Já ouviu falar de Nollywood? Cinema nigeriano põe africanos em cena

 

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Atrizes checam o roteiro antes da gravação de uma cena de filme no vilarejo de Illah (Nigéria). Conhecida como Nollywood, a indústria cinematográfica do país dá chance aos africanos de se identificarem com aquilo que veem nas telas e nas TVs
Sentado numa banqueta azul sob o calor sufocante, Ugezu J. Ugezu, um dos principais cineastas da Nigéria, reescrevia furiosamente seu script enquanto as câmeras se preparavam para rodar. “Corta!”, gritou ele, depois de terminar uma cena importante, um confronto entre os dois personagens principais. Então, quase sem fôlego, acrescentou: “É o melhor que dá para fazer”.

Esse foi o sétimo e último dia de filmagens em uma aldeia perto daqui para “Beyond the Dance” (Além da Dança), a história de Ugezu sobre a escolha de uma noiva por um príncipe africano. A produção foi realizada em ritmo acelerado.

“Em Nollywood, não perdemos tempo”, disse ele. “Não foi a profundidade técnica que tornou nossos filmes tão populares. Foi a história. Nós contamos histórias africanas.”

As histórias narradas pela florescente indústria cinematográfica da Nigéria, conhecida como Nollywood, tornaram-se um fenômeno cultural na África, a vanguarda da crescente influência do país em todo o continente, na música, na comédia, na moda e até na religião.

País mais populoso da África, a Nigéria superou sua rival, África do Sul, como maior economia do continente há dois anos, graças em parte ao crescimento explosivo da indústria de cinema. Nollywood, termo que ajudei a cunhar com um artigo em 2002, quando os filmes da Nigéria começavam a ganhar popularidade fora do país, é uma expressão do ilimitado empreendedorismo nigeriano e a percepção do país como líder natural na África, destinado a falar em nome do continente.

“Os filmes nigerianos são muito populares na Tanzânia e culturalmente afetaram muita gente”, disse Songa wa Songa, jornalista tanzaniano. “Muita gente hoje fala com sotaque nigeriano aqui graças a Nollywood. Os nigerianos conseguiram, por meio de Nollywood, exportar quem eles são, sua cultura, seu estilo de vida, tudo.”

Nollywood gera cerca de 2.500 filmes por ano, o que faz dela a maior produtora depois de Bollywood, na Índia. Seus filmes deslocaram os dos Estados Unidos, da China e da Índia nos televisores que há em todos os bares, salões de cabeleireiro, aeroportos e lares da África.

Glenna Gordon/The New York Times

Crianças assistem a filme de Nollywood em Igbuzor (Nigéria)
A indústria emprega um milhão de pessoas, perde só para a agricultura na Nigéria, bombeando US$ 600 milhões anualmente na economia nacional, segundo um relatório de 2014 da Comissão de Comércio Internacional dos EUA. Em 2002, fez 400 filmes e faturou US$ 45 milhões.

Nollywood repercute em toda a África com suas histórias do passado pré-colonial e de um presente apanhado entre a vida nas aldeias e a modernidade urbana. Os filmes exploram as tensões entre os indivíduos e suas famílias, entre a atração da vida urbana e a da aldeia, entre o cristianismo e as crenças tradicionais. Para inúmeras pessoas, em um lugar que por muito tempo foi moldado por estrangeiros, Nollywood está redefinindo a experiência africana.

“Duvido que uma pessoa branca, um europeu ou norte-americano, possa apreciar os filmes de Nollywood como pode um africano”, disse Katsuva Ngoloma, linguista da Universidade de Lubumbashi, na República Democrática do Congo, que escreveu sobre a importância de Nollywood. “Mas os africanos, ricos, pobres, todos se enxergam nesses filmes de alguma maneira.”

Em Yeoville, um bairro de Johannesburgo que é um cadinho cultural de migrantes, uma costureira de Gana recebeu encomendas há pouco tempo das últimas modas vistas nos filmes de Nollywood. Cabeleireiras da República Democrática do Congo, de Moçambique e do Zimbábue, trabalhando em salões ou nas ruas, ofereciam trançados de cabelo nos estilos preferidos das atrizes da Nigéria.

“Os filmes nigerianos expressam como nós vivemos enquanto africanos, o que experimentamos em nossa vida cotidiana, coisas como a feitiçaria, as disputas entre sogras e noras…”, disse Patience Moyo, 34, uma trançadora de cabelos do Zimbábue. “Quando você vê esses filmes, sente que está realmente acontecendo. De alguma maneira eles tocam sua vida.”

Quando fiz a primeira reportagem sobre essa indústria, há mais de uma década, os filmes eram montados de modo tão improvisado que, durante uma entrevista, um diretor de produção me ofereceu o papel de um homem branco maligno (apesar de minha origem japonesa, ele me afirmou que eu estava bastante próximo.)

Depois que casualmente criei o termo “Nollywood” em uma conversa com um colega, um editor fez este título para uma reportagem: “LA e Bombaim, abram alas para Nollywood”.

O nome pegou e se espalhou. Mas o sucesso não tirou de Nollywood suas maneiras liberais: em minha recente visita a uma aldeia nigeriana onde meia dúzia de filmes estavam sendo feitos, um produtor se aproximou e me ofereceu o papel de um homem branco maligno que traz um vampiro para a Nigéria.

Ainda em 2002, os filmes eram simplesmente conhecidos como vídeos caseiros da Nigéria. Foram popularizados primeiro por videocassetes negociados por toda a África, mas hoje Nollywood está disponível em canais de televisão via satélite e a cabo, assim como em serviços de streaming, como o iRokoTV.

Em 2012, reagindo à crescente popularidade na África francófona, um canal via satélite chamado Nollywood TV começou a oferecer filmes 24 horas dublados em francês. A maioria dos filmes nigerianos é em inglês, embora alguns sejam em uma das principais línguas étnicas do país.

Até a ascensão de Nollywood, os filmes feitos na África de língua francesa, com verbas do governo francês, dominavam o setor no continente. Mas esses filmes atendiam aos gostos dos críticos e do público ocidentais e conquistaram poucos fãs na África, sem deixar uma marca cultural.

Em Nollywood, porém, os filmes ainda são financiados por investidores privados que esperam ter lucro.

“Você quer fazer um filme? Tem o roteiro? Você procura imediatamente o dinheiro e faz o filme”, disse Mahmood Ali-Balogun, um importante cineasta nigeriano. “Quando você consegue uma verba da França ou da União Europeia, eles podem ditar onde você coloca a câmera, o acabamento do roteiro, não é um bom modelo para nós na África.”

Ali-Balogun falava de seu escritório em Surulele, Lagos, berço de Nollywood. A produção de filmes desde então passou para outras cidades, especialmente Asaba, que já foi uma sonolenta capital estadual no sudeste da Nigéria. Em qualquer dia, podem-se encontrar aqui mais de dez equipes filmando –obras “épicas” com roteiros antigos como “Além da Dança” estão em produção nas aldeias próximas, enquanto filmes de “glamour” sobre a vida moderna usam a própria cidade como cenário.

Uma recente produção nessa categoria foi “Okada 50”, a história de uma mulher e seu filho que, depois de deixarem a aldeia, abrem uma empresa de caixões na cidade e aterrorizam seus vizinhos.

A maioria dos filmes tem orçamento de cerca de US$ 25 mil e é filmada em uma semana.

Quando terminados em Asaba, os filmes chegam a todos os cantos da África, lançados originalmente em inglês, dublados em francês ou em línguas africanas e às vezes adaptados, reembalados e muitas vezes pirateados para plateias locais. Muitos filmes também são promovidos por um relacionamento simbiótico com o cristianismo pentecostal na Nigéria, que pastores exportaram para toda a África.

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Na República Democrática do Congo, pastores que visitaram a Nigéria anos atrás voltaram com vídeos e os mostraram na igreja para dar aulas de cristianismo e atrair novos membros, disse Katrien Pype, uma antropóloga belga da Universidade de Leuven que escreveu sobre o fenômeno.

Hoje em Kinshasa, a capital do Congo, Nollywood permeia a cultura dominante. As mulheres locais copiam a moda, a maquiagem e os penteados das atrizes; músicos locais resmungam contra a popularidade das importações nigerianas, como Don Jazzy e os gêmeos P-Square.

Tresor Baka, um dublador congolês que traduz filmes nigerianos para o idioma local, o lingala, disse que os filmes são populares porque “a Nigéria conseguiu reconciliar a modernidade com os costumes antigos, sua cultura e tradições”.

Nollywood também criou um modelo para a produção de cinema em outros países africanos, disse Matthias Krings, um especialista alemão em cultura popular africana, professor na Universidade Johannes Gutenberg.

Em Kitwe, Zâmbia, os cineastas locais recentemente faziam seu último filme ao verdadeiro estilo de Nollywood: um melodrama familiar filmado em dez dias, em uma residência, com orçamento de US$ 7 mil. Gravado em DVD, o filme será vendido em Zâmbia e nos países vizinhos.

Reconhecendo a influência do cinema nigeriano, o produtor do filme, Morgan Mbulo, 36, disse: “Agora podemos contar nossas próprias histórias”.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

 

“O Regresso” do mexicano Alejandro González Iñárritu são os grandes vencedores dos Prêmios Bafta

O diretor Alejandro Gonzalez Inarritu e o ator Leonardo DiCaprio, vencedores do Bafta

O regresso”, do mexicano Alejandro González Iñárritu, foi o destaque neste domingo da edição de número 69 dos Prêmios Bafta – o Oscar britânico-, ao ficar com cinco dos oito prêmios aos quais concorria, em cerimônia que ignorou os favoritos, “Carol” e “Ponte dos Espiões”.

Melhor filme, diretor, ator principal (Leonardo DiCaprio), direção de fotografia (Emmanuel Lubezki) e som foram as cinco categorias nas quais “O Regresso” reinou, seguido por número de prêmios por “Mad Max: Estrada da Fúria”, que ficou com quatro dos sete a que concorria: melhor projeto de produção, melhor figurino, melhor maquiagem e melhor edição.

“O Regresso”, baseado no romance de Michael Punke, serviu a Iñárritu para se reconciliar com os Bafta após ter ficado com quase nada no ano passado com “Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância)”.

“Vivemos momentos muito difíceis filmando ‘O Regresso’, mas todos esses momentos foram recompensados agora”, disse o diretor na entrevista coletiva depois da festa.

Os Bafta ignoraram os dois principais favoritos, “Carol” e “Ponte dos Espiões”, que chegaram com nove indicações cada um.

“Carol”, a história de amor entre Therese Belivet (Rooney Mara) e Carol Aird (Cate Blanchett) nos Estados Unidos da década de 1950, baseada em um romance de Patricia Highsmith, foi indicado a melhor filme, diretor, atriz, atriz coadjuvante e roteiro adaptado, mas acabou não ganhando nenhum Bafta.

“Ponte dos Espiões”, o filme de Steven Spielberg que narra uma troca entre Estados Unidos e União Soviética em plena Guerra Fria só se levou um.

Spielberg subiu sozinho ao palco para receber o prêmio que reconheceu o britânico Mark Rylance como melhor ator coadjuvante.

Iñárritu completou sua grande noite com o prêmio de melhor diretor, categoria na qual superou Todd Haynes (“Carol”), Adam McKay (“A Grande Aposta”), Ridley Scott (“Perdido em Marte”) e Spielberg (“Ponte dos Espiões”).

O protagonista de seu filme, o americano Leonardo DiCaprio, foi um dos mais aclamados no tapete vermelho e um dos mais emocionados ao receber seu prêmio.

DiCaprio, que interpreta em “O Regresso” Hugh Glass e que concorre a seu primeiro Oscar em sua quinta indicação, venceu Bryan Cranston (“Trumbo: Lista Negra”), Matt Damon (“Perdido em Marte”), Michael Fassbender (“Steve Jobs”) e a Eddie Redmayne (“A Garota Dinamarquesa”).

“Isto não é apenas um filme, é uma viagem épica na qual embarcamos todos. Foi algo extremamente especial em minha vida. Fizemos nosso trabalho, pusemos a alma e o coração neste projeto e estou feliz de fazer parte deste filme”, disse DiCaprio, exultante, com o Bafta na mão.

Entre as mulheres, o Bafta de melhor atriz foi para a americana Brie Larsson por “Room – O Quarto de Jack”, um papel pelo qual levou o Globo de Ouro e pelo qual é a favorita para o Oscar.

Larsson venceu Cate Blanchett (“Carol”), Saoirse Ronan (“Brooklyn”), Maggie Smith (“A Senhora da Van”) e Alicia Vikander (“A Garota Dinamarquesa”).

Na categoria de atriz coadjuvante, a vencedora foi a britânica Kate Winslet por “Steve Jobs”, um prêmio para o qual concorria com Alicia Vikander (“Ex Machina: Instinto Artificial”), Jennifer Jason Leigh (“Os Oito Odiados”), Julie Walters (“Brooklyn”) e Rooney Mara (“Carol”).

Outro dos prêmios de destaque da noite foi o de música, que foi para o veterano mestre italiano Ennio Morricone pela composição para “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino, e o de melhor documentário, para “Amy” de Asif Kapadia, sobre a vida da falecida cantora Amy Winehouse.

O Bafta de melhor filme de fala não inglesa – para o qual o favorito era a superprodução do taiuanês Hou Hsiao-Hsien, “The Assasin” – foi para a Argentina, por “Relatos Selvagens”, de Damián Szifrón

O Bafta de animação foi, como se esperava, para “Divertida Mente” e o de roteiro para “Spotlight – Segredos Revelados” na categoria de original, e “A Grande Aposta” na de adaptado, enquanto “Star Wars – O Despertar da Força” levou apenas o de efeitos especiais.

A festa de entrega dos Bafta aconteceu no imponente Royal Opera House, no West End de Londres, que abrigou a noite mais importante do cinema no Reino Unido, e que contou com convidados como Tom Cruise, Cate Blanchett, Eddie Redmayne, Idris Elba, Matt Damon e Michael Fassbender, entre outros.

A cerimônia se caracterizou pelo humor e pelo ritmo impecável, e que foi apresentada por uma das figuras mais populares do cinema, da televisão e da cultura da Grã-Bretanha, o ator Stephen Fry.

 

Após ‘Que Horas Ela Volta?’, Anna Muylaert retorna às origens com ‘Mãe Só Há Uma’

POR GUILHERME GENESTRETI

“Mãe Só Há Uma”, primeiro filme da diretora paulista Anna Muylaert feito após o fuzuê de “Que Horas Ela Volta?”, é o oposto do longa protagonizado por Regina Casé: mais sutil, menos maniqueísta, mais econômico… É quase um retorno às origens da diretora de “Durval Discos” e “É Proibido Fumar”.

“Mãe Só Há Uma” fez sua estreia mundial na noite desta sexta (12), no Festival de Berlim.

Se “Que Horas..” levou o prêmio do público no ano passado nessa mesma mostra, ao menos no quesito entusiasmo, o novo longa não deixa a desejar: foi intensamente aplaudido, ainda que por uma plateia composta em grande parte por brasileiros –estavam ali, por exemplo, o diretor Karim Aïnouz e o diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel.

Apesar do entusiasmo, a diretora estava notadamente na defensiva quando apresentou o longa.

“Depois que pisei aqui no ano passado, minha vida mudou”, disse. “Foram centenas de horas falando sobre os problemas sociais brasileiros e o machismo no cinema. Relutei em voltar, pensando que poderia perder e me sentir deprimida. Mas minha função não é fazer gols, é fazer flores.”

 

Marina Zaparoli  e Naomi Nero em cena do filme "Mãe Só Há Uma", de Anna Muylaert Foto: Divulgação
Marina Zaparoli e Naomi Nero em cena do filme “Mãe Só Há Uma”, de Anna Muylaert Foto: Divulgação

Em “Mãe”, sai de cena o pano social das diferenças entre patrões e empregadas domésticas e entra um tema igualmente quente: a transexualidade –no caso, vivida no filme pelo adolescente Pierre (Naomi Nero).

Identidade, aliás, é questão central no longa: enquanto Pierre flerta com o que pode vir a se tornar o seu novo gênero, tem de enfrentar uma reviravolta: descobre que a mãe que o criou não é a sua biológica, de quem ele foi roubado ainda bebê. A trama é inspirada no sequestro real do bebê Pedrinho, roubado numa maternidade brasiliense em 1986.

Se Pierre tem de aceitar seus novos pais, eles terão também de aceitar sua nova identidade de gênero. O filme se equilibra entre os dois conflitos simultâneos.

Irá se frustrar quem espera em “Mãe” a mesma toada de “Que Horas”. Há muito mais nuances na relação entre as personagens do que no confronto declarado entre patroa versus empregada e sua filha do filme de 2015. “Mãe” vai se construindo com muito mais sutilezas, falas improvisadas e a atenção da diretora a pequenos detalhes cotidianos: os diálogos espontâneos, os gestos quase imperceptíveis –uma gama de elementos que tinha deixado de aparecer em “Que Horas”.

Dani Nefussi interpreta a mãe biológica e a mãe de mentira

Matheus Nachtergaele faz o pai biológico de Pierre. As cenas em que ele explode com o filho, especialmente uma rodada num boliche, são muito mais repletas de nuances do que as cenas de conflito entre Regina Casé e Karine Telles em “Que Horas Ela Volta?”.

O filme anterior também abria alguma margem para o improviso dos atores (vide aquelas encenadas por Lourenço Mutarelli), mas era muito mais contido nessa busca por espontaneidade. Nesse aspecto, “Mãe Só Há Uma” ganha de lavada. Ganha também quem era mais fã da Muylaert do início da carreira: menos ‘cinemão’ e mais naturalismo.

Sem Legendas-Noticias do Cinema Brasileiro

Quando Hollywood denuncia a intolerância

dalton trumbo

O filme “Dalton Trumbo — A Lista Negra” merece mais atenção do que tem recebido até aqui.

Num desses raros e belos momentos em que o cinema norte-americano se debruça com coragem sobre a história de seu país, o filme retrata a aparição e consolidação do machartysmo, um sistema de perseguição a milhares de lideranças populares, sindicalistas, altos funcionários do Estado e intelectuais. Num país onde o cinema se tornava uma indústria importante, com faturamento bilionário, milhares de empregados e uma força política capaz de influenciar até mesmo negociações comerciais realizadas no final da Segunda Guerra Mundial, a perseguição também envolveu atores, diretores e roteiristas de Hollywood, num processo que jogou os Estados Unidos num período de treva cultural e retrocesso político.

Com atores competentes e uma narrativa cronólogica, que facilita a compreensão dos acontecimentos, o personagem central do filme é Dalton Trumbo, roteirista filiado ao Partido Comunista. Ao se recusar a prestar depoimento sobre sua militância no circo de uma Comissão do Congresso, num ambiente típico das CPIs que os brasileiros conhecem muito bem, Trumbo recusou-se a delatar colegas de trabalho e foi condenado à prisão por “desacato.” Ao deixar a cadeia, encabeçou a lista negra de profissionais proibidos de trabalhar.

Com uma competência fora do comum para redigir histórias para o cinema, passou a trabalhar na clandestinidade, organizando um grupo de perseguidos para atuar na sombra. Mesmo nessa condição, dois roteiros de Trumbo acabaram premiados com o Oscar — sem que na noite de premiação, transmitida pela TV para o país inteiro, a população pudesse saber quem era o verdadeiro vencedor.

Apesar das imensas distancias impostas pela geografia, pela história, pela cultura e pela sociologia, o filme retrata uma situação de reviravolta política que os povos de nossa época — inclusive brasileiros — conhecem muito bem. Embalada pela retórica extremada da Guerra Fria, assistiu-se ali ao despertar de uma mobilização conservadora em busca de uma revanche contra conquistas sociais produzidas pelo New Deal promovido pelo governo de Franklin Roosevelt. Este é o pano de fundo do filme.

Para além de importantes epopéias individuais, Dalton Trumbo — A Lista Negra ajuda a entender a intolerância política como uma estratégia de assalto ao poder. Trumbo foi chamado a depor em 1947, um ano depois que o Partido Republicano conseguiu uma primeira vitória em eleições parlamentares desde 1932, o ano em que o democrata Franklin Roosevelt venceu a primeira de quatro  eleições presidenciais consecutivas. Os membros do Partido Comunista, que chegou a possuir 70 000 filiados  logo após a Segunda Guerra Mundial, tornaram-se alvo visível de uma perseguição muito mais ampla, que atingiu lideranças da esquerda do Partido Democrata e personalidades comprometidas com as liberdades civis e os direitos dos oprimidos, como aparece na tela.

Sem melodrama, o filme narra cenas de grandeza e fraqueza, tão comuns em situações de gravidade política em que cada um é chamado a escolher o papel que se considera capaz de desempenhar na história de seu país.

Ninguém fez escolhas fáceis nem tem o direito de imaginar que merece uma medalha de herói, recorda o próprio Trumbo, numa passagem em que o filme reproduz um discurso feito no fim de sua vida. Ali, o roteirista retrata a perseguição política como um mal absoluto: fez mal tanto àqueles que perderam empregos para manter-se fiéis a seus princípios, como àqueles que mantiveram os empregos mas perderam os valores em que acreditavam.

Por PauloMoreira Leite (Brasil 247)

Brasil247

 

 

Às margens de Los Angeles, filme mostra vida de prostitutas transexuais

‘Tangerine’, de Sean Baker, mistura aventura, vingança, amizade e ternura entre duas prostitutas trans e negras em uma história dramática cheia de humor ácido.
por Xandra Stefanel, especial para a RBA publicado 02/02/2016 18:15, última modificação 02/02/2016 18:33

A superficialidade da segunda maior cidade dos Estados Unidos passa bem longe do novo filme do cineasta americano Sean Baker, Tangerine, que estreia quinta-feira (4) nos cinemas brasileiros. Além do fato de ter sido todo filmado com um iPhone 5S adaptado e com um orçamento mínimo, o longa-metragem surpreende ao mostrar uma realidade nunca rara de se ver nas telas grandes: o universo de transexuais negras e profissionais do sexo na periferia de Los Angeles.

A história acompanha Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez), uma transexual e prostituta que, depois de 28 dias na prisão, sai na véspera de Natal e descobre que seu namorado e cafetão Chester (James Ransone) a traiu com uma mulher cisgênero. A notícia chegou pela boca de sua melhor amiga, Alexandra (Mya Taylor). É aí que começa a aventura de Tangerine: louca de raiva, Sin-Dee começa a procurar por Chester e sua amante Dinah pelas ruas de uma Los Angeles pouco conhecida, longe da célebre calçada da fama.

O longa-metragem mistura (e equilibra) boas doses de humor e de drama. Talvez pelo fato de ter sido todo filmado com telefones inteligentes, o filme consegue uma proximidade íntima com os atores, especialmente com Kitana e Mia, que parecem completamente à vontade em frente às câmeras.

Ao mesmo tempo que Sean não tem pudor de tratar sobre sexo, drogas e intrigas realmente inspiradas na vida de transexuais e prostitutas, ele não hesita em aproximar o espectador daquela dura realidade. O diretor humaniza histórias de pessoas que vivem na exclusão marcadas por estereótipos: mulheres trans, negras e prostitutas.

Tudo o que Sin-Dee quer é ser amada como no conto de fadasCinderela, quer ter um homem para chamar de seu e quer contar com o ombro de uma melhor amiga. O que ela quer, no fundo, é viver com dignidade – e quem não quer? – mesmo que para isso tenha de fechar os olhos para as traições (e a exploração) de Chester e para as escorregadas da melhor amiga, Alexandra.

Outro personagem que faz parte da trama é Razmik (Karren Karagulian), um taxista casado e com uma filha pequena que, entre um passageiro bêbado e outro, vagueia pelas ruas daquela região em busca de mulheres trans.

Tangerine passeia com humor pelos dramas pessoais de seus personagens e pela melancolia que impregna aquele bairro de L.A. “O mundo pode ser um lugar cruel”, diz Alexandra. “Sim, muito. Deus me deu um pinto. É cruel demais, não acha?”, responde Sin-Dee. De cara, o diálogo pode até parecer engraçado, mas não. O deboche da protagonista esconde uma dor que apenas quem nasceu com um corpo que não condiz com sua identidade de gênero pode entender completamente. Não se pode saber ao certo o sentimento que invade uma pessoa que recebe um copo cheio de urina na cara pela simples razão de não se encaixar nos padrões impostos por uma sociedade heteronormativa e transfóbica.

A ficção que fez sucesso em vários festivais de cinema (Sundance, entre eles) tem uma trilha sonora vibrante e um final que opõe violência e o poder da amizade. É uma história cheia de emoção que traz nos papéis principais atrizes que conhecem de perto a realidade ali representada.

 

Tangerine_(Trailer oficial) from Zeta Filmes on Vimeo.

Tangerine_(Trailer oficial) from Zeta Filmes on Vimeo.

Tangerine
Direção: Sean Baker
Roteiro: Sean Baker e Chris Bergoch
Fotografia: Sean Baker e Radium Cheung
Montagem: Sean Baker
Elenco: Kitana Kiki Rodriguez, Mya Taylor, Karren Karagulian
País: Estados Unidos
Ano: 2015
Duração: 88 minutos
Classificação: 18 anos

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