HOUSE OF CARDS – A 4ª TEMPORADA

http://static.independent.co.uk/s3fs-public/thumbnails/image/2016/01/29/09/

Frank Underwood tenta, mas não consegue ser tão ruim quanto Donald Trump. Pelo menos Frank é de mentirinha

Para mim, é sempre uma das melhores semanas do ano: eu me sento diante da TV e, por treze vezes, assisto àquelas vistas emtime-lapse de Washington, editadas à perfeição com a música-tema magnífica de Jeff Beal. Nunca pulei nem avancei a abertura de House of Cards, porque ela me põe no estado de espírito exato para ver as maquinações sinistras de Frank Underwood (e ainda me dá, não sei, uma melancolia…). E daí, lá pela trigésima vez, finalmente saquei qual o elemento estranho da abertura. Antes de mudar de parágrafo, pense se você também já percebeu o que ela tem de diferente:

divulgação

Não há nenhuma pessoa em cena.Nem uma única figura humana, nem sequer de relance – exceto pelas estátuas. Você vê o movimento dos carros, das luzes, das nuvens, mas gente não há. É o tipo de concepção brilhante de que David Fincher é capaz: uma série sobre o poder em que você vê a sede desse poder nos seus símbolos (como os monumentos e o Capitólio) e também nas suas paisagens mais feias (como as beiras de rio cheias de lixo e os baixos de viadutos) – mas desde a abertura esse poder é retratado como uma entidade para a qual as pessoas não existem; elas simplesmente não entram no cálculo. Repare também que sempre – sempre – que uma “pessoa comum” aparece na série, alguém que não é político, lobista, gerente de campanha ou jornalista, essa pessoa está lá porque está sendo usada de alguma maneira. Em House of Cards só há gente alheia ao poder se serve a ele ou se deu o azar de atravessar o seu caminho.

divulgação

divulgação
E, claro, foi sempre essa a “viagem” de Frank e Claire Underwood: conquistar poder, estendê-lo, consolidá-lo, agarrar-se a ele, pelo prazer que tê-lo proporciona a eles. Tê-lo e mantê-lo: Frank e Claire adoram o corpo-a-corpo com os inimigos, a tramoia, a passada de perna, o cálculo, o conchavo. O casal Underwood já assassinou, conspirou e corrompeu, mas não embolsou nem se locupletou; de fato não é dinheiro que eles ambicionam (Claire, aliás, já tem dinheiro aos montes, de família). E tanto Claire quanto Frank trabalham duro para acumular poder – trabalham mesmo, todo dia, desde muito cedo até muito tarde, sem descanso. É uma vida de dedicação; mas dedicação ao que há de mais sórdido. E, de todas as temporadas até aqui, esta que entrou no Netflix no dia 4 de março é a que mais detalhadamente retrata a inutilidade desse poder para qualquer pessoa que não os próprios Frank e Claire – ou, bem pior que a inutilidade, a perniciosidade do poder deles.

divulgação

divulgação

 

Na terceira temporada, Frank assumiu os dois últimos anos de mandato do presidente do qual ele era vice, e que ele conspirou feio para derrubar. Agora, quer eleger-se para um mandato completo. Frank tem muito discurso, mas não tem (e nunca teve) nenhum projeto político que corresponda ao seu discurso; simplesmente quer derrotar o adversário republicano, Will Conway (o Joel Kinnaman deRobocop), e continuar ocupando o Salão Oval. Detalhe: também o jovem e bonito Conway só tem discurso, sem nenhum projeto político. Tudo que ele quer é derrotar Frank Underwood, e passar a ocupar o Salão Oval. Mas o eleitorado ama Conway, e engole feito amendoim de bar as falas de efeito dele e os seus posts nas redes sociais. Engole com tanto gosto que Conway, a certa altura, começa a disponibilizar no seu site as suas conversas telefônicas e as dezenas de vídeos caseiros que faz todo dia com sua família fotogênica. É tudo tão obviamente feito para agradar e engabelar que é um mistério que o público “compre” essa imagem. Mas compra, porque o processo eleitoral americano – e também o brasileiro, entre o de vários outros países – virou uma máquina de emplacar quem se promove melhor. Em dado momento, Frank recorre a uma convenção aberta do Partido Democrata para indicar seu candidato a vice-presidente. É pior que programa de auditório. Na verdade, há mais ciência e ponderação em American Idol ou The Voice do que na convenção.

divulgação

divulgação

 

A política como estelionato, como mero projeto de aquisição ou preservação do poder, é algo com que o público brasileiro infelizmente não para de adquirir familiaridade. E é também algo que o eleitorado americano está patrocinando de forma inconsequente e ignorante na candidatura do repugnante Donald Trump. Se há um aspecto em que House of Cards pode concorrer com o noticiário, no entanto, é em mostrar a indecência dos bastidores desse estelionato e da maneira como ele é tramado – e o ponto a que se pode chegar para continuar no jogo. Imagine se você pudesse observar todas as conversas repelentes que o Petrolão exigiu, por exemplo; House of Cards é o equivalente dessa ideia. Mas, até para os padrões de Frank e Claire (ou sua total falta de padrões), eles descem baixo demais nesta quarta temporada.

http://jumphawk.jovemnerd.com.br/wp-content/uploads/

https://encrypted-tbn2.gstatic.com/

 

De todas até aqui, também, esta é também a temporada mais bem escrita: ela é tão focada e concentrada, e tão rigorosa na forma como encadeia causas e efeitos, que o certo é mesmo ver um episódio atrás do outro, sem parar. A rigor, ela é um filme de onze horas de duração (não é por acaso que House of Cards virou o símbolo do binge watching – nemPenny Dreadful tem arcos assim tão fechados). Por isso mesmo fiz questão de ver todos os treze episódios antes de fazer esta resenha: este é um caso em que a precaução vale bem mais do que a pressa.

E assim também posso dizer com conhecimento de causa que Joel Kinnaman está ótimo no papel do candidato republicano, que Lars Mikkelsen de novo dá um baile como Putin (aliás, presidente Petrov) e que Ellen Burstyn tem uma participação matadora como a mãe de Claire (e eis aí um caso em que a maçã caiu bem perto da macieira). Continuo em um dilema sobre quem é o melhor ator de todo o elenco (o que não é pouca coisa): Paul Sparks (que faz o escritor Thomas Yates), Mahershala Ali (como Remy Danton) ou Michael Kelly (o tristíssimo e aterrador Doug Stamper)? Nesta temporada, vou votar em Paul Sparks. E, surpresa: Robin Wright dirige quatro dos treze episódios, e faz um trabalho excelente. Como sempre, porém, os méritos decisivos vão para o criador e showrunner Beau Willimon: exatamente como Frank Underwood, ele nunca deixa nenhum detalhe, por mais ínfimo que seja, escapar à atenção dele
Isabela Boscov

Blog da Isabela Boscov

 

Advertisements

Spotlight:O silêncio das redações na mídia de Boston e do Brasil

http://www.umacoisaeoutra.com.br/cinema/IMAGES/

Surpresa no Oscar! Há vida inteligente no cinema americano. Um belo filme disputou e ganhou a estatueta de Melhor Filme e Melhor Roteiro Original (excelente), depois de receber aplausos e ter sido premiado também pelo Sindicato de Roteiristas de Los Angeles.  Oscars mais que merecidos.

Spotlight- Segredos Revelados, do diretor Tom McCarthy, trata da denúncia histórica de pedofilia que acabou pública, em 2002, envolvendo 249 padres criminosos e o Cardeal Bernard Law, de Boston, que acobertou nada menos que três mil casos durante 18 anos. Um episódio gravíssimo que, em médio prazo,  colocou em cheque  o corpo da igreja católica e ecoa até hoje nos quatro cantos do mundo.

O mega escândalo adormeceu durante 15 anos nas gavetas e nos arquivos do jornal The Boston Globe por conta da força de dissuasão e da influência avassaladora da igreja na cidade, maior comunidade católica dos Estados Unidos e oriunda de imigrantes irlandeses da mesma fé. Mais da metade dos assinantes do prestigioso jornal eram, na época, católicos: fieis fervorosos, a maioria praticantes,  outros, bissextos, de tradição familiar.

Muito já foi escrito sobre Spotlight no Brasil, há mais de um mês em cartaz, atraindo milhares de espectadores e candidato ao Oscar deste ano. As resenhas sobre o filme celebram, em geral, a ação do grupo de destemidos e sérios repórteres da editoria Spotlight – palavra que significa holofote, em inglês; no jargão jornalístico equivalente ao mantra ‘onde há sombras que se jogue a luz da informação’ -, do jornal The Boston Globe. Enfim, depois de uma década e meia (!) o diário pariu uma série de matérias com a sinistra história que levou algumas vítimas ao suicídio, e  lesões psicológicas irreparáveis em outras.
Quase todas as crianças violentadas, estupradas ou abusadas pelos padres vinham da população mais pobre de uma das mais opulentas, belas, bem administradas e esnobes cidades do país. Um detalhe do gênero ‘não vem ao caso’, quase nunca lembrado.

Mas o que nos incomoda e chama nossa atenção, nesse filme de linha, é o subtema do qual poucos profissionais da velha mídia tratam – e os da mídia independente também. O silêncio dos jornalistas do grande jornal bostoniano que jogavam golfe, frequentavam os mesmos bares, restaurantes, se visitavam e partilhavam de eventos sociais, eram amigos dos personagens envolvidos no escândalo abafado. Advogados, juízes, personagens ricos e respeitáveis da comunidade. Incomoda o manto de silêncio que desabou, discretamente, sobre a redação do The Boston Globe ocultando crimes da igreja católica.

Foi preciso um editor-chefe judeu, Marty Baron, vindo da Florida, (hoje ele trabalha no Washington Post) um “de fora”, como é visto com condescendência num dos diálogos; um que deseja “marcar presença pelos jornais por onde passa”, insinua-se em outra conversa, para lancetar o tumor como acabaram fazendo, com tenacidade e convicção pessoal, os da equipe da editoria de spotlight, quatro repórteres do jornalismo investigativo honesto.

O editor Walter Robinson (Keaton), chefe do grupo, quinze anos antes, quando chefiava a editoria de assuntos de cidade fora um dos jornalistas que ajudaram a fazer morrer o assunto publicando uma reles notícia sobre o assunto e ‘matando’ a produção de uma suíte.

No filme, acrescenta-se: “Faltou responsabilidade editorial a um jornal que, se é, na verdade, independente, deve defender as instituições” iluminando com seus holofotes os desmandos e abusos eventuais delas. Do contrário, se corre o risco de comunidades inteiras silenciarem (e se acumpliciarem) como ocorreu com os ‘bons alemães’ no período nazista, como também é mencionado num diálogo.

Roteiro enxuto, de Josh Singer e do próprio McCarthy, a produção conta com um elenco sóbrio, primoroso. Primeira categoria. Rachel Adams, Michael Keaton, Mark Ruffalo  e Matt Carol fazem os quatro jornalistas investigativos. Mas Liev Schreiber na pele do Editor e, em especial, o sempre ótimo Stanley Tucci, um dos mais inteligentes atores do cinema americano de sua geração, arrebata, como costuma fazer, a atenção do espectador nas sequências em que aparece. Tucci faz o advogado armênio Mitchel Garabedian, defensor das vítimas dos padres pedófilos de Boston. Nas suas falas, denuncia de leve uma ponta do racismo que toca a sociedade local.

Segredos Revelados vem num pacote de produções inspiradas em episódios reais e se relacionam com fatos atuais desenrolados no Brasil neste momento. Em A Grande Aposta, os conluios espúrios de grandes bancos e agências globalizadas de classificação de risco de economias nacionais gerando desastres econômicos para milhões de indivíduos. No filme Trumbo é lembrado o quanto pode ser perniciosa a figura jurídica da delação premiada estimulada irresponsavelmente e com critérios frouxos como ocorre com o trabalho da turma da República do Paraná ao laurear até marginais reincidentes em crimes praticados no passado, como o notório Yousseff.

No caso presente, nos interessou a síndrome do ‘controle da informação’ que acomete redações de jornal, como bem assinalou em artigo escrito com coragem e sinceridade a jornalista Tereza Cruvinel. ”A vida de Mirian e os desdobramentos do caso,” ela diz, “ao longo dos anos, sempre foram acompanhados com interesse pela imprensa, não para produzir notícia, mas para o controle da informação, digamos assim.”

Uma ‘hipocrisia midiática.’ Em Boston e aqui.

“Para os donos e para os profissionais da imprensa nacional, não há surpresa alguma, não há novidade alguma no que a jornalista Mirian Dutra contou (…)  sobre seu relacionamento com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.”

Durante os últimos 30 anos, nem os estagiários de redações brasileiras desconheciam as aventuras do ex-presidente nem o “caso” Mírian Dutra.  “Nunca se ignorou que a  TV Globo  mantinha Mirian contratada mas não a pautava,” lembra a jornalista no seu blog. (Exceções: quando auxiliou, mas sempre em segundo plano, coberturas em Portugal e na Itália.)

“Então não me venham, caros colegas, com estes ares de novidade. No mais, fomos todos cúmplices (…)   Nunca ninguém sequer cogitou, em nenhuma redação de Brasília, de escrever sobre o assunto.“*
O escândalo dos católicos de Boston, religiosos,  e fieis e jornalistas que se deixaram manipular pela igreja local já está devidamente iluminado pelos holofotes.

Aqui, na era da internet, o colossal escândalo  vem sendo esmiuçado pela mídia digital envolvendo uma reeleição presidencial (talvez imerecida; que se não tivesse acontecido teria mudado, quem sabe, o rumo da vida nacional); o abuso cínico de dinheiro público dos falsos catões da oposição do PSDB e o constrangimento ao limbo profissional de uma repórter –  recurso de prática aliás conhecido e reincidente nas redações.

O que falta agora, para mais além do mea culpa dos jornalistas, é mudança nas normas éticas do seu trabalho. Discutir, por exemplo, a tal ideia do “controle de informação” num dos habituais seminários, debates e mesas redondas profissionais em que se reúnem, às vezes para discutir o sexo dos anjos.
Denunciar o gargalo do mercado de trabalho criado pela mídia oligárquica submetendo ao silêncio forçado os profissionais temerosos de perder o emprego e o poder que detêm – ou por necessidade básica ou por mera vaidade.

Denunciar outra síndrome nefasta que sempre acometeu  os jornalistas: o deslumbramento com os universos e os ambientes da fama, do poder, notoriedade e do dinheiro com os quais passam a conviver, nos quais começam a circular e dos quais não querem mais abrir mão.

Insistir na necessidade da regulação da mídia brasileira e fortalecer sindicatos sem pelegos e entidades de classe independentes.

Depois dos episódios dos pedófilos de Boston, o cardeal que encobriu os milhares de crimes de 250 padres da sua diocese foi punido e transferido para a prestigiosa Igreja de Santa Maria Maggiore, em Roma, onde vive semi-recluso. Nem o papa Francisco o recebe.

No escândalo brasileiro, o protagonista central, o ex-presidente que “já entrou para o Olimpo histórico, onde se pensa que nada mais pode atingi-lo,” como lembra a jornalista Cruvinel, se manifesta atordoado embora continue blindado por obsequioso  e espantoso! – silêncio da velha mídia, seus artífices e colaboradores.
Resta quem? Apenas nós, cidadãos, cúmplices também sonsos da hipocrisia midiática? Ou da hipocrisia nacional?

 

*Jornalista
Léa Maria Aarão Reis*

*A revista Caros Amigos, em São Paulo, publicou, há cerca de dez anos, matéria de capa sobre o caso Mirian Dutra/FHC. O assunto morreu ali. Não houve suíte de outro veículo. Nem interessou a um único repórter investigativo como os que hoje pululam por aí.

Uma Coisa E Outra

%d bloggers like this: