Wall Street autoconsciente e cínica no filme “A Grande Aposta”

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Desde os anos 1980 fundos de investimento de Wall Street investem em Hollywood nos chamados estúdios independentes. Ironicamente, os mesmos estúdios que inventaram o subgênero “cinema da crise” que desde o crash da bolha especulativa imobiliária de 2008 denunciam as “fraudes” e “mentiras” de Wall Street em diversos documentários e dramas ficcionais. O filme “A Grande Aposta”, indicado ao Oscar desse ano, é mais uma dessas produções supostamente críticas, mas ironicamente financiadas pelo próprio sistema que denuncia. Wall Street é autoconsciente e cínica ao financiar filmes como “A Grande Aposta”? Será que  toda “ganância é boa” ao ponto do sistema financeiro lucrar com a própria denúncia de si mesmo?

As ondas da crise financeira global de 2008 continuam se espalhando não só nas tendências econômicas, mas também no universo cinematográfico. Foi capaz de criar uma espécie de subgênero que poderíamos denominar como “cinema da crise”: Capitalismo – Uma História de Amor (2009), A Ascensão do Dinheiro(2009), O Último Dia do Lehman Brothers (2009), Trabalho Interno (2010), Margin Call: O Dia Antes do Fim (2011), O Lobo de Wall Street (2013), para ficar nos mais conhecidos.

Sejam documentários ou narrativas ficcionais, esses filmes têm em comum o esforço em tentar explicar aos leigos a terminologia hermética dos sistemas financeiros como subprimes, swaps, agências de classificação de risco, CDO sintética, CDO composta, obrigações hipotecárias, tranches etc.

 

A Grande Oposta é mais um filme desse subgênero que inova o esforço pedagógico ao misturar ficção e documentário, comédia e drama – um famoso cozinheiro falando das suas estratégias culinárias e Margot Robbie em uma banheira cheia de espumas fazem analogias para explicar termos financeiros; constantemente a quarta parede é rompida quando o narrador onisciente (que na verdade é um dos personagens) fala para o espectador;  movimentos de câmera característicos da linguagem documental; personagens se dirigindo ao espectador para corrigir sua própria atuação ficcionalizada.

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São recursos propositais que o filme utiliza para quebrar o ritmo e criar uma impressão de autoconsciência e cinismo.

Ironias

Mas esse “cinema da crise” guarda algumas ironias. Primeira: são produções de estúdios hollywoodianos e alguns chegaram a ser premiados e/ou indicados para o Oscar, como o caso de A Grande Oposta que concorre a Melhor Filme. O mainstream da indústria do entretenimento desmascarando fraudes e mentiras de Wall Street?

Segunda: desde os anos 1980 fundos de hedge de Wall Street passaram a investir em Hollywood, impactando a estrutura dos estúdios – passaram a financiar produções de estúdios independentes como a Catch 22 Entertainment, Lionsgate, Relativity Media e a própria Regency Enterprises, produtora de A Grande Aposta – sobre isso clique aqui.

Questão paradoxal: Wall Street investe em filmes que revelam suas próprias mazelas à opinião pública? Como dizia Gordon Gekko (o inescrupulosa especulador do filme Wall Street feito por Michael Douglas) “a ganância é boa”. Mas ao ponto de fundos hedge de Wall Street procurarem lucros em filmes onde eles próprios são denunciados?

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Talvez essa ganância pragmática não seja surpreendente tendo em vista o que praticaram em 2008: mesmo sabendo que as obrigações hipotecárias estavam podres, asseguravam a saúde financeira a seus clientes enquanto secretamente apostavam na explosão da bolha imobiliária. Afinal, dinheiro não tem ideologia, moral ou pátria.

Máquina de propaganda

Mas no caso do cinema da crise, parece haver um propósito de utilizar Hollywood mais uma vez como máquina de propaganda e de agendamento da opinião pública.

Como o filme Obrigado Por Fumar mostrou de forma magistral, em uma sociedade da informação é impossível negar, esconder ou negligenciar fatos e tendências. Esse filme mostrou como a indústria tabagista era capaz de financiar campanhas e pesquisas ao mesmo tempo contra e a favor do tabaco – deixe que as pessoas escolham o que é melhor para elas, mas o cigarro sempre estará em evidência – sobre o filme clique aqui.

A Grande Aposta parece ser mais um exemplo dessa tática, dessa vez com o sistema financeiro onipresente nas produções hollywoodianas: mostrar que a explosão da bolha imobiliária de 2008 foi o resultado da fraude, mentira e relações promíscuas (profissionais ou sexuais, como de passagem mostra o filme) entre as agências de classificação de risco e os bancos.

Fraude, mentira e promiscuidade são conceitos morais, perfeitos para um filme que se limita ao foco microeconômico (as táticas dos investidores, traders, bancos de investimento e fundos), passando ao largo das questões macroeconômicas – Banco Central e o sistema bancário norte-americano.

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Veremos que A Grande Oposta, assim como todo o subgênero “cinema da crise”, é incapaz de abandonar o campo da moralização (mostrar os “bad guys”) e fazer um questionamento ontológico ou macroeconômico: como o sistema não apenas frauda, mas simula a riqueza com a substituição do dinheiro pelo crédito. E como as crises são as novas formas destrutivas de realização de lucros (quando crédito vira dinheiro), e não mais “o fim do capitalismo” como de forma sensacionalista esses filmes parecem quer passar com termos como “último dia”, “o fim” ou “o dia do apocalipse”.

O Filme

A narrativa acompanha quatro clarividentes excêntricos do mercado financeiro de diversas origens que, dois anos antes do crash de 2008, pressentem que a cintilante bolha do mercado financeiro iria explodir. Resolvem fazer apostas em massa contra o mercado imobiliário (fazer seguros de hipotecas subprimes), sob a descrença generalizada de todos: como um investidor vai apostar contra uma das instituições econômicas mais sólidas do país?

Michael Burry (Christian Bale) é um médico que se tornou um guru de um fundo de hedge. É o primeiro a pressentir que a inadimplência hipotecaria subirá incontrolavelmente a partir de modelos matemáticos de tendências.

Mark Baum (Steve Carrell) é um investidor impulsionado por uma mistura volátil de ódio contra o sistema, tristeza e profundo cinismo – considera-se o último dos justos de Wall Street.

Jared Vennett (Ryan Gosling) é um especialista de hipotecas subprime do Deutsche Bank onde está na melhor sequência didática do filme: explica o significado do colapso das subprimes a partir de uma pequena torre com blocos de madeira do jogo Jenga.

Ben Rickert (Brad Pitt) é um plutocrata com discursos conspiratórios, fala baixinho e caminha calmamente e acredita que a civilização está condenada – para ele, após “o fim” sementes para plantar serão a nova moeda. Ele vai ajudar dois jovens investidores de um escritório montado na garagem da casa da mãe a conseguir também apostar contra o mercado imobiliário.

O filme divide claramente os investidores em três categorias: os que enriqueciam sem entender a especulação que estavam manipulando e inflando (a striper que possui apartamentos e cobertura); os que sabiam perfeitamente o que acontecia mas seguiam operando sem se importar com as consequências – afinal, nada é mais sólido do que o mercado hipotecário; e os que anteciparam a crise.

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Os protagonistas pertencem a essa terceira categoria que são caracterizados como freaks, outsiders, corsários, autônomos como fossem abutres pós-modernos que se antecipam à carniça. São mostrados como anti-heróis: Burry trabalha de bermudas, descalço e ouvindo rock pesado enquanto lida com modelos matemáticos; Baum odeia o sistema e é o único que apresenta algum escrúpulo com as consequências da crise para os cidadão comuns  pela miséria e desemprego; Rickert é um desiludido à espera do apocalipse e Jared um funcionário que aposta contra o próprio banco que trabalha.

Fraude, mentira e simulação

Mas, como todos os demais, suas ações são também guiadas pelo lucro. Porém, o filme retrata os heróis através dos valores mais caros da cultura norte-americana: a iniciativa individual, empreendedorismo – a cena em que Burry está atento à tela do computador e a câmera passeia pela estante de livros e para em um exemplar de Adam Smith (o pai do liberalismo econômico) e o escritório de investimentos montado na garagem da mãe de um dos investidores da dupla ajudada por Rickert, como fossem os Steve Jobs do mundo financeiro.

A Grande Aposta insiste nos conceitos de “fraude” e “a mentira” que estariam no “coração” da economia norte-americana. Esses conceitos são morais porque originam-se da noção de dissimulação – partem do pressuposto de que, em algum lugar, existe uma verdade que está escondida: a verdadeira economia voltada ao seu valor de uso: a alocação racional e justa de recursos escassos na sociedade.

Mas o que o filme não aborda é que no final todos os protagonistas ganham créditos e não dinheiro como resultado das suas apostas. Tudo que verão são números nas sua telas de computadores dos lucros creditados em suas negociações.

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Desde que o Estado deixou de ser a única instituição emissora de dinheiro com as políticas neoliberais de desregulamentação, o sistema financeiro passou a ser um emissor privado também de “dinheiro” – na verdade crédito, riqueza virtual sem qualquer lastro com a economia real que simula ser riqueza.

Ou seja, os nossos heróis de A Grande Aposta que “denunciam” as grandes falcatruas por trás da crise de 2008, serão os artífices da próxima crise – em algum momento esses créditos terão que baixar à terra para transformarem-se em dinheiro: o Estado terá que compulsoriamente lastrear esses créditos socializando o prejuízo (desemprego e depressão econômica) para salvar a credibilidade do sistema financeiro. Que no final tem o Estado como refém com a sua própria dívida transformada em papéis comercializados no sistema financeiro global.

Parece que descobrimos que não é tão paradoxal Wall Street investir em produções hollywoodianas  “críticas” contra o sistema financeiro: no final, o sistema nunca é colocado em xeque – resta culpar os “fraudadores” e “mentirosos”.

Ou, como no emblemático final do filme Casablanca quando o inspetor Renault salva a vida do protagonista Rick (Humphrey Bogart) ordenando: “prendam os suspeitos de sempre”. O mesmo modus operandi aplicado ao filme A Grande Aposta: procurem os homens “maus” para permanecer um sistema onde a iniciativa individual e o empreendedorismo sempre buscam o bom lucro.

CineGnose

 

Wilson Roberto Vieira Ferreira -CineGnose

A barreira da língua é enorme”: Wagner Moura fala de sua primeira experiência em Hollywood

O ator baiano abre seu coração sobre suas dificuldades de trabalhar ao lado de Matt Damon na ficção científica “Elysium”.

Moura com Matt Damon

Wagner Moura com Matt Damon

Depois que abandonou a franquia Bourne, Matt Damon está desfrutando um renascimento na carreira com uma série de grandes projetos. Primeiro foi o namorado flamejante de Liberace no filme da HBO “Behind the Candelabra”. Recentemente, terminou de participar de “Men in Berlin” juntamente com o bom amigo George Clooney, sobre um grupo de historiadores de arte que tenta desesperadamente recuperar uma coleção de valor inestimável roubada pelos nazistas.

Agora Damon acaba de fazer “Elysium”, um thriller de ficção científica pós-apocalíptica dirigido pelo sul-africano naturalizado canadense Neill Blomkamp (“Distrito 9”). Damon interpreta Max, um ex-ladrão de carro que vive em Los Angeles, uma cidade que evoluiu para uma gigantesca favela no futuro. Depois de ser exposto a uma dose letal de radiação no local de trabalho, Max tem apenas cinco dias para viver. Isso o inspira a migrar para Elysium, uma gigantesca estação onde as elites super-ricas vivem, já que a Terra se tornou um deserto tóxico dominado pelo crime. Elysium fornece a todos os seus residentes máquinas que curam todas as doenças e lesões em poucos segundos e Max está determinado a romper essa barreira de classe e se salvar.

Max é ajudado em sua missão por um velho amigo, o gangster Spider. Para o papel, Blomkamp escolheu o brasileiro Wagner Moura. É o primeiro filme de Moura para um estúdio americano. Moura obteve o convite muito por conta de seu desempenho como o policial fascista Capitão Nascimento. Spider, no entanto, ao contrário de Nascimento, joga do lado do bem. Moura está bastante à vontade como um bandidão politicamente correto.

“Este filme fala sobre a idéia de globalização e de exclusão e essa é uma das razões pelas quais Neil queria um elenco internacional “, me disse Moura (a atriz Alice Braga também está no filme). “Durante a minha primeira leitura do roteiro para o papel, eu fiz algo que ele não tinha inicialmente previsto para o personagem. Neil, porém, gostou da minha interpretação particular e disse-me me disse para continuar na mesma direção. Ele me mostrou que estava aberto como director”. Moura conversou comigo sobre sua primeira experiência internacional e seus problemas com outro idioma.

O que o levou a trabalhar em “Elysium”?

Eu fiz o filme porque achei que era um projeto brilhante e porque adorei o personagem que me foi oferecido. Mas foi duro trabalhar em inglês porque você não tem a mesma relação com as palavras que tem na sua língua nativa. Quando eu falo minha língua, posso apreciar cada nuance e cada forma de frasear as palavras. Eu não consigo fazer isso em inglês .

Você teve um professor de inglês no filme?

Eu tinha um treinador de dialeto que trabalhou comigo em duas cenas do filme – não em todo o filme. Precisei disso em algumas cenas que eram particularmente difíceis e importantes porque queria fazer o melhor trabalho possível. De qualquer maneira, o diretor foi tolerante com meu sotaque porque, obviamente, eu não podia fazer muito a respeito disso.

Você está de olho agora numa carreira internacional ou vai continuar trabalhando no Brasil?

Eu quero continuar trabalhando principalmente no Brasil. Filmes internacionais desse tipo são eventos extraordinários e acontecerão uma vez por ano ou menos. Eu não acho que vou trabalhar freqüentemente lá fora porque não estou completamente à vontade atuando em outro idioma e não sou capaz de projetar o tipo de referências culturais necessárias quando ​​você está atuando com alguém de outra nacionalidade.

Essas são questões difíceis quando se trata de trabalhar no cinema americano. A barreira da língua é enorme e também a barreira cultural. Por isso não estou tão interessado em trabalhar em filmes americanos.

(Nota: apesar dessas alegadas dificuldades, Wagner Moura me disse que vai fazer o papel do diretor Federico Fellini num filme em inglês que vai falar da passagem do cineasta italiano em Los Angeles. Fellini desapareceu por dois dias em 1957, antes de uma cerimônio de entrega do Oscar. Vai ser a primeira vez da história em que Fellini terá um sotaque baiano).

Sobre o autor: Harold Von Kursk–DCM
Alemão, naturalizado canadense, Harold tem 52 anos e é, além de jornalista, diretor de cinema. Em mais de 20 anos, entrevistou atores e cineastas para a mídia americana e europeia. Com todas teve grandes conversas. Exceto por Scarlett Johansson. “Ela é uma linda diva mimada”, diz.

A tirania do mau gosto nos blockbusters do cinema by Harold Von Kursk

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Jean-Luc Godard, o apóstolo profano da Nouvelle Vague, disse certa vez que, que em algum momento, “Hollywood vai fazer apenas um filme e todo mundo vai ver.” Essa declaração, de 1968, foi uma leitura profética do destino manifesto da indústria cinematográfica internacional, que atingiu a apoteose com a abominação Avatar, de James Cameron, e se espalhou como um vírus através de telas do mundo.

Com uma trama que deveria envergonhar até mesmo um roteirista aspirante, Avatar foi um divisor de águas na história do cinema, uma vez que criou um clima incomparável de cobiça dentro das torres de marfim dos grandes estúdios. Agora, a notícia é que Homem de Ferro 3 já faturou cerca de 700 milhões de dólares de bilheteria em todo o mundo em sua primeira semana de lançamento. O filme possui todos os clichês para alcançar um triunfo extraordinário do nada.

Nada nele é real. Não há nenhum ponto, nenhum significado, nenhuma substância, nada que se aproxime de uma verdadeira aparência da personalidade humana. É como se a aplicação do conceito de “suspensão da descrença” – a velha ideia de que o público está disposto a suspender as percepções comuns da lógica e da compreensão para permitir que a imaginação aceite narrativas, personagens e enredos artificiais – tivesse alcançado o orgasmo total.

Num excelente filme de Wim Wenders, de 1976, No Decurso do Tempo, um dos personagens principais afirma: “Os ianques colonizaram nosso subconsciente.” O que aconteceu com Hollywood?

Nos anos 60 e 70, o cinema americano ainda estava vivo e bem em termos de sua capacidade de produzir um quinhão de filmes notáveis ​​que os estúdios não estavam dispostos a bancar.

No início dos 70, por exemplo, os estúdios faziam coisas aclamadas pela crítica, como Cada Um Vive Como Quer, Operação França, Os Implacáveis, O Poderoso Chefão, Chinatown, O Estranho no Ninho, O Longo Adeus et al. Diretores como Arthur Penn, Robert Altman, Roman Polanski, Bob Rafelson, Sam Peckinpah e William Friedkin eram os “touros indomáveis” (como Peter Biskin os definiu em seu livro Easy Riders, Raging Bulls) de uma brilhante nova geração de cineastas.

Ao longo do caminho, diretores altamente iconoclastas e inventivos como David Lynch e John Dahl tentaram abrir caminho em favor de um cinema mais corajoso, antes de desaparecer no esquecimento. A paisagem, uma vez sublime, do cinema americano deu lugar à estupidificação generalizada que tem deixado autores de lado, na busca desesperada de financiamento e distribuição. Os estúdios se prostraram diante de um algoritmo de marketing infernal, que deriva do impulso de fazer filmes para adolescentes em busca da promessa de sexo pós-pipoca.

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“Crepúsculo”
É por isso que Robert Redford, ex-golden boy de Hollywood, decidiu tornar-se um produtor independente e fundou o Instituto Sundance como um meio de criar um fórum permanente para o cinema independente. Enquanto ainda era escravo das tarifas dos estúdios, Redford usou seu nome e suas finanças pessoais para financiar uma grande variedade de filmes – O Candidato, Jeremiah Johnson e Todos os Homens do Presidente, a crônica de Watergate. Seu último filme, The Company You Keep, sobre o movimento subversivo Weather Underground, mostra que ele ainda tem o compromisso de combater o sistema em algum nível.

Significativamente, os grandes estúdios de Hollywood nunca contribuíram com um centavo para o Sundance. Sexo, Mentiras e Videotape, de Steven Soderbergh, foi gerado lá, como muitas outras pedras preciosas independentes, como O Balconista e Cães de Aluguel.

Mas esses diretores enfraqueceram quando assumiram seu compromisso com a popularidade. Tarantino tem se fetichizado em uma orgia repetitiva de violência e excesso como em Django. Soderbergh aparentemente decidiu se aposentar. Apenas os irmãos Coen continuam firmes. Onde Os Fracos Não Têm Vez ganhou o Oscar de melhor filme e o mais recente Inside Llewyn Davis, co-estrelado por Justin Timberlake e Carey Mulligan, foi selecionado para o Festival de Cannes deste mês.

Infelizmente, com o declínio e desaparecimento dos Altmans, Rafelsons, Ashbys, Peckinpahs, Friedkins, Lynchs e Dahls, o cinema independente americano foi englobado e subvertido por Hollywood. Hoje, a inteligência das pessoas foi corrompida por uma fonte incessante de blockbusters de destruição em massa, com sua demanda cada vez maior de efeitos especiais e personagens de desenho animado. Mesmo após o renascimento fracassado de Super Homem, de 2007, um novo filme está para estrear, com a esperança de reviver a marca.

Durante a última década, temos visto uma explosão de longas inspirados em desenho animado que beira o absurdo – Demolidor, Mulher-Gato, Elektra, X-Men, e, claro, o criminoso degenerado Lanterna Verde, para não mencionar Hulk (pode haver algo mais absurdo do que Ang Lee dirigindo um filme sobre um mutante radioativo com o cabelo ruim?)

A série Crepúsculo transformou os protagonistas Robert Pattinson e Kristen Stewart em ícones, deliciando os tablóides com fofocas. Os filmes são tão mal dirigidos quanto novelas da Globo (sim, eu tentei assistir no Canadá). O filósofo Walter Benjamin expressou sua decepção com a degradação estética da Europa, referindo-se a ela como a “tirania do mau gosto.” Ele fez essa declaração em 1932. Penso no que teria dito ao testemunhar o suicídio cultural atual.

Eu fico ouvindo a melodia melancólica de Pete Seeger em Where Have All the Flowers Gone enquanto vejo a lista de blockbusters, pensando em como ficou fácil saturar as plateias com lixo. De alguma maneira, é preciso fugir disso. Talvez com Sidney Bechet ou John Coltrane como um antídoto para a dor. Ou com uma assinatura da HBO para ver Mad Men e driblar o tédio, como disse uma vez John Malkovich para Clint Eastwood.

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Harold Von Kursk-Diário do Centro do Mundo-DCM

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