A bela Charlize Theron teria ajudado segurança em convulsão no Oscar

As mais gatas do Oscar 2013
A noite do Oscar não foi só de badalação para a atriz Charlize Theron. Pouco antes da premiação começar, a bela de 37 anos correu para ajudar um segurança que sofria uma convulsão, afirma o site Huffington Post.

O homem que trabalhava no local passou mal e a atriz era uma das únicas pessoas ao redor. Ela tentou ajudá-lo enquanto outras pessoas chamavam um médico.

Charlize não foi nomeada a nenhuma categoria, mas dançou no palco do Oscar com Channing Tatum durante o monólogo de abertura do apresentador Seth MacFarlane.

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Argo” e Ang Lee são os grandes vencedores do Oscar 2013

LOS ANGELES (AFP) – Argo, de Ben Affleck, melhor filme, e o Ang Lee, melhor diretor, foram os destaques da cerimônia da entrega da 85ª edição do Oscar, realizada na noite deste domingo no Dolby Theatre, em Los Angeles.

Ben Affleck (à frente) e a equipe de Argo recebem o Oscar de Melhor Filme. Foto: Kevin Winter/Getty Images/AFP
Argo também levou os prêmios de melhor montagem e melhor roteiro adaptado, enquanto que o filme de Ang Lee, As aventuras de Pi, conquistou o Oscar de melhor fotografia, efeitos visuais e trilha sonora. O filme de Ang Lee estava indicado em 11 categorias.

Sem Affleck no páreo pelo prêmio de direção, Ang Lee acabou tirando o Oscar de Steven Spielberg, que era o favorito junto com seu filme Lincoln, que contabilizava 12 indicações ao todo.

Lincoln acabou ficando apenas com o Oscar de direção de arte e melhor ator para Daniel Day-Lewis. A melhor atriz foi Jennifer Lawrence, por O lado bom da vida.

O outro filme que mais levou prêmios foi Os miseráveis, Oscar de maquiagem, mixagem de som e atriz coadjuvante para Anne Hattaway. O melhor ator coadjuvante foi Christopher Waltz, por Django Livre, que também levou Oscar de melhor roteiro original para Quentin Tarantino.

A cerimônia teve a apresentação, pela primeira vez, de Seth McFarlane, e participações especiais como a da primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, que anunciou o Oscar de melhor filme.

A seguir, os premiados com o Oscar 2013:

Melhor filme: Argo

Melhor ator: Daniel Day-Lewis por Lincoln

Melhor atriz: Jennifer Lawrence por O Lado Bom da Vida

Melhor ator coadjuvante: Christoph Waltz por Django Livre

Atriz coadjuvante: Anne Hathaway por Os Miseráveis

Melhor direção: Ang Lee por As Aventuras de Pi

Melhor roteiro original: Django Livre (Quentin Tarantino)

Melhor roteiro adaptado: Argo (Chris Terrio)

Melhor filme estrangeiro: Amor (Áustria)

Melhor filme de animação: Valente

Melhor fotografia: As Aventuras de Pi: Claudio Miranda

Melhor figurino: Anna Karenina: Jacqueline Durran

Melhor maquiagem: Os Miseráveis

Melhor trilha sonora original: As Aventuras de Pi: Mychael Danna

Melhor canção: 007 – Operação Skyfall, de Adele, Paul Epworth (“Skyfall”)

Melhor edição de som (empate):

007 – Operação Skyfall

A Hora Mais Escura

Melhor mixagem de som: Os Miseráveis

Melhor montagem: Argo

Melhores efeitos visuais: As Aventuras de Pi

Direção de arte: Lincoln

Melhor documentário: Searching for Sugar Man

Melhor documentário curta: Inocente

Melhor curta: Curfew

Melhor curta animado: Paperman

Uma mentira conveniente: por que “Argo” é uma fraude histórica

O filme de Ben Affleck inverte e distorce os fatos em sua tentativa frenética de apresentar um agente da CIA como heroi.

A cena em que os fugitivos são parados no aeroporto: isso nunca aconteceu

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Durante o stalinismo, a história foi reescrita com freqüência em conformidade com a ortodoxia soviética. O protagonismo de Leon Trotsky, um dos principais arquitetos da Revolução Russa de 1917, foi minimizado ou apagado – até mesmo fotos de Trotsky em pé ao lado de Lenin, Stalin e outros membros do comitê central foram desajeitadamente retocadas para remover vestígios de sua existência.

Com “Argo”, um exercício desenfreado de ufanismo americano e imperialismo cultural, Ben Affleck cometeu uma forma similar de fraude. Essa é a opinião de Ken Taylor, o ex-embaixador canadense no Irã que realmente arquitetou a fuga dos seis reféns que ele e o primeiro-secretário da embaixada John Sheardown haviam escondido em suas casas, em situação de risco pessoal considerável.

“Foram três meses de preparação intensiva para a fuga”, explica Taylor. “Eu acho que o meu papel foi um pouco mais importante do que abrir e fechar a porta da frente da embaixada.” (Essas são essencialmente as imagens que comprovam a existência de Taylor no esquema criacionista de Argo.)

Affleck fez um filme de propaganda, uma auto-felação que inverte e distorce os fatos em sua tentativa frenética de apresentar o agente da CIA Tony Mendez (interpretado por ele mesmo) como a pessoa que trabalhou nos bastidores para realizar a retirada. O roteiro se baseia em documentos confidenciais da CIA, abertos ao público nos anos 80, que revelaram como Mendez desenvolveu um disfarce para os seis americanos – o de uma equipe de cinema que queria fazer um filme de ficção científica no Irã.

Essa é a única parte do filme de Affleck que possui alguma verdade. Praticamente todo o resto é uma mentira para satisfazer um público americano faminto de heróis.

O embaixador do Canadá, Ken Taylor: “concierge de luxo” na visão de Affleck

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“Tony Mendez ficou um dia e meio no Irã”, diz Ken Taylor. Em vez de apresentar um relato honesto de uma missão de resgate histórico, que o embaixador canadense tinha em grande parte planejado e que a CIA apenas ajudou a executar, Affleck se entrega a uma pirotecnia mal disfarçada que corrompe a verdade, dando primazia ao envolvimento dos EUA.

Na sexta passada, a frustração de Taylor atingiu o limite. “Não haveria filme sem os canadenses. Abrigamos os seis sem que nos fosse solicitado”. Argo tem recebido vários prêmios nos últimos meses. Embora Affleck tenha sido supostamente “esnobado” por Hollywood ao não ser apontado na lista de melhor diretor no Oscar, seu longa recebeu várias indicações.

Além de “Argo” ter sido canonizado por ligas e premiações de diferentes setores nos meses passados, a questão mais ampla é como Affleck conseguiu enganar tanta gente em seu caminho para a glória da crítica, apesar das enormes distorções, invenções e fabricações que o filme comete para defender a CIA como um grupo de espiões inteligentes. Como a Grande Mentira tomou conta da imaginação limitada de Affleck?

“Argo” se situa no Irã, logo após a queda do Xá em 1979, quando a Guarda Revolucionária invadiu a embaixada americana. Seis funcionários conseguiram escapar e se esconderam por vários dias até que dois deles entraram na residência do casal Pat e Ken Taylor. Outros quatro foram para a casa de John Sheardown e de sua mulher Zena depois que o funcionário consular Robert Anders telefonou para o amigo Sheardown pedindo que ele o recebesse com seus três colegas fugitivos. “Por que você demorou tanto?”, foi a resposta do Sheardown.

(Nada disso aparece na versão de Affleck. Sheardown sequer é mencionado.)

Os fugitivos passaram três meses no limbo das duas residências até que Taylor finalmente convenceu um reticente departamento de estado americano de que as autoridades iranianas estavam começando a farejar as casas.

Em seu zelo para contar a história do agente Tony Mendez, Affleck reescreveu boa parte da história e enxugou radicalmente o papel do embaixador. Não foi só ele que deixou clara sua discordância. Em uma entrevista para o jornalista Piers Morgan na semana passada, o ex-presidente americano, Jimmy Carter, afirmou que “90% do plano foi dos canadenses”, mas o filme “dá crédito quase completo à CIA”.

Affleck defende sua selvageria autoral dizendo que uma TV canadense já havia feito um filme em 1981. De acordo com ele, “Argo” foi concebido para revelar o “papel secreto da CIA” – que basicamente se resume à criação de uma equipe de cinema a fim de enganar os funcionários da alfândega no aeroporto de Teerã. “Este filme mostra um maravilhoso espírito de colaboração e cooperação. É um grande cumprimento para o Canadá”, afirmou Affleck para mim.

(Taylor tinha originalmente planejado que eles se passassem por engenheiros, apenas para ter sua ideia rejeitado pela CIA, que de alguma forma bizarra pensou que o approach hollywoodiano fazia mais sentido.)

Os fugitivos são recebidos na Casa Branca em 79: a CIA foi coadjuvante

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Não havia absolutamente nenhuma necessidade de transformar o papel central do embaixador num “concierge” de luxo, que basicamente servia bebidas e canapés e seguia ordens. Taylor, que é interpretado pelo canadense Victor Garber, declarou que “‘Argo’ faz parecer que os canadenses estavam ali apenas a passeio”.

Affleck respondeu um tanto irritado: “Eu admiro Ken por seu papel no resgate. Estou surpreso que ele continue a ter problemas com o filme”. Em outubro, quando Argo estava sendo lançado na América do Norte, Affleck soube que Taylor estava começando a falar publicamente sobre sua decepção com seu trabalho. Ben Affleck organizou às pressas uma exibição e, depois de ouvir suas objeções, concordou em inserir um texto no início dos créditos: “O envolvimento da CIA complementou os esforços da embaixada canadense”.

A verdade é outra: Taylor planejou a fuga, enquanto a CIA e seus homens, Mendez à frente, simplesmente ajudaram a preparar o estratagema esquisito que serve como um contraponto cômico para o drama subjacente no Irã. Tony Mendez era uma espécie de assessor técnico. Mas, na narrativa falsificada de Affleck, todo o heroísmo é reservado para seu alter ego.

A história real por trás da fuga evoluiu de outra forma. Durante os quase três meses em que os seis fugitivos estiveram escondidos, o governo canadense em Ottawa preparou documentos oficiais – passaportes, carteiras de motorista, até mesmo alfinetes com a bandeira –, enviados a Teerã via mala diplomática.

O papel da CIA foi forjar os vistos de entrada – mas até isso eles conseguiram ferrar. Os selos falsos continham um erro catastrófico feito por um agente, que se equivocou na data de entrada. Um membro da embaixada canadense, Roger Lucey, apontou a burrada (ele podia ler farsi, em oposição ao apparatchik da CIA). Lucey passou várias horas debruçado sobre uma lupa, forjando os passaportes e torcendo para que seu trabalho penoso passasse despercebido pelas autoridades.

Outro ato flagrante de omissão de Argo é que a CIA contou com Taylor para fornecer informações sobre o caos da tomada de reféns em curso na embaixada dos EUA, onde 52 americanos ainda estavam sendo mantidos em cativeiro pela Guarda Revolucionária. Taylor pediu a um sargento canadense, Jim Edwards, que saísse e monitorasse, com seu time, a área ao redor da embaixada dos EUA durante várias semanas, para uma possível missão dos Estados Unidos.

Edwards foi detido e interrogado por cinco horas, até ser liberado por volta da uma da manhã. “Nós bebemos um monte de uísque juntos”, Taylor recordou. “Ele poderia facilmente ter sido preso como um espião.”

Mark Lijek, um dos dois americanos que passaram 79 dias na casa de Sheardown, confirma o relato. “Toda a embaixada canadense passou a se concentrar em nossa sobrevivência e eventual saída, o que é praticamente sem precedentes na história diplomática”, Lijek explicou. “É triste que Argo ignore tudo isso.”

O passeio no bazar: só na cabeça do cineasta

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Argo também inventa três cenas-chaves que nunca aconteceram. A primeira é quando Affleck-Mendez leva os fugitivos a um local e atravessa um bazar iraniano. “Isso teria sido suicida,” diz Lijek. A segunda instância da imaginação fantasiosa de Affleck é a sequencia do aeroporto, no final, em que a Guarda Revolucionária interroga o grupo – o que simplesmente nunca aconteceu.

Finalmente, “Argo” inventa o clímax em que um jipe militar cheio de soldados armados persegue o avião na pista. “É tudo ficção”, conta Taylor. “Foi bom ir ao aeroporto – exceto por nossos nervos”.

Affleck é um homem cujo coração está normalmente no lugar certo. Ele apoia causas liberais, defende a liberdade de expressão, é delicado nas entrevistas e frequentemente crítico da direita republicana. Mas ele ou é terrivelmente ingênuo ou estúpido quando se trata de sua leitura do registro histórico. Ele achou que seu bolo fofo de entretenimento lhe dava a “licença artística” para cortar, ajustar e mentir. Em uma entrevista ao Hollywood Reporter, afirmou que era um ex-estudante de assuntos do Oriente Médio da Universidade de Vermont e que escreveu um artigo sobre a revolução iraniana.

Mas, como um crítico frequente da política externa americana e da administração Bush, por que Affleck decidiu cantar os louvores da CIA, que projetou a queda de Mossadegh e a subsequente substituição pelo Xá?

Ele deveria checar os fatos. Podemos perdoar a adição de um jipe ​​carregado de metralhadoras perseguindo um jato comercial. Podemos perdoar a adição de um tour suicida em um bazar lotado. Podemos até perdoar “Argo” por fazer John Sheardown desaparecer. Mas não há como desculpar uma visão manipuladora e irremediavelmente distorcida da realidade para maquiar uma peça de propaganda.
HAROLD VON KURSK 25/02/2013-Diário do Centro do Mundo

Novo filme de Spielberg omite que Lincoln era admirador de Marx

Filme de Spielberg não conta que Lincoln também lutou por outra emancipação: que os escravos e os trabalhadores em geral fossem senhores não apenas de sua atividade em si, mas também do produto resultante de seu trabalho

Texto de Vincenço Navarro*
O filme “Lincoln”, produzido e dirigido por um dos diretores mais conhecidos dos EUA, Steven Spielberg, fez reviver um grande interesse pela figura de Lincoln, um dos presidentes que, como Franklin D. Roosevelt, sempre apareceu no ideário estadunidense com grande lembrança popular.
Destaca-se tal figura política como o fiador da unidade dos EUA, após derrotar os confederados que aspiravam à secessão dos Estados do Sul daquele Estado federal. É também uma figura que se destaca na história dos EUA por ter abolido a escravidão e ter dado a liberdade e a cidadania aos descendentes das populações imigrantes de origem africana, ou seja, a população negra, que nos EUA se conhece como a população afro-americana.

Será surpresa para um grande número de leitores saber que os escritos de Karl Marx influenciaram Abraham Lincoln (Foto: Reprodução Filme)
Lincoln foi também um dos fundadores do Partido Republicano, que em suas origens foi diretamente oposto ao Partido Republicano atual – este altamente influenciado hoje por um movimento – o Tea Party – chauvinista, racista e reacionário, por trás do qual existem interesses econômicos e financeiros que querem eliminar a influência do governo federal na vida econômica, social e política do país.

O Partido Republicano fundado pelo presidente Lincoln era, pelo contrário, um partido federalista, que considerou o governo federal como avalista dos Direitos Humanos. E entre eles, a emancipação dos escravos, tema central do filme “Lincoln” e para o qual o presidente deu maior expressão. Terminar com a escravidão significava que o escravo passava a ser trabalhador, dono de seu próprio trabalho.
Lincoln, inclusive antes de ser presidente, considerou outras conquistas sociais como parte também dos Direitos Humanos e, entre elas, o direito do mundo do trabalho de controlar não só a atividade em si, mas também o produto resultante dela. O direito de emancipação dos escravos transformava o escravo em uma pessoa livre assalariada, unida – segundo ele – em laços fraternais com os outros membros da classe trabalhadora, independentemente da cor da pele.
Suas demandas de que o escravo deixasse de sê-lo e de que o trabalhador – tanto branco como negro – fosse o dono não só de seu trabalho, mas também do produto de seu trabalho, eram igualmente revolucionárias.
A emancipação da escravidão requeria que a pessoa fosse dona do seu trabalho. A emancipação da classe trabalhadora significava que a classe trabalhadora fosse dona do produto do seu trabalho. E Lincoln demandou os dois tipos de emancipação. O segundo tipo de emancipação, entretanto, nem sequer é citado no filme Lincoln. Na realidade, é ignorado. E utilizo a expressão “ignorado” em lugar de “escondido” porque é totalmente possível que os autores do filme ou do livro sobre o qual se baseia nem sequer conheçam a história real de Lincoln.
A Guerra Fria no mundo cultural e inclusive acadêmico dos EUA (que continua existindo) e o enorme domínio do que ali se chama a Corporate Class (a classe dos proprietários e gestores do grande capital) sobre a vida, não só econômica, mas também cívica e cultural, explica que a história formal dos EUA que se ensina nas escolas e nas universidades seja muito distorcida, purificada de qualquer contaminação ideológica procedente do movimento operário, seja socialismo, comunismo ou anarquismo.
A grande maioria dos estudantes estadunidenses, inclusive das universidades mais prestigiadas e conhecidas, não sabe que a festa de 1º de Maio, celebrada mundialmente como o Dia Internacional do Trabalho, é uma festa em homenagem aos sindicalistas estadunidenses que morreram em defesa de trabalhar oito horas por dia (em lugar de doze), vitória que transformou tal reivindicação exitosa na maioria dos países do mundo. Nos EUA, tal dia, o 1º de Maio, além de não ser festivo, é o dia da Lei e da Ordem – Law and Order Day – (ver o livro People’s History of the U.S., de Howard Zinm). A história real dos EUA é muito diferente da história formal promovida pelas estruturas de poder estadunidenses.
As ignoradas e/ou escondidas simpatias de Lincoln

Lincoln, já quando era membro da Câmara Legislativa de seu Estado de Ilinóis, simpatizou claramente com as demandas socialistas do movimento operário, não só dos EUA, mas também mundial. Na realidade, Lincoln, tal como indiquei no começo do artigo, considerava como um Direito Humano o direito do mundo do trabalho de controlar o produto de seu trabalho, postura claramente revolucionária naquela época (e que continua sendo hoje) e que nem o filme nem a cultura dominante nos EUA lembram ou conhecem, que está convenientemente esquecida nos aparatos ideológicos do establishment estadunidense controlados pela Corporate Class. Na realidade, Lincoln considerou que a escravidão era o domínio máximo do capital sobre o mundo do trabalho e sua oposição às estruturas de poder dos Estados sulinos se devia precisamente a que percebia estas estruturas como sustentadoras de um regime econômico baseado na exploração absoluta do mundo do trabalho.
Daí que visse a abolição da escravidão como a liberação não só da população negra, mas de todo o mundo do trabalho, beneficiando também a classe trabalhadora branca, cujo racismo ele via que ia contra seus próprios interesses. Lincoln também indicou que “o mundo do trabalho antecede o capital. O capital é o fruto do trabalho, e não teria existido sem o mundo do trabalho, que o criou. O mundo do trabalho é superior ao mundo do capital e merece a maior consideração (…). Na situação atual o capital tem todo o poder e há que reverter este desequilíbrio”. Leitores dos escritos de Karl Marx, contemporâneo de Abrahan Lincoln, lembrarão que algumas destas frases eram muito semelhantes às utilizadas por tal analista do capitalismo em sua análise da relação capital/trabalho sob tal sistema econômico.
Será surpresa para um grande número de leitores saber que os escritos de Karl Marx influenciaram Abraham Lincoln, tal como documenta detalhadamente John Nichols em seu excelente artículo “Reading Karl Marx with Abraham Lincoln Utopian socialists, Germam communists and other republicans” publicado em Political Affairs (27/11/12), e do qual extraio as citações, assim como a maioria dos dados publicados neste artigo.
Os escritos de Karl Marx eram conhecidos entre os grupos de intelectuais que estavam profundamente insatisfeitos com a situação política e econômica dos EUA, como era o caso de Lincoln. Karl Marx escrevia regularmente no The New York Tribune, o rotativo intelectual mais influente nos Estados Unidos daquele período. Seu diretor, Horace Greeley, se considerava um socialista e um grande admirador de Karl Marx, quem convidou para ser colunista de tal jornal.
Nas colunas de seu jornal incluiu grande número de ativistas alemães que haviam fugido das perseguições ocorridas na Alemanha daquele tempo, uma Alemanha altamente agitada, com um nascente movimento operário que questionava a ordem econômica existente. Alguns destes imigrantes alemães (conhecidos no EUA daquele momento como os “Republicanos Vermelhos”) lutaram mais tarde com as tropas federais na Guerra Civil, dirigidos pelo presidente Lincoln.
Greeley e Lincoln eram amigos. Na realidade, Greeley e seu jornal apoiaram desde o princípio a carreira política de Lincoln, sendo Greeley quem lhe aconselhou a que se apresentasse à presidência do país. E toda a evidência aponta que Lincoln era um fervente leitor do The New York Tribune. Em sua campanha eleitoral para a presidência dos EUA convidou vários “republicanos vermelhos” a integrarem-se a sua equipe. Na realidade, já antes, como congressista, representante da cidadania de Springfield no Estado de Ilinóis, apoiou frequentemente os movimentos revolucionários que estavam acontecendo na Europa, e muito em especial na Hungria, assinando documentos em apoio a tais movimentos.
Lincoln, grande amigo do mundo do trabalho estadunidense e internacional

Seu conhecimento das tradições revolucionárias existentes naquele período não era casual, e sim fruto de suas simpatias com o movimento operário internacional e suas instituições. Incentivou os trabalhadores dos EUA a organizar e estabelecer sindicatos antes e durante sua presidência. Foi nomeado membro honorário de vários sindicatos. Em sua resposta aos sindicatos de Nova York afirmou “vocês entenderam melhor que ninguém que a luta para terminar com a escravidão é a luta para libertar o mundo do trabalho, para libertar todos os trabalhadores. A libertação dos escravos no Sul é parte da mesma luta pela libertação dos trabalhadores no Norte”. E, durante a campanha eleitoral, o presidente Lincoln promoveu a postura contra a escravidão afirmando explicitamente que a libertação dos escravos permitiria aos trabalhadores exigir os salários que lhes permitissem viver decentemente e com dignidade, ajudando com isso a aumentar os salários de todos os trabalhadores, tanto negros como brancos.
Marx, e também Engels, escreveram com entusiasmo sobre a campanha eleitoral de Lincoln, em um momento em que ambos estavam preparando a Primeira Internacional do Movimento Operário. Em um momento das sessões, Marx e Engels propuseram à Internacional que enviasse uma carta ao presidente Lincoln felicitando-o por sua atitude e postura. Na carta, a Primeira Internacional felicitava o povo dos EUA e seu presidente por, ao terminar com a escravidão, haver favorecido a liberação de toda a classe trabalhadora, não só estadunidense, mas também mundial.
O presidente Lincoln respondeu, agradecendo a nota e dizendo que valorizava o apoio dos trabalhadores do mundo a suas políticas, em um tom cordial, que certamente criou grande alarme entre os establishments econômicos, financeiros e políticos de ambos os lados do Atlântico. Estava claro, a nível internacional que, como afirmou mais tarde o dirigente socialista estadunidense Eugene Victor Debs, em sua própria campanha eleitoral, “Lincoln havia sido um revolucionário e que, por paradoxal que pudesse parecer, o Partido Republicando havia tido, em suas origens, uma tonalidade vermelha”.
A revolução democrática que Lincoln começou e que nunca se desenvolveu

Não é preciso dizer que nenhum destes dados aparece no filme Lincoln, nem são amplamente conhecidos nos EUA. Mas, como bem afirmam John Nichols e Robin Blackburn (outro autor que escreveu extensamente sobre Lincoln e Marx), para entender Lincoln tem que entender o período e o contexto nos quais ele viveu. Lincoln não era um marxista (termo sobreutilizado na literatura historiográfica e que o próprio Marx denunciou) e não era sua intenção eliminar o capitalismo, mas corrigir o enorme desequilíbrio existente nele, entre o capital e o trabalho. Mas, não há dúvida de que foi altamente influenciado por Marx e outros pensadores socialistas, com os quais compartilhou seus desejos imediatos, claramente simpatizando com eles, levando sua postura a altos níveis de radicalismo em seu compromisso democrático. É uma tergiversação histórica ignorar tais fatos, como faz o filme Lincoln.
Não resta dúvida que Lincoln foi uma personalidade complexa, com muitos altos e baixos. Mas as simpatias estão escritas e bem definidas em seus discursos. E mais, os intensos debates que aconteciam nas esquerdas europeias se reproduziam também nos círculos progressistas dos EUA. Na realidade, a maior influência sobre Lincoln foi a dos socialistas utópicos alemães, muitos dos quais se refugiaram em Ilinóis fugindo da repressão europeia.
O comunalismo que caracterizou tais socialistas influenciou a concepção democrática de Lincoln, interpretando democracia como a governança das instituições políticas por parte do povo, no qual as classes populares eram a maioria. Sua famosa Expressão (que se converteu no esplêndido slogan democrático mais conhecido no mundo – Democracy for the people, of the people and by the people – claramente afirma a impossibilidade de ter uma democracia do povo e para o povo sem que seja realizada e levada a cabo pelo próprio povo. Daí vem a libertação dos escravos e do mundo do trabalho como elementos essenciais de tal democratização. Seu conceito de igualdade levava inevitavelmente a um conflito com o domínio de tais instituições políticas pelo capital. E a realidade existente hoje nos EUA e que detalho em meu artigo “O que não se disse nos meios de comunicação sobre as eleições nos EUA” (Público, 13.11.12)é uma prova disso. Hoje a Corporate Class controla as instituições políticas do país.
Últimas observações e um pedido

Repito que nenhuma destas realidades aparece no filme. Spielberg não é, afinal, nenhum Pontecorvo e o clima intelectual estadunidense ainda está estancado na Guerra Fria que lhe empobrece intelectualmente. “Socialismo” continua sendo uma palavra mal vista nos círculos do establishment cultural daquele país. E, na terra de Lincoln, aquele projeto democrático que ele sonhou nunca se realizou devido a enorme influência do poder do capital sobre as instituições democráticas, influência que diminuiu enormemente a expressão democrática naquele país. E o paradoxo brutal da historia é que o Partido Republicano se tenha convertido no instrumento político mais agressivo hoje existente a serviço do capital.
Certamente, agradeceria que todas as pessoas que achem este artigo interessante o distribuam amplamente, incluindo, em sua distribuição os críticos de cinema, que em sua promoção do filme, seguramente não dirão nada do outro Lincoln desconhecido em seu próprio país (e em muitos outros). Um dos fundadores do movimento revolucionário democrático nem sequer é reconhecido como tal. Sua emancipação dos escravos é uma grande vitória que deve ser celebrada. Mas Lincoln foi muito além. E disto nem se fala.
*Vicenç Navarro (Barcelona, 1937) é cientista social. Foi professor catedrático da Universidade de Barcelona e hoje dá aulas nas universidades Pompeu Fabra e Johns Hopkins. Por sua luta contra o franquismo, viveu anos exilado na Suécia.
Este artigo foi publicado em http://blogs.publico.é/dominiopublico/6405/o-que-a-pelicula-Lincoln-não-dice-sobre-Lincoln/
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Argo:. é uma soma de estereótipos e clichês que tendem a difamar o Oriente e os orientais.

Ao olharmos para a atual conjuntura de incertezas, o filme ‘Argo’, de Ben Affleck, torna-se um importante componente na campanha de desinformação sobre as instabilidades no Oriente Médio. Trata-se de uma produção recheada de estereótipos que difamam o Oriente e os orientais (no caso, os iranianos), e reforçam o velho maniqueísmo hollywoodiano, baseado na “luta do bem contra o mal”.
Luciana Garcia de Oliveira*

A estreia do longa Argo nas salas de cinema não é por acaso. O filme dirigido pelo ator norte-americano Ben Affleck já pode ser considerado um forte concorrente a muitas premiações no Oscar 2013. Ao atentarmos à atual conjuntura de incertezas e ameaças, ‘Argo’ torna-se um importante componente na campanha de desinformação com relação às instabilidades no Oriente Médio e no mundo. Isso porque a produção, muito elogiada por diversos especialistas, é recheada de estereótipos e clichês tendentes a difamar o Oriente e os orientais (no caso, os iranianos), e a reforçar o velho maniqueísmo hollywoodiano, baseado na “luta do bem contra o mal”.

Muito oportunamente, há poucos dias, antes das eleições israelenses, assistimos a uma campanha movida pelo tema da “segurança” contra o Irã, e, nesse sentido, altamente favorável à expansão dos assentamentos judaicos nos territórios ocupados. Para isso, foi utilizado o seguinte slogan: “Eu não vou tirar uma família judia de seu lar”, então proferido por Naftali Bennet, candidato e idealizador de uma agremiação religiosa e ultranacionalista, o Lar Judaico. O mesmo assunto esteve, da mesma forma, presente em um dos últimos discursos do premier Benjamin Netanyahu, o qual chegou inclusive a comparar a ameaça nuclear do Irã com as atribuições da Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial.

O enredo de ‘Argo’ inicia-se no dia 4 de novembro de 1979, data da grande manifestação em frente à embaixada dos Estados Unidos em Teerã, motivada pela exigência do retorno do Xá para que fosse devidamente julgado por seus crimes. Nessa ocasião, muitos manifestantes invadiram a embaixada e sequestraram norte-americanos, que ficaram retidos por 444 dias. Para melhor entendermos os motivos da insurreição, é necessário compreender o contexto histórico sem omissões sobre a conjuntura do filme.

Precisamente entre os anos de 1925 e 1979, as relações entre o Irã e o Ocidente foram marcadas por subordinação, pouca autonomia e muita corrupção. A dinastia Pahlavi havia sido instaurada por intermédio de um golpe militar, liderado pelo general Reza Khan. A partir de então, a dinastia iniciou um processo político caracterizado por uma relação de intensa proximidade com o Ocidente e pela falta de democracia e agenda social, o que acarretou numa série de crises sistêmicas e tensões internas na sociedade iraniana.

O aumento dos conflitos internos desembocou na nomeação de Mohammad Mosadegh para o cargo de primeiro-ministro em 1951. Mosadegh detinha ideias nacionalistas, sobretudo com relação ao controle do petróleo. Por isso, atuou contra a exploração injusta do óleo e promoveu a nacionalização do insumo com a criação da Companhia Nacional Iraniana do Petróleo (NIOC). Atitude que irritou as potências anglo-saxãs, pois não aceitavam perder todos os benefícios anteriores. Para isso, foi instaurado imediatamente um embargo contra o país.

Ainda por temer a ascensão de um governo comunista, principalmente com o advento da guerrilha denominada de Fedayin-e-Khalk (de ideologia marxista e islâmica) em plena Guerra Fria, e a fim de manter o fornecimento contínuo de petróleo, Estados Unidos e Grã Bretanha derrubaram o governo Mossadegh através da operação conhecida como Operação Ajax. Foi por meio dessa operação que possibilitaram a restituição de todo o poder do Xá Mohammad Reza Pahlavi, o que gerou, a parti daí, um regime muito repressivo, simbolizado na conduta da polícia secreta Savak, em 1957. O governo norte-americano tolerava todos os abusos de direitos humanos desde que mantivesse o Irã como aliado regional. Nesse ínterim, as relações políticas e comerciais com as potências ocidentais cresceram. Até mesmo com Israel o governo iraniano se aproximou.

Houve levantes na cidade sagrada de Qom e muitas greves foram violentamente reprimidas, com um saldo de mais de mil mortos na cidade. Na capital Teerã, houve assassinatos em massa, episódio conhecido internacionalmente como a “Sexta-Feira Negra”. Todo o movimento em oposição ao regime havia sido liderado pelo Aiatolá Ruhollah Khomeini, que, em decorrência disso, foi preso e exilado em 1965 no Iraque, e, por um curto período, na França.

O projeto islâmico, por sua vez, era simbolizado pela autonomia política e o nacionalismo a partir da religião. Visava-se, portanto, um Estado que teria por base uma sociedade mais justa e, de acordo com o plano islâmico, o Irã não seria mais explorado externamente. A invasão da embaixada representou, no entanto, o rompimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e o Irã, e isso possibilitou que a sociedade iraniana se reorganizasse e eliminasse os vestígios do regime anterior e da ocidentalização do país.

Os Estados Unidos reagiram à revolução em 1979 com a promulgação da Doutrina Carter, medida a qual visava o uso de tropas americana para a garantia do acesso ao petróleo do Golfo Pérsico, além de pressões adicionais, como o ataque de Israel (com o apoio dos Estados Unidos) a um reator nuclear em 1981, e o estímulo de intensos conflitos no Líbano, Síria e na Palestina durante a primeira Intifada em 1987. As ações israelo-americanas contra o Irã chegaram ao ápice na derrubada de um airbus civil iraniano, divulgado nos meios de comunicação como sendo “por engano”.

O atual presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, é apontado pelos americanos como sendo um dos responsáveis pelo episódio do sequestro da embaixada, além de comprovadamente ter participado na linha de frente da revolução em 1979, o que imediatamente torna o filme ‘Argo’ excepcionalmente essencial para os dias de hoje.

De acordo com a obra ‘Orientalismo’, de Edward Said, foi após a guerra árabe-israelense em 1973 que o árabe e o oriental (iraniano) apareceu como algo mais ameaçador. Muitos estereótipos eram utilizados a fim de aterrorizar o mundo ocidental, ou o “mundo civilizado”, como é dito em uma das cenas do filme, e esses povos geralmente apareciam com narizes grandes “e um olhar malévolo sobre o bigode”.

Todos esses estereótipos surgiram em um era de crise, em 1973, portanto não é de modo algum coincidência que esses mesmo modelo continue a permear o imaginário durante a atual crise financeira que assola os Estados Unidos. É interessante manter a região do Oriente Médio, mais precisamente o Irã, sob um sentido desumanizado, o que de certo modo facilita a veiculação dos discursos ameaçadores, podendo chegar até a legitimar futuramente um possível ataque militar. Edward Said, nunca esteve tão atual.

*Luciana Garcia de Oliveira integra o Grupo de Trabalho sobre o Oriente Médio e o Mundo Muçulmano do Laboratório de Estudos sobre a Ásia da Universidade de São Paulo (LEA-USP).
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