Homeland: The Star [season finale]

Indo direto ao ponto: The Star, último episódio da terceira temporada, mostra do que Homeland  é capaz quando seus realizadores decidem ficar sóbrios e realmente fazer as coisas com vontade. Durante uma hora, a série aproveita o desdobrar político/militar do assassinato de Akbari para colocar suas personagens em conflito com os acontecimentos, tentando solucionar, aceitar, enfrentar e lidar com a situação. Ao mesmo tempo, investe em uma trama sólida, coerente, que foge de soluções fáceis, resultando em um episódio intenso que sequestra a atenção do espectador e só a devolve ao final.
A tensão se assenta já no início, quando acompanhamos Brody saindo do escritório de Akbari após mostrar para o ditador as formas letais de manusear uma almofada. Seguindo os passos escoltados do ex-fuzileiro quase tem tempo real, a cena atinge um suspense gigantesco ao adiar ao máximo possível o momento onde ele fica em segurança, usando também uma montagem paralela para mostrar que ele foi descoberto e gerando suspense em cima do suspense (OK, o lance de pararem ele para pedir o crachá foi bem óbvio, mas vamos deixar passar assim como ele passou). Enquanto isso, Javadi (personagem cada vez mais interessante) coloca a CIA em uma posição onde precisa escolher entre a vida de um agente ou o sucesso da missão – e, se Saul sequer hesita ao decidir pela primeira opção, Homeland coloca o dedo na ferida ao mostrar o resto da galera da agência fazendo a segunda opção acontecer com a conivência do presidente dos EUA, exibindo os valores falidos das instituições no que diz respeito à “guerra contra o terror”.
homeland the star
Além disso, essa decisão mostra o quão pouco Brody significa para todo mundo que não é a Carrie ou o Saul, mesmo que ele tenha levado a cabo uma missão que é o equivalente governamental a vencer o Super Bowl. E é assim, abandonado pela filha, pelo país, obrigado a matar o líder da única região que o recebeu de braços abertos (e ser odiado por essas pessoas), exaurido de qualquer coisa além da luta pela sobrevivência, que o ex-militar se encontra quando é resgatado por Carrie. Toda essa bagagem torna convincente o desabafo de Brody, questionando o que ele fez, o que estão fazendo e, como ele mesmo diz, sequer imagiando um futuro para si (não à toa, ao se olhar no espelho, metade do seu rosto está nas sombras). É um arco dramático extremamente complexo que Homeland tira de letra, beneficado pela atuação sensível de Damian Lewis, que ilustra o cansaço do sujeito em uma postura mais curvada e um tom bastante passivo nos diálogos.
É aí que Homeland  toma a decisão mais corajosa de toda a série até hoje, concluindo esse arco da única forma possível: a morte e “libertação” de Brody. E abraça essa libertação, mostrando a personagem em planos abertos mesmo quando na prisão e usando a direção de fotografia para contrastar sua situação com a dos outros – enquanto Brody, finalmente livre da luta, é fotografado com uma profundidade de campo comprida, Carrie, Saul e Javadi, ainda presos aos acontecimentos, surgem com uma profundidade de campo curtíssima sempre que aparecem em primeiro plano (uma abordagem que, ao desfocar o resto do ambiente, evidencia que para eles só importam os elementos relativos ao destino de Brody). Uma forma brilhante e sutil de mostrar para o espectador a paz e resignação alcançadas, tornando a cena da sua morte (e os momentos que a precedem) comovente a ponto de extrair lágrimas até do lutador de MMA mais durão.
É emblemático também que Saul se desligue da CIA após esse desfecho, visto seu envolvimento na coisa toda e também a “traição” por parte do país, que passou por cima da decisão dele para seguir por um caminho bastante questionável. Mas o grande peso cai em cima de Carrie, que mesmo com a gravidez, a promoção e o fato de que agora todos acreditam nela (precisou ela estar sempre certa por três temporadas, mas tudo bem) demonstra uma tristeza pela perda – algo que a série mostra sem exageros ou grandes rompantes dramáticos, preferindo investir em uma cena íntima na casa da protagonista onde ela se permite chorar (em uma atuação surpreendetemente contida de Claire Danes). Assim, após envolver o espectador nos conflitos e dificuldades encaradas pelas personagens durante um evento tão marcante, fortalecer a relação e os sentimentos deles, o episódio opta por um desfecho bastante minimalista, mas que, graças à força da narrativa e tudo que foi construído até ali, se mostra singelo e tocante. Se Carrie se despediu de Brody com uma estrela, Homeland se despede da terceira temporada com cinco.
Por André Costa

Por que vale a pena ver Homeland

A série tem seus defeitos, mas muitos méritos. O maior deles é abordar a questão da “culpa” dos EUA pelos problemas do Oriente Médio

Em 2012, em sua primeira temporada, Homeland venceu o Emmy de melhor série dramática, impedindo o pentacampeonato de Mad Men. Neste ano, após uma segunda temporada instável, foi superada por Breaking Bad. A derrota não deve desmerecer o trabalho dos produtores e do elenco. Apesar de alguns erros importantes, Homeland é, além de entretenimento de alta qualidade, capaz de fazer a massa refletir sobre uma questão hoje tratada apenas em círculos especializados: As ações dos Estados Unidos contribuem para o terrorismo?

Homeland, cuja terceira temporada estreou no domingo 29 nos EUA, é centrada em uma história inusitada. Depois de oito anos sequestrado por integrantes da Al-Qaeda no Iraque, o sargento Nicholas Brody (Damien Lewis) é resgatado. A reaparição do fuzileiro naval coloca em alerta a agente da CIA Carrie Mathison (Claire Danes), que investiga a suspeita de que um militar norte-americano teria sido cooptado pela rede terrorista e voltaria aos EUA para atacar o próprio país. O enredo se desenrola (e às vezes se enrola) baseado na intensa relação entre Carrie e Brody e no árduo trabalho da agência de inteligência para desbaratar um plano terrorista.

Há, como já mostraram revistas especializadas como aForeign Affairs e a Foreign Policy, uma série de problemas no quesito verossimilhança de Homeland. Eles vão desde a forma como a CIA age até a representação dos terroristas. O mais grave parece ser a improvável aliança entre a Al-Qaeda, rede terrorista global cuja matriz de pensamento é sunita, e o grupo xiita libanês Hezbollah, que se forma num determinado momento da segunda temporada. Tudo bem que a série trata de um desdobramento que poderia colocar o Oriente Médio de cabeça para baixo – um ataque de Israel ao Irã – mas ainda assim é difícil imaginar tal união, especialmente porque, enquanto você lê este texto, militantes da Al-Qaeda e do Hezbollah estão matando uns aos outros na Síria.

Apesar dos erros, Homeland tem um trunfo. Como já notaram diversos críticos, a série é extremamente corajosa e busca debater pontos nevrálgicos do pós-11 de Setembro, como a tensão entre moralismo e pragmatismo na política externa norte-americana, o preconceito contra muçulmanos, o papel da imprensa e as contradições da política. Mais que isso,Homeland dá ferramentas para o cidadão comum, seja nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar, refletir sobre o impacto das ações de Washington no mundo árabe-muçulmano.

 

Em Homeland, convive-se com a possibilidade de o terrorista não ser “o outro”, mas “um de nós”, afetado pelos mesmos problemas que o “nosso governo” impõe ao “outro”. No caso (e aqui pede-se vênia pelo possível spoiler) se trata do assassinato de uma pessoa querida, que provoca um sentimento de vingança em quem fica. De fato, é um reducionismo atribuir a transformação de uma pessoa em um terrorista com base num único fato, mas o objetivo da série aqui não é desenvolver um tratado sobre o tema. É mostrar que as ações dos Estados Unidos têm, sim, um grau de influência importante na criação de terroristas.

Como afirmou Lawrence Wright, autor de O Vulto das Torres, livro sobre o 11 de Setembro, a força da Al-Qaeda deriva de um ambiente cheio de repressão política, pobreza, desemprego, analfabetismo, sexismo e sentimento de insignificância cultural, que são potencializados pelas ações dos Estados Unidos naquela região. Não se trata aqui de demonizar o governo dos norte-americanos. Como bem afirmou Barack Obama em discurso da ONU, um Oriente Médio com menos presença dos Estados Unidos é um Oriente Médio pior e não melhor. Se não houvesse os EUA, outra potência, possivelmente a Rússia ou a China, assumiria seu lugar na região e os resultados seriam ainda mais desastrosos. O que é preciso é que a presença dos Estados Unidos no Oriente Médio seja mais bem qualificada.

O primeiro passo para tanto foi dado em 2005, quando a Casa Branca, ainda sob George W. Bush, reconheceu o desastre provocado por sua política no Oriente Médio. “Por 60 anos, os Estados Unidos buscaram estabilidade à custa da democracia no Oriente Médio – e não conseguimos nenhuma das duas”, afirmou a então secretária de Estado Condoleezza Rice, num histórico discurso no Cairo. A partir dali, disse ela, os EUA passariam a apoiar a democratização da região. O ímpeto acabou rápido, com um resultado expressivo da Irmandade Muçulmana nas legislativas do Egito (ainda sob a ditadura Hosni Mubarak), em 2005, e a vitória do Hamas nas eleições dos Territórios Palestinos Ocupados, em 2006. Ficou claro, ali, que a democratização do Oriente Médio seria um processo dificílimo, que envolveria conciliar os valores democráticos com as visões fundamentalistas presentes na região.

Essa bomba estourou nas mãos de Barack Obama.  Após uma tentativa de retomar o compromisso de apoio à democracia assumido e depois deixado de lado por W. Bush, Obama se viu em meio à chamada Primavera Árabe. Os meses passaram e a hipocrisia da política externa norte-americana, provocada pela tensão entre interesses e ideais, foi exposta de uma maneira brutal. No Egito, Obama apoiou a queda de Mubarak e se calou diante do golpe que derrubou Mohamed Morsi. Na Líbia, participou de intervenção armada. No Bahrein, fechou os olhos para a repressão. Na Síria, não consegue influenciar um conflito que já matou mais de 100 mil pessoas. Não é à toa que os EUA têm uma imagem tão fortemente negativa no Oriente Médio (que chega a 81% da população no Egito e 85% na Jordânia). As populações locais sabem que as ações de Washington ajudam a manter vivo o ambiente onde prolifera o terrorismo, aquele de repressão política, pobreza, desemprego, etc. É importante que a população norte-americana também tenha este tipo de entendimento e perceba que as ações de seu governo contribuem para fomentar uma ameaça que, em última instância, se volta contra ela própria. É neste ponto que Homeland extrapola a tevê e exerce um papel político-social nos Estados Unidos.

 

Destaques da semana: Sherlock manda recado ao governo britânico, Michael Scofield foge do armário e mais…

 

Benedict Cumberbatch, mais conhecido como Sherlock, aproveitou a presença da imprensa e de curiosos no set de sua série do canal BBC para mandar um recado ao governo britânico. Com frases escritas em folhas de papel, o ator exercitou seu lado político e criticou a detenção do parceiro do jornalista Glenn Greenwald em Londres, caso que ganhou repercussão internacional no começo da semana.

A recado que Benedict passou foi o seguinte (em tradução livre):

“Perguntas que temos o direito de perguntar numa democracia – Cameron, Theresa May, GCHQ, professores, pais, uns aos outros… Discos rígidos quebrados, jornalistas detidos em aeroportos… Democracia? Restrição prévia com base na Lei de Combate ao Terrorismo — é esta a erosão das liberdades civis ganhando a guerra contra o terror? O que eles não querem que você saiba? E como eles sabem? A exposição de suas técnicas causam uma ameaça à nossa segurança ou apenas causa-lhes constrangimento?”

Boa, Sherlock!

Acesse o Artigo Original: http://caldeiraodeseries.blogspot.com/2013/08/sherlock-manda-recado-scofield-sai-do-armario-noticias.html#ixzz2cxocHStu

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