O Rei de Bollywood

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O ator Shah Rukh Khan é considerado um semideus na Índia.
O texto abaixo foi publicado na versão em português do site alemão DW
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Seja entre os jovens, seja entre os mais velhos: na Índia, Shah Rukh Khan é considerado um semideus. Quase todos os filmes do ator de 47 anos são um enorme sucesso. Como produtor, ator, apresentador de televisão ou estrela da publicidade, ele recebeu diversos prêmios e se tornou um bilionário. Para a mídia indiana, Shah Rukh Khan (ou SRK) é o “rei de Bollywood”.

Mas o próprio astro estranha todo esse sucesso. Após a frenética recepção no Festival de Berlim deste ano, quando centenas de fãs enfrentaram temperaturas abaixo de zero para ver o seu ídolo, ele conversou com a Deutsche Welle. “Depois de ser recebido com tanto entusiasmo aqui na Alemanha, eu me perguntei por um momento se sou alemão ou se os alemães são, na verdade, indianos”, brincou o ator.

A crítica de cinema Shubhra Gupta, de Nova Delhi, afirma que Shah Rukh Khan é a estrela mais carismática do cinema indiano. Ele enfeitiça as plateias de todo o mundo e, mesmo assim, não é tido como inacessível. “Ele tem uma imagem positiva de um homem de família, ele é pai e marido. Muitas vezes enfatizou que só quer fazer filmes que agradem a seus filhos.”

Seja como herói ou amante, seja como pai de família, Khan consegue levar elementos da sua vida pessoal aos seus personagens, tornando-os críveis para os fãs.

Khan estudou economia, mas em seguida começou a aparecer em produções de teatro e na televisão. Ele fez seu primeiro filme romântico, Deewana (O apaixonado, 1992), quando já tinha 20 e poucos anos, e era considerado relativamente velho para a indústria cinematográfica indiana.

Em seguida, experimentou personagens mais sombrios e psicopatas em filmes como Darr (Medo, 1993), Baazigar (O jogador, 1993) e Anjaam (A consequência, 1994), antes de voltar aos filmes românticos.

Khan já atuou em quase cem filmes. Entres os mais famosos no exterior estão Nos bons tempos e nos dias difíceis (Kabhi Khushi Kabhi Gham, 2001) e Om Shanti Om (2007).

Mesmo um grande tabu para os indianos não prejudicou sua carreira. Ele se casou em 1991 com a hindu Gauri. Para muitos conservadores na Índia, o casamento entre um muçulmano e um membro da comunidade hindu é inaceitável. O casal tem dois filhos.

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Algumas das características e peculiaridades do cinema de Bollywood, como a música e as cenas de dança, não têm, à primeira vista, um apelo global. Os filmes de Bollywood são exibidos na Alemanha pelo canal de televisão RTL2 desde 2005. Apesar de os filmes serem dublados, as canções são mantidas em híndi. “Você não precisa entender a letra das músicas”, diz Khan. “O cinema de Bollywood é sobre o que as pessoas sentem.”

Há alguns anos, os grandes sucessos do cinema de Bollywood são mostrados por longos períodos em grandes cidades alemãs como Colônia, Munique e Hamburgo. Hoje, distribuidoras como a Rapid Eyes Films espalham o cinema bollywoodiano em todo o país.

A jornalista e apresentadora da DW-TV Monika Jones já entrevistou Shah Rukh Khan diversas vezes. Ela o descreve como “charmoso, espirituoso e muito inteligente”. Ela acredita que o ator tem um efeito positivo sobre os alemães. “Muitos acreditam que temos que ser sérios aqui na Alemanha, não demonstrar sentimentos. Mas faz bem extravasar de vez em quando.”

Mas Bollywood também mudou. A qualidade técnica dos filmes melhorou, seus temas refletem mais o estilo de vida ocidental e sua linguagem cinematográfica se tornou mais global.

A cineasta e curadora Dorothee Wenner, de Berlim, apoia há muito tempo a seleção de filmes indianos para a Berlinale (Festival de Cinema de Berlim). Ela conhece bem Shah Rukh Khan.

Por quanto tempo o ator conseguirá manter seu espaço no recente sucesso mundial do cinema indiano? “Essa é a pergunta que quatro universidades europeias tentam responder”, diz Wenner.

Em sua opinião, existem diferentes fatores a serem considerados. “Na Índia, os dois últimos filmes de Shah Rukh Khan tiveram um retorno abaixo das expectativas. Outras estrelas estão se tornando mais populares no país e alguns dizem que ele já está ficando muito velho. Mas as novidades de Bollywood ainda demoram um pouco para chegar aqui à Alemanha”.

Wenner afirma que Khan é certamente responsável pelo sucesso mundial dos filmes de Bollywood. “Ele é um ótimo artista e um excelente embaixador.

Paulo Nogueira-DCM

House of Cards é o retrato acabado dos Estados Unidos

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A série mostra como está corrompido o mundo político, jornalístico e corporativo americano.
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Você vê o bom House of Cards, o seriado da Netflix sobre o mundo político, econômico e jornalístico americano, e no final entende por que os Estados Unidos estão num declínio tão dramático.

Nada presta. Ninguém tem caráter ou causa que não seja a própria. É uma caricatura, talvez você pode dizer. Mas o mundo de HC se parece muito com a realidade conhecida dos Estados Unidos.

Frank Underwood, deputado vivido por Kevin Spacey, é um canalha fundamental. Passado para trás pelo presidente eleito, que lhe prometera o cargo de secretário de Estado, ele se revolta e decide sabotar a administração, a começar pelo homem que foi escolhido em seu lugar.

Para isso, ele escolhe uma jornalista jovem e já completamente corrompida antes de assinar sua primeira reportagem.

Ela faz sexo com Frank em troca de furos. É o tipo de jornalismo mais abominável: aquele em que você recebe uma informação claramente interessada, repleta de más intenções.

Pulitzer dizia que jornalista não tem amigo. Muito menos amante. Envolvimentos pessoais geram compromissos complicados. Os brasileiros viram há pouco tempo isso nas estreitas relações entre Cachoeira e Policarpo.

Frank está, simbolicamente, sodomizando o jornalismo na figura da repórter.

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Para quem gosta de ver bastidor de redação, HC mostra o quanto são impotentes os diretores de redação diante dos proprietários.

Numa cena, a dona do jornal diz ao diretor que dê na primeira página um texto da repórter que tem um caso com Frank. Ele reluta, e diz que vai pensar. “Pense bastante e depois publique”, ela diz.

Noutra cena, o diretor tenta demitir a garota, que caíra na simpatia da dona por causa dos furos passados por Frank. Quem acaba demitido é ele.

Claire, a mulher de Frank, é tão amoral quanto ele. Comanda, paradoxalmente, uma empresa que vive de doações para projetos filantrópicos.

Um dia ela decide promover uma demissão coletiva. Sua adjunta, atormentada, tenta demovê-la uma, duas, várias vezes. Em vão. É ela, a adjunta, que é forçada a comunicar as demissões.

No dia seguinte, feito o trabalho sujo, Claire a manda embora sumariamente.

No ano passado, vi Borgen, um seriado político escandinavo muito bom. Os mesmos elementos, essencialmente – poder, dinheiro e jornalismo.

Mas havia dignidade em vários personagens.

Em HC, não há nenhum senso de moral. Você se pergunta: que estes caras estão fazendo no mundo?

E você entende, também, por que os Estados Unidos estão onde estão – num buraco sem volta

Game of Thrones é a série mais pirateada de todos os tempos

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Como a internet está forçando os canais a cabo, como a HBO, a rever seus conceitos.

“A pirataria vem quando você tem uma série bem sucedida num canal de assinatura”
Game of Thrones é o seriado mais pirateado de todos os tempos. E a HBO está feliz com isso.

Está?

Bem, pelo menos o presidente de programação diz que sim. “Eu provavelmente não deveria estar falando isso, mas é um tipo de reconhecimento”, disse Michael Lombardo. “A demanda está aí. E certamente não afetou negativamente as vendas de DVDs. A pirataria vem quando você tem uma série bem sucedida num canal de assinatura”.

O diretor, David Petrarca, afirmou que os downloads não-autorizados fazem mais bem do que mal e são responsáveis pelo “buzz” necessário para manter sua relevância e sobrevivência. Em 2012, foram 4 milhões de downloads por episódio das duas temporadas. O primeiro episódio da terceira teve mais de 1 milhão de downloads num único dia.

Uma das razões por que isso acontece é que os capítulos vão ao ar nos EUA antes do que no resto do mundo. Quem não quer esperar, baixa mesmo (depois dos americanos, os maiores piratas são os ingleses e os australianos).

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E há outra razão: as emissoras a cabo estão perdendo terreno para – surpresa! – a internet. Canais da web, como NetFlix, são mais baratos e representam uma tendência crescente (a HBO só libera o sinal do HBO Go para quem é assinante da TV).

Francamente: você, que tem o pacote super-hiper-extra-mega-plus da Net, assiste quantas horas por dia? Ainda mais quando o console do game do seu filho tem agora o YouTube e outras coisas no seu televisor, ao alcance dos seus dedos estafados.

No ano passado, alguns fãs criaram a campanha “Pegue Meu Dinheiro, HBO!”. Os malucos querem convencer a HBO a oferecer Game of Thrones e outros produtos por streaming – e estão dispostos, sim, a desembolsar uma grana por isso. A empresa respondeu que adorava a ideia, mas que ela não fazia sentido financeiramente.
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Com a pirataria nesses níveis, porém, logo, logo, a HBO vai ser obrigada a rever seus conceitos. Neste momento, alguém do departamento financeiro está calculando quanta grana não está entrando no caixa.

Enquanto ela não abre mão da receita das assinaturas, milhões e milhões de adoradores de Game of Thrones, com seu mundo fantástico de anões, reis, princesas, demônios e dragões, estarão assistindo suas aventuras na faixa. E, de acordo com alguns executivos da HBO, ninguém precisa se sentir culpado por isso.
Kiko Nogueira-Diário do Centro do Mundo
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