católica.

Foi preciso um editor-chefe judeu, Marty Baron, vindo da Florida, (hoje ele trabalha no Washington Post) um “de fora”, como é visto com condescendência num dos diálogos; um que deseja “marcar presença pelos jornais por onde passa”, insinua-se em outra conversa, para lancetar o tumor como acabaram fazendo, com tenacidade e convicção pessoal, os da equipe da editoria de spotlight, quatro repórteres do jornalismo investigativo honesto.

O editor Walter Robinson (Keaton), chefe do grupo, quinze anos antes, quando chefiava a editoria de assuntos de cidade fora um dos jornalistas que ajudaram a fazer morrer o assunto publicando uma reles notícia sobre o assunto e ‘matando’ a produção de uma suíte.

No filme, acrescenta-se: “Faltou responsabilidade editorial a um jornal que, se é, na verdade, independente, deve defender as instituições” iluminando com seus holofotes os desmandos e abusos eventuais delas. Do contrário, se corre o risco de comunidades inteiras silenciarem (e se acumpliciarem) como ocorreu com os ‘bons alemães’ no período nazista, como também é mencionado num diálogo.

Roteiro enxuto, de Josh Singer e do próprio McCarthy, a produção conta com um elenco sóbrio, primoroso. Primeira categoria. Rachel Adams, Michael Keaton, Mark Ruffalo  e Matt Carol fazem os quatro jornalistas investigativos. Mas Liev Schreiber na pele do Editor e, em especial, o sempre ótimo Stanley Tucci, um dos mais inteligentes atores do cinema americano de sua geração, arrebata, como costuma fazer, a atenção do espectador nas sequências em que aparece. Tucci faz o advogado armênio Mitchel Garabedian, defensor das vítimas dos padres pedófilos de Boston. Nas suas falas, denuncia de leve uma ponta do racismo que toca a sociedade local.

Segredos Revelados vem num pacote de produções inspiradas em episódios reais e se relacionam com fatos atuais desenrolados no Brasil neste momento. Em A Grande Aposta, os conluios espúrios de grandes bancos e agências globalizadas de classificação de risco de economias nacionais gerando desastres econômicos para milhões de indivíduos. No filme Trumbo é lembrado o quanto pode ser perniciosa a figura jurídica da delação premiada estimulada irresponsavelmente e com critérios frouxos como ocorre com o trabalho da turma da República do Paraná ao laurear até marginais reincidentes em crimes praticados no passado, como o notório Yousseff.

No caso presente, nos interessou a síndrome do ‘controle da informação’ que acomete redações de jornal, como bem assinalou em artigo escrito com coragem e sinceridade a jornalista Tereza Cruvinel. ”A vida de Mirian e os desdobramentos do caso,” ela diz, “ao longo dos anos, sempre foram acompanhados com interesse pela imprensa, não para produzir notícia, mas para o controle da informação, digamos assim.”

Uma ‘hipocrisia midiática.’ Em Boston e aqui.

“Para os donos e para os profissionais da imprensa nacional, não há surpresa alguma, não há novidade alguma no que a jornalista Mirian Dutra contou (…)  sobre seu relacionamento com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.”

Durante os últimos 30 anos, nem os estagiários de redações brasileiras desconheciam as aventuras do ex-presidente nem o “caso” Mírian Dutra.  “Nunca se ignorou que a  TV Globo  mantinha Mirian contratada mas não a pautava,” lembra a jornalista no seu blog. (Exceções: quando auxiliou, mas sempre em segundo plano, coberturas em Portugal e na Itália.)

“Então não me venham, caros colegas, com estes ares de novidade. No mais, fomos todos cúmplices (…)   Nunca ninguém sequer cogitou, em nenhuma redação de Brasília, de escrever sobre o assunto.“*
O escândalo dos católicos de Boston, religiosos,  e fieis e jornalistas que se deixaram manipular pela igreja local já está devidamente iluminado pelos holofotes.

Aqui, na era da internet, o colossal escândalo  vem sendo esmiuçado pela mídia digital envolvendo uma reeleição presidencial (talvez imerecida; que se não tivesse acontecido teria mudado, quem sabe, o rumo da vida nacional); o abuso cínico de dinheiro público dos falsos catões da oposição do PSDB e o constrangimento ao limbo profissional de uma repórter –  recurso de prática aliás conhecido e reincidente nas redações.

O que falta agora, para mais além do mea culpa dos jornalistas, é mudança nas normas éticas do seu trabalho. Discutir, por exemplo, a tal ideia do “controle de informação” num dos habituais seminários, debates e mesas redondas profissionais em que se reúnem, às vezes para discutir o sexo dos anjos.
Denunciar o gargalo do mercado de trabalho criado pela mídia oligárquica submetendo ao silêncio forçado os profissionais temerosos de perder o emprego e o poder que detêm – ou por necessidade básica ou por mera vaidade.

Denunciar outra síndrome nefasta que sempre acometeu  os jornalistas: o deslumbramento com os universos e os ambientes da fama, do poder, notoriedade e do dinheiro com os quais passam a conviver, nos quais começam a circular e dos quais não querem mais abrir mão.

Insistir na necessidade da regulação da mídia brasileira e fortalecer sindicatos sem pelegos e entidades de classe independentes.

Depois dos episódios dos pedófilos de Boston, o cardeal que encobriu os milhares de crimes de 250 padres da sua diocese foi punido e transferido para a prestigiosa Igreja de Santa Maria Maggiore, em Roma, onde vive semi-recluso. Nem o papa Francisco o recebe.

No escândalo brasileiro, o protagonista central, o ex-presidente que “já entrou para o Olimpo histórico, onde se pensa que nada mais pode atingi-lo,” como lembra a jornalista Cruvinel, se manifesta atordoado embora continue blindado por obsequioso  e espantoso! – silêncio da velha mídia, seus artífices e colaboradores.
Resta quem? Apenas nós, cidadãos, cúmplices também sonsos da hipocrisia midiática? Ou da hipocrisia nacional?

 

*Jornalista
Léa Maria Aarão Reis*

*A revista Caros Amigos, em São Paulo, publicou, há cerca de dez anos, matéria de capa sobre o caso Mirian Dutra/FHC. O assunto morreu ali. Não houve suíte de outro veículo. Nem interessou a um único repórter investigativo como os que hoje pululam por aí.

Uma Coisa E Outra

Após ‘Que Horas Ela Volta?’, Anna Muylaert retorna às origens com ‘Mãe Só Há Uma’

POR GUILHERME GENESTRETI

“Mãe Só Há Uma”, primeiro filme da diretora paulista Anna Muylaert feito após o fuzuê de “Que Horas Ela Volta?”, é o oposto do longa protagonizado por Regina Casé: mais sutil, menos maniqueísta, mais econômico… É quase um retorno às origens da diretora de “Durval Discos” e “É Proibido Fumar”.

“Mãe Só Há Uma” fez sua estreia mundial na noite desta sexta (12), no Festival de Berlim.

Se “Que Horas..” levou o prêmio do público no ano passado nessa mesma mostra, ao menos no quesito entusiasmo, o novo longa não deixa a desejar: foi intensamente aplaudido, ainda que por uma plateia composta em grande parte por brasileiros –estavam ali, por exemplo, o diretor Karim Aïnouz e o diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel.

Apesar do entusiasmo, a diretora estava notadamente na defensiva quando apresentou o longa.

“Depois que pisei aqui no ano passado, minha vida mudou”, disse. “Foram centenas de horas falando sobre os problemas sociais brasileiros e o machismo no cinema. Relutei em voltar, pensando que poderia perder e me sentir deprimida. Mas minha função não é fazer gols, é fazer flores.”

 

Marina Zaparoli  e Naomi Nero em cena do filme "Mãe Só Há Uma", de Anna Muylaert Foto: Divulgação
Marina Zaparoli e Naomi Nero em cena do filme “Mãe Só Há Uma”, de Anna Muylaert Foto: Divulgação

Em “Mãe”, sai de cena o pano social das diferenças entre patrões e empregadas domésticas e entra um tema igualmente quente: a transexualidade –no caso, vivida no filme pelo adolescente Pierre (Naomi Nero).

Identidade, aliás, é questão central no longa: enquanto Pierre flerta com o que pode vir a se tornar o seu novo gênero, tem de enfrentar uma reviravolta: descobre que a mãe que o criou não é a sua biológica, de quem ele foi roubado ainda bebê. A trama é inspirada no sequestro real do bebê Pedrinho, roubado numa maternidade brasiliense em 1986.

Se Pierre tem de aceitar seus novos pais, eles terão também de aceitar sua nova identidade de gênero. O filme se equilibra entre os dois conflitos simultâneos.

Irá se frustrar quem espera em “Mãe” a mesma toada de “Que Horas”. Há muito mais nuances na relação entre as personagens do que no confronto declarado entre patroa versus empregada e sua filha do filme de 2015. “Mãe” vai se construindo com muito mais sutilezas, falas improvisadas e a atenção da diretora a pequenos detalhes cotidianos: os diálogos espontâneos, os gestos quase imperceptíveis –uma gama de elementos que tinha deixado de aparecer em “Que Horas”.

Dani Nefussi interpreta a mãe biológica e a mãe de mentira

Matheus Nachtergaele faz o pai biológico de Pierre. As cenas em que ele explode com o filho, especialmente uma rodada num boliche, são muito mais repletas de nuances do que as cenas de conflito entre Regina Casé e Karine Telles em “Que Horas Ela Volta?”.

O filme anterior também abria alguma margem para o improviso dos atores (vide aquelas encenadas por Lourenço Mutarelli), mas era muito mais contido nessa busca por espontaneidade. Nesse aspecto, “Mãe Só Há Uma” ganha de lavada. Ganha também quem era mais fã da Muylaert do início da carreira: menos ‘cinemão’ e mais naturalismo.

Sem Legendas-Noticias do Cinema Brasileiro

Quando Hollywood denuncia a intolerância

dalton trumbo

O filme “Dalton Trumbo — A Lista Negra” merece mais atenção do que tem recebido até aqui.

Num desses raros e belos momentos em que o cinema norte-americano se debruça com coragem sobre a história de seu país, o filme retrata a aparição e consolidação do machartysmo, um sistema de perseguição a milhares de lideranças populares, sindicalistas, altos funcionários do Estado e intelectuais. Num país onde o cinema se tornava uma indústria importante, com faturamento bilionário, milhares de empregados e uma força política capaz de influenciar até mesmo negociações comerciais realizadas no final da Segunda Guerra Mundial, a perseguição também envolveu atores, diretores e roteiristas de Hollywood, num processo que jogou os Estados Unidos num período de treva cultural e retrocesso político.

Com atores competentes e uma narrativa cronólogica, que facilita a compreensão dos acontecimentos, o personagem central do filme é Dalton Trumbo, roteirista filiado ao Partido Comunista. Ao se recusar a prestar depoimento sobre sua militância no circo de uma Comissão do Congresso, num ambiente típico das CPIs que os brasileiros conhecem muito bem, Trumbo recusou-se a delatar colegas de trabalho e foi condenado à prisão por “desacato.” Ao deixar a cadeia, encabeçou a lista negra de profissionais proibidos de trabalhar.

Com uma competência fora do comum para redigir histórias para o cinema, passou a trabalhar na clandestinidade, organizando um grupo de perseguidos para atuar na sombra. Mesmo nessa condição, dois roteiros de Trumbo acabaram premiados com o Oscar — sem que na noite de premiação, transmitida pela TV para o país inteiro, a população pudesse saber quem era o verdadeiro vencedor.

Apesar das imensas distancias impostas pela geografia, pela história, pela cultura e pela sociologia, o filme retrata uma situação de reviravolta política que os povos de nossa época — inclusive brasileiros — conhecem muito bem. Embalada pela retórica extremada da Guerra Fria, assistiu-se ali ao despertar de uma mobilização conservadora em busca de uma revanche contra conquistas sociais produzidas pelo New Deal promovido pelo governo de Franklin Roosevelt. Este é o pano de fundo do filme.

Para além de importantes epopéias individuais, Dalton Trumbo — A Lista Negra ajuda a entender a intolerância política como uma estratégia de assalto ao poder. Trumbo foi chamado a depor em 1947, um ano depois que o Partido Republicano conseguiu uma primeira vitória em eleições parlamentares desde 1932, o ano em que o democrata Franklin Roosevelt venceu a primeira de quatro  eleições presidenciais consecutivas. Os membros do Partido Comunista, que chegou a possuir 70 000 filiados  logo após a Segunda Guerra Mundial, tornaram-se alvo visível de uma perseguição muito mais ampla, que atingiu lideranças da esquerda do Partido Democrata e personalidades comprometidas com as liberdades civis e os direitos dos oprimidos, como aparece na tela.

Sem melodrama, o filme narra cenas de grandeza e fraqueza, tão comuns em situações de gravidade política em que cada um é chamado a escolher o papel que se considera capaz de desempenhar na história de seu país.

Ninguém fez escolhas fáceis nem tem o direito de imaginar que merece uma medalha de herói, recorda o próprio Trumbo, numa passagem em que o filme reproduz um discurso feito no fim de sua vida. Ali, o roteirista retrata a perseguição política como um mal absoluto: fez mal tanto àqueles que perderam empregos para manter-se fiéis a seus princípios, como àqueles que mantiveram os empregos mas perderam os valores em que acreditavam.

Por PauloMoreira Leite (Brasil 247)

Brasil247

 

 

Às margens de Los Angeles, filme mostra vida de prostitutas transexuais

‘Tangerine’, de Sean Baker, mistura aventura, vingança, amizade e ternura entre duas prostitutas trans e negras em uma história dramática cheia de humor ácido.
por Xandra Stefanel, especial para a RBA publicado 02/02/2016 18:15, última modificação 02/02/2016 18:33

A superficialidade da segunda maior cidade dos Estados Unidos passa bem longe do novo filme do cineasta americano Sean Baker, Tangerine, que estreia quinta-feira (4) nos cinemas brasileiros. Além do fato de ter sido todo filmado com um iPhone 5S adaptado e com um orçamento mínimo, o longa-metragem surpreende ao mostrar uma realidade nunca rara de se ver nas telas grandes: o universo de transexuais negras e profissionais do sexo na periferia de Los Angeles.

A história acompanha Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez), uma transexual e prostituta que, depois de 28 dias na prisão, sai na véspera de Natal e descobre que seu namorado e cafetão Chester (James Ransone) a traiu com uma mulher cisgênero. A notícia chegou pela boca de sua melhor amiga, Alexandra (Mya Taylor). É aí que começa a aventura de Tangerine: louca de raiva, Sin-Dee começa a procurar por Chester e sua amante Dinah pelas ruas de uma Los Angeles pouco conhecida, longe da célebre calçada da fama.

O longa-metragem mistura (e equilibra) boas doses de humor e de drama. Talvez pelo fato de ter sido todo filmado com telefones inteligentes, o filme consegue uma proximidade íntima com os atores, especialmente com Kitana e Mia, que parecem completamente à vontade em frente às câmeras.

Ao mesmo tempo que Sean não tem pudor de tratar sobre sexo, drogas e intrigas realmente inspiradas na vida de transexuais e prostitutas, ele não hesita em aproximar o espectador daquela dura realidade. O diretor humaniza histórias de pessoas que vivem na exclusão marcadas por estereótipos: mulheres trans, negras e prostitutas.

Tudo o que Sin-Dee quer é ser amada como no conto de fadasCinderela, quer ter um homem para chamar de seu e quer contar com o ombro de uma melhor amiga. O que ela quer, no fundo, é viver com dignidade – e quem não quer? – mesmo que para isso tenha de fechar os olhos para as traições (e a exploração) de Chester e para as escorregadas da melhor amiga, Alexandra.

Outro personagem que faz parte da trama é Razmik (Karren Karagulian), um taxista casado e com uma filha pequena que, entre um passageiro bêbado e outro, vagueia pelas ruas daquela região em busca de mulheres trans.

Tangerine passeia com humor pelos dramas pessoais de seus personagens e pela melancolia que impregna aquele bairro de L.A. “O mundo pode ser um lugar cruel”, diz Alexandra. “Sim, muito. Deus me deu um pinto. É cruel demais, não acha?”, responde Sin-Dee. De cara, o diálogo pode até parecer engraçado, mas não. O deboche da protagonista esconde uma dor que apenas quem nasceu com um corpo que não condiz com sua identidade de gênero pode entender completamente. Não se pode saber ao certo o sentimento que invade uma pessoa que recebe um copo cheio de urina na cara pela simples razão de não se encaixar nos padrões impostos por uma sociedade heteronormativa e transfóbica.

A ficção que fez sucesso em vários festivais de cinema (Sundance, entre eles) tem uma trilha sonora vibrante e um final que opõe violência e o poder da amizade. É uma história cheia de emoção que traz nos papéis principais atrizes que conhecem de perto a realidade ali representada.

 

Tangerine_(Trailer oficial) from Zeta Filmes on Vimeo.

Tangerine_(Trailer oficial) from Zeta Filmes on Vimeo.

Tangerine
Direção: Sean Baker
Roteiro: Sean Baker e Chris Bergoch
Fotografia: Sean Baker e Radium Cheung
Montagem: Sean Baker
Elenco: Kitana Kiki Rodriguez, Mya Taylor, Karren Karagulian
País: Estados Unidos
Ano: 2015
Duração: 88 minutos
Classificação: 18 anos

Wall Street autoconsciente e cínica no filme “A Grande Aposta”

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Desde os anos 1980 fundos de investimento de Wall Street investem em Hollywood nos chamados estúdios independentes. Ironicamente, os mesmos estúdios que inventaram o subgênero “cinema da crise” que desde o crash da bolha especulativa imobiliária de 2008 denunciam as “fraudes” e “mentiras” de Wall Street em diversos documentários e dramas ficcionais. O filme “A Grande Aposta”, indicado ao Oscar desse ano, é mais uma dessas produções supostamente críticas, mas ironicamente financiadas pelo próprio sistema que denuncia. Wall Street é autoconsciente e cínica ao financiar filmes como “A Grande Aposta”? Será que  toda “ganância é boa” ao ponto do sistema financeiro lucrar com a própria denúncia de si mesmo?

As ondas da crise financeira global de 2008 continuam se espalhando não só nas tendências econômicas, mas também no universo cinematográfico. Foi capaz de criar uma espécie de subgênero que poderíamos denominar como “cinema da crise”: Capitalismo – Uma História de Amor (2009), A Ascensão do Dinheiro(2009), O Último Dia do Lehman Brothers (2009), Trabalho Interno (2010), Margin Call: O Dia Antes do Fim (2011), O Lobo de Wall Street (2013), para ficar nos mais conhecidos.

Sejam documentários ou narrativas ficcionais, esses filmes têm em comum o esforço em tentar explicar aos leigos a terminologia hermética dos sistemas financeiros como subprimes, swaps, agências de classificação de risco, CDO sintética, CDO composta, obrigações hipotecárias, tranches etc.

 

A Grande Oposta é mais um filme desse subgênero que inova o esforço pedagógico ao misturar ficção e documentário, comédia e drama – um famoso cozinheiro falando das suas estratégias culinárias e Margot Robbie em uma banheira cheia de espumas fazem analogias para explicar termos financeiros; constantemente a quarta parede é rompida quando o narrador onisciente (que na verdade é um dos personagens) fala para o espectador;  movimentos de câmera característicos da linguagem documental; personagens se dirigindo ao espectador para corrigir sua própria atuação ficcionalizada.

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São recursos propositais que o filme utiliza para quebrar o ritmo e criar uma impressão de autoconsciência e cinismo.

Ironias

Mas esse “cinema da crise” guarda algumas ironias. Primeira: são produções de estúdios hollywoodianos e alguns chegaram a ser premiados e/ou indicados para o Oscar, como o caso de A Grande Oposta que concorre a Melhor Filme. O mainstream da indústria do entretenimento desmascarando fraudes e mentiras de Wall Street?

Segunda: desde os anos 1980 fundos de hedge de Wall Street passaram a investir em Hollywood, impactando a estrutura dos estúdios – passaram a financiar produções de estúdios independentes como a Catch 22 Entertainment, Lionsgate, Relativity Media e a própria Regency Enterprises, produtora de A Grande Aposta – sobre isso clique aqui.

Questão paradoxal: Wall Street investe em filmes que revelam suas próprias mazelas à opinião pública? Como dizia Gordon Gekko (o inescrupulosa especulador do filme Wall Street feito por Michael Douglas) “a ganância é boa”. Mas ao ponto de fundos hedge de Wall Street procurarem lucros em filmes onde eles próprios são denunciados?

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Talvez essa ganância pragmática não seja surpreendente tendo em vista o que praticaram em 2008: mesmo sabendo que as obrigações hipotecárias estavam podres, asseguravam a saúde financeira a seus clientes enquanto secretamente apostavam na explosão da bolha imobiliária. Afinal, dinheiro não tem ideologia, moral ou pátria.

Máquina de propaganda

Mas no caso do cinema da crise, parece haver um propósito de utilizar Hollywood mais uma vez como máquina de propaganda e de agendamento da opinião pública.

Como o filme Obrigado Por Fumar mostrou de forma magistral, em uma sociedade da informação é impossível negar, esconder ou negligenciar fatos e tendências. Esse filme mostrou como a indústria tabagista era capaz de financiar campanhas e pesquisas ao mesmo tempo contra e a favor do tabaco – deixe que as pessoas escolham o que é melhor para elas, mas o cigarro sempre estará em evidência – sobre o filme clique aqui.

A Grande Aposta parece ser mais um exemplo dessa tática, dessa vez com o sistema financeiro onipresente nas produções hollywoodianas: mostrar que a explosão da bolha imobiliária de 2008 foi o resultado da fraude, mentira e relações promíscuas (profissionais ou sexuais, como de passagem mostra o filme) entre as agências de classificação de risco e os bancos.

Fraude, mentira e promiscuidade são conceitos morais, perfeitos para um filme que se limita ao foco microeconômico (as táticas dos investidores, traders, bancos de investimento e fundos), passando ao largo das questões macroeconômicas – Banco Central e o sistema bancário norte-americano.

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Veremos que A Grande Oposta, assim como todo o subgênero “cinema da crise”, é incapaz de abandonar o campo da moralização (mostrar os “bad guys”) e fazer um questionamento ontológico ou macroeconômico: como o sistema não apenas frauda, mas simula a riqueza com a substituição do dinheiro pelo crédito. E como as crises são as novas formas destrutivas de realização de lucros (quando crédito vira dinheiro), e não mais “o fim do capitalismo” como de forma sensacionalista esses filmes parecem quer passar com termos como “último dia”, “o fim” ou “o dia do apocalipse”.

O Filme

A narrativa acompanha quatro clarividentes excêntricos do mercado financeiro de diversas origens que, dois anos antes do crash de 2008, pressentem que a cintilante bolha do mercado financeiro iria explodir. Resolvem fazer apostas em massa contra o mercado imobiliário (fazer seguros de hipotecas subprimes), sob a descrença generalizada de todos: como um investidor vai apostar contra uma das instituições econômicas mais sólidas do país?

Michael Burry (Christian Bale) é um médico que se tornou um guru de um fundo de hedge. É o primeiro a pressentir que a inadimplência hipotecaria subirá incontrolavelmente a partir de modelos matemáticos de tendências.

Mark Baum (Steve Carrell) é um investidor impulsionado por uma mistura volátil de ódio contra o sistema, tristeza e profundo cinismo – considera-se o último dos justos de Wall Street.

Jared Vennett (Ryan Gosling) é um especialista de hipotecas subprime do Deutsche Bank onde está na melhor sequência didática do filme: explica o significado do colapso das subprimes a partir de uma pequena torre com blocos de madeira do jogo Jenga.

Ben Rickert (Brad Pitt) é um plutocrata com discursos conspiratórios, fala baixinho e caminha calmamente e acredita que a civilização está condenada – para ele, após “o fim” sementes para plantar serão a nova moeda. Ele vai ajudar dois jovens investidores de um escritório montado na garagem da casa da mãe a conseguir também apostar contra o mercado imobiliário.

O filme divide claramente os investidores em três categorias: os que enriqueciam sem entender a especulação que estavam manipulando e inflando (a striper que possui apartamentos e cobertura); os que sabiam perfeitamente o que acontecia mas seguiam operando sem se importar com as consequências – afinal, nada é mais sólido do que o mercado hipotecário; e os que anteciparam a crise.

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Os protagonistas pertencem a essa terceira categoria que são caracterizados como freaks, outsiders, corsários, autônomos como fossem abutres pós-modernos que se antecipam à carniça. São mostrados como anti-heróis: Burry trabalha de bermudas, descalço e ouvindo rock pesado enquanto lida com modelos matemáticos; Baum odeia o sistema e é o único que apresenta algum escrúpulo com as consequências da crise para os cidadão comuns  pela miséria e desemprego; Rickert é um desiludido à espera do apocalipse e Jared um funcionário que aposta contra o próprio banco que trabalha.

Fraude, mentira e simulação

Mas, como todos os demais, suas ações são também guiadas pelo lucro. Porém, o filme retrata os heróis através dos valores mais caros da cultura norte-americana: a iniciativa individual, empreendedorismo – a cena em que Burry está atento à tela do computador e a câmera passeia pela estante de livros e para em um exemplar de Adam Smith (o pai do liberalismo econômico) e o escritório de investimentos montado na garagem da mãe de um dos investidores da dupla ajudada por Rickert, como fossem os Steve Jobs do mundo financeiro.

A Grande Aposta insiste nos conceitos de “fraude” e “a mentira” que estariam no “coração” da economia norte-americana. Esses conceitos são morais porque originam-se da noção de dissimulação – partem do pressuposto de que, em algum lugar, existe uma verdade que está escondida: a verdadeira economia voltada ao seu valor de uso: a alocação racional e justa de recursos escassos na sociedade.

Mas o que o filme não aborda é que no final todos os protagonistas ganham créditos e não dinheiro como resultado das suas apostas. Tudo que verão são números nas sua telas de computadores dos lucros creditados em suas negociações.

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Desde que o Estado deixou de ser a única instituição emissora de dinheiro com as políticas neoliberais de desregulamentação, o sistema financeiro passou a ser um emissor privado também de “dinheiro” – na verdade crédito, riqueza virtual sem qualquer lastro com a economia real que simula ser riqueza.

Ou seja, os nossos heróis de A Grande Aposta que “denunciam” as grandes falcatruas por trás da crise de 2008, serão os artífices da próxima crise – em algum momento esses créditos terão que baixar à terra para transformarem-se em dinheiro: o Estado terá que compulsoriamente lastrear esses créditos socializando o prejuízo (desemprego e depressão econômica) para salvar a credibilidade do sistema financeiro. Que no final tem o Estado como refém com a sua própria dívida transformada em papéis comercializados no sistema financeiro global.

Parece que descobrimos que não é tão paradoxal Wall Street investir em produções hollywoodianas  “críticas” contra o sistema financeiro: no final, o sistema nunca é colocado em xeque – resta culpar os “fraudadores” e “mentirosos”.

Ou, como no emblemático final do filme Casablanca quando o inspetor Renault salva a vida do protagonista Rick (Humphrey Bogart) ordenando: “prendam os suspeitos de sempre”. O mesmo modus operandi aplicado ao filme A Grande Aposta: procurem os homens “maus” para permanecer um sistema onde a iniciativa individual e o empreendedorismo sempre buscam o bom lucro.

CineGnose

 

Wilson Roberto Vieira Ferreira -CineGnose

A liberdade de imprensa estilo EUA : Quem matou Gary Webb?

Desmascarado como nenhum jornalista fez antes, as maquinações escuras da CIA no mundo da droga e revelou para os americanos como bairros negros do país foram inundadas com crack, com cinismo incrível em meio a tráfego para o abastecimento dinheiro e armas os Contras da Nicarágua. Ele denunciou narco Luis Posada Carriles e seus cúmplices cubanos envolvidos no negócio da droga. E só para ser encontrado em sua casa, com duas balas na cabeça. Um suicídio dizem os tribunais

A pesquisa de Webb é impressionante em sua seriedade e sua amplitude, causou um rebuliço nacional. Tanto é assim que os grandes relatos da imprensa de negócios publicado longo desconfiado atacando várias partes de suas pesquisas.

O mundo dos jornalistas investigativos nos Estados Unidos é de luto. Gary Webb, que, para muitos, foi um exemplo de profissionalismo e integridade, foi encontrado morto na sexta-feira, 10 de Dezembro na sua casa em Carmichael, Califórnia. Ele foi de 49.

Em agosto de 1996, enquanto trabalhava para o jornal San Jose Mercury News , Webb revelou como a CIA vendeu toneladas de crack nos bairros de Los Angeles e usar esse dinheiro para financiar operações de comércio criminoso Contras da Nicarágua tentar derrubar seguida o governo sandinista na Nicarágua.

Suas revelações foram publicadas por todos os jornais da cadeia Knight-Ridder . Tudo … exceto para o Miami Herald , o jornal ligado à máfia cubano narco-americano.

A pesquisa é impressionante em sua gravidade e em sua amplitude, causou um rebuliço nacional.

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Em seu livro Whiteout: a CIA, drogas e Imprensa , jornalistas Alexander Cockburn e Jeffrey St. Clair, o popular siteCounterpunch.com , detalharam como Webb foi vítima de uma verdadeira campanha para destruir sua reputação.
O Washington Post O New York Times e Los Angeles Times foram distinguidos neste trabalho sujo.

“O ataque em artigos Gary Webb e San Jose Mercury News é uma das capacidades profissionais mais venenosa e assaltos factualmente ineptas de um jornalista em viver de escrita na memória. Na mídia mainstream, encontrada quase sem defensores e aqueles que se atreveram a demonstrar em seu favor foram objecto de abusos por sua vez virulentas e deturpações “.

Webb demitiu-se do San Jose Mercury News , em 1997. Nunca mais poderia encontrar trabalho em um jornal conhecido.

Em 1990, Webb foi o vencedor, com um grupo de jornalistas, o Prêmio Pulitzer, o mais famoso do mundo prêmio jornalístico americano para o trabalho sobre o terremoto de Loma Prieta, mas, de acordo com sua família, nunca se recuperou da controvérsia causou sua série denunciando a CIA.

Ele sempre defendeu sua pesquisa mais famoso, publicado em 1999 um livro intitulado Dark Alliance: A CIA, os contras, ea explosão Crack (Dark Alliance: A CIA, os contras ea explosão do crack), que teve um forte impacto .

Entre as revelações mais interessantes é o caso de Luis Posada Carriles.

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Em Dark Alliance … que revelou Webb foi a partir de documentos revelados pela CIA, em janeiro de 1974, a Agência rejeitou um pedido de Posada para fornecer um de seus associados “um passaporte venezuelano”, porque ele escreveu sem rir o autor da nota, “não podemos permitir que um agente controlado está envolvido no tráfico de drogas.”

Nesse mesmo ano, a CIA foi advertido pela Drug Enforcement Agency (DEA) que Posada foi a troca de armas por cocaína com uma pessoa “envolvida em assassinatos políticos”, uma referência a Felix Rodriguez Mendigutía, o agente da CIA que ordenou o assassinato Che.

Como um membro de uma invasão secreta de Playa Girón (Baía dos Porcos) a CIA organizou a Operação 40 com a participação de Posada e dezenas de assassinos mercenários cubanos com a máfia ítalo-americana.

A rede desta organização foi usado em operações deterrorismo contra Cuba até 1970, quando ele cai um de seus aviões no sul da Califórnia, com uma enorme quantidade de heroína e cocaína a bordo. Nesse mesmo ano, o FBI capturou 150 suspeitos “na maior operação de droga na história da Polícia Federal.”

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Procurador-geral, John Mitchell, disse que a rede então controlado 30% do comércio de heroína no país e 70-80% das vendas de cocaína. Mas ele não mencionou o fato de que vários dos detidos pertenciam à quadrilha de Juan Restoy, ex-político Batista, “estudante” Destaques do 40 ligada ao chefe Operação Santos Trafficante.

Dois dos capangas mais confiáveis ​​foram Restoy … Ignacio e Guillermo Novo, “militantes” do Movimento Nacionalista Cubano, um grupo terrorista com centros em Miami e Union City, New Jersey. Estes dois assassinos recentemente retornou aos Estados Unidos, com a bênção da CIA e do FBI em Miami, depois de quatro anos de prisão no Panamá, junto com Posada.

Guillermo Novo, Posada também participaram de Junho de 1976, a criação do CORU terrorista, formando uma banda que será adicionado, com Felix Rodriguez, Frank Castro e outros criminosos, de operações de drogas autorizadas pela Administração Reagan em apoio para os Contras da Nicarágua, denunciando Gary Webb.

Frank Castro será acusado de importar 500 toneladas de maconha “, até o julgamento magicamente desapareceu quando ele estabeleceu um campo de treinamento dos Contras, em 1983”. Mais sorte, o escritório de Rodriguez vai acabar em George Bush, que realizou seu “talento”. E Posada, perdoado pelo presidente Miami do Panamá, Mireya Moscoso, preferiu ilegalmente “desaparecer” com a “proteção” que permanecem.

Os irmãos do Novo Mercado, após o assassinato do ex-chanceler Orlando Letelier, terminou “ligações” com a Fundação Nacional Cubano-Americana , enquanto o tempo de vida “Presidente” desta organização, Jorge Mas Canosa , pago a 26 mil dólares para comprar a “libertação “Posada preso na Venezuela após a explosão em pleno ar de um Cubana de Aviación, que deixou 73 mortos.

Série de Webb no San Jose Mercury News explicou em detalhes como a rede CIA vendeu toneladas de cocaína para gangues criminosas, demonstrando como o fanatismo anticomunista da Casa Branca levou a envolver-se na propagação da epidemia de drogas mais infernal tempos modernos.

A comunidade negra norte-americana ficou chocada com a informação divulgada pelos textos de Webb.

Seu papel em revelar a trama sinistra CIA Webb fez um personagem muito celebrada na comunidade negra.

Quando, finalmente, depois de um relatório do Inspetor Geral da CIA sobre o tráfico de drogas pela Agência, a Câmara compromete-se a estudar a questão, Porter Goss , que liderou o Comité de Inteligência do ano anterior, determinado dentro de uma hora de audiência, que as alegações eram “falsas”.

É claro que, o raio de investigação Goss investigando descartado até Gary Webb.

Goss, um ex-agente da CIA que participou das operações da estação JM / WAVE em Miami, em 1972, a realização de operações terroristas contra Cuba, acaba de ser nomeado diretor da CIA por George W. Bush.

Ricky Ross, uma das fontes mais confiáveis ​​de Gary Webb, falou com ele alguns dias antes de sua morte. Webb então disse que tinha visto homens examinando o tubo de fora de sua casa e que, obviamente, não eram ladrões, mas “pessoas do governo”.Ele acrescentou que tinha recebido ameaças de morte e foi seguido regularmente.

Eles sabiam que Gary Webb estava trabalhando em novas pesquisas sobre o tema da CIA e do tráfico de drogas.

Em 10 de dezembro, o corpo de Webb foi descoberto em sua casa em Carmichael. Seu rosto foi destruído por duas conchas 38 revólver calibre.

O juiz Robert Lyons era o oficial de justiça que conduziu a pesquisa. Emitiu rapidamente sua conclusão: Gary Webb cometeu suicídio, disse ele.

Jean Guy Allard

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