A tirania do mau gosto nos blockbusters do cinema by Harold Von Kursk

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Jean-Luc Godard, o apóstolo profano da Nouvelle Vague, disse certa vez que, que em algum momento, “Hollywood vai fazer apenas um filme e todo mundo vai ver.” Essa declaração, de 1968, foi uma leitura profética do destino manifesto da indústria cinematográfica internacional, que atingiu a apoteose com a abominação Avatar, de James Cameron, e se espalhou como um vírus através de telas do mundo.

Com uma trama que deveria envergonhar até mesmo um roteirista aspirante, Avatar foi um divisor de águas na história do cinema, uma vez que criou um clima incomparável de cobiça dentro das torres de marfim dos grandes estúdios. Agora, a notícia é que Homem de Ferro 3 já faturou cerca de 700 milhões de dólares de bilheteria em todo o mundo em sua primeira semana de lançamento. O filme possui todos os clichês para alcançar um triunfo extraordinário do nada.

Nada nele é real. Não há nenhum ponto, nenhum significado, nenhuma substância, nada que se aproxime de uma verdadeira aparência da personalidade humana. É como se a aplicação do conceito de “suspensão da descrença” – a velha ideia de que o público está disposto a suspender as percepções comuns da lógica e da compreensão para permitir que a imaginação aceite narrativas, personagens e enredos artificiais – tivesse alcançado o orgasmo total.

Num excelente filme de Wim Wenders, de 1976, No Decurso do Tempo, um dos personagens principais afirma: “Os ianques colonizaram nosso subconsciente.” O que aconteceu com Hollywood?

Nos anos 60 e 70, o cinema americano ainda estava vivo e bem em termos de sua capacidade de produzir um quinhão de filmes notáveis ​​que os estúdios não estavam dispostos a bancar.

No início dos 70, por exemplo, os estúdios faziam coisas aclamadas pela crítica, como Cada Um Vive Como Quer, Operação França, Os Implacáveis, O Poderoso Chefão, Chinatown, O Estranho no Ninho, O Longo Adeus et al. Diretores como Arthur Penn, Robert Altman, Roman Polanski, Bob Rafelson, Sam Peckinpah e William Friedkin eram os “touros indomáveis” (como Peter Biskin os definiu em seu livro Easy Riders, Raging Bulls) de uma brilhante nova geração de cineastas.

Ao longo do caminho, diretores altamente iconoclastas e inventivos como David Lynch e John Dahl tentaram abrir caminho em favor de um cinema mais corajoso, antes de desaparecer no esquecimento. A paisagem, uma vez sublime, do cinema americano deu lugar à estupidificação generalizada que tem deixado autores de lado, na busca desesperada de financiamento e distribuição. Os estúdios se prostraram diante de um algoritmo de marketing infernal, que deriva do impulso de fazer filmes para adolescentes em busca da promessa de sexo pós-pipoca.

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“Crepúsculo”
É por isso que Robert Redford, ex-golden boy de Hollywood, decidiu tornar-se um produtor independente e fundou o Instituto Sundance como um meio de criar um fórum permanente para o cinema independente. Enquanto ainda era escravo das tarifas dos estúdios, Redford usou seu nome e suas finanças pessoais para financiar uma grande variedade de filmes – O Candidato, Jeremiah Johnson e Todos os Homens do Presidente, a crônica de Watergate. Seu último filme, The Company You Keep, sobre o movimento subversivo Weather Underground, mostra que ele ainda tem o compromisso de combater o sistema em algum nível.

Significativamente, os grandes estúdios de Hollywood nunca contribuíram com um centavo para o Sundance. Sexo, Mentiras e Videotape, de Steven Soderbergh, foi gerado lá, como muitas outras pedras preciosas independentes, como O Balconista e Cães de Aluguel.

Mas esses diretores enfraqueceram quando assumiram seu compromisso com a popularidade. Tarantino tem se fetichizado em uma orgia repetitiva de violência e excesso como em Django. Soderbergh aparentemente decidiu se aposentar. Apenas os irmãos Coen continuam firmes. Onde Os Fracos Não Têm Vez ganhou o Oscar de melhor filme e o mais recente Inside Llewyn Davis, co-estrelado por Justin Timberlake e Carey Mulligan, foi selecionado para o Festival de Cannes deste mês.

Infelizmente, com o declínio e desaparecimento dos Altmans, Rafelsons, Ashbys, Peckinpahs, Friedkins, Lynchs e Dahls, o cinema independente americano foi englobado e subvertido por Hollywood. Hoje, a inteligência das pessoas foi corrompida por uma fonte incessante de blockbusters de destruição em massa, com sua demanda cada vez maior de efeitos especiais e personagens de desenho animado. Mesmo após o renascimento fracassado de Super Homem, de 2007, um novo filme está para estrear, com a esperança de reviver a marca.

Durante a última década, temos visto uma explosão de longas inspirados em desenho animado que beira o absurdo – Demolidor, Mulher-Gato, Elektra, X-Men, e, claro, o criminoso degenerado Lanterna Verde, para não mencionar Hulk (pode haver algo mais absurdo do que Ang Lee dirigindo um filme sobre um mutante radioativo com o cabelo ruim?)

A série Crepúsculo transformou os protagonistas Robert Pattinson e Kristen Stewart em ícones, deliciando os tablóides com fofocas. Os filmes são tão mal dirigidos quanto novelas da Globo (sim, eu tentei assistir no Canadá). O filósofo Walter Benjamin expressou sua decepção com a degradação estética da Europa, referindo-se a ela como a “tirania do mau gosto.” Ele fez essa declaração em 1932. Penso no que teria dito ao testemunhar o suicídio cultural atual.

Eu fico ouvindo a melodia melancólica de Pete Seeger em Where Have All the Flowers Gone enquanto vejo a lista de blockbusters, pensando em como ficou fácil saturar as plateias com lixo. De alguma maneira, é preciso fugir disso. Talvez com Sidney Bechet ou John Coltrane como um antídoto para a dor. Ou com uma assinatura da HBO para ver Mad Men e driblar o tédio, como disse uma vez John Malkovich para Clint Eastwood.

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Harold Von Kursk-Diário do Centro do Mundo-DCM

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