É possível quebrarmos o monopólio norte-americano do cinema? por Leo Curcino

 

Gosto de contar histórias desde que me entendo por gente. Lembro que criei meu primeiro personagem com uns 7 anos de idade, obviamente, bem infantil, com aquela ingenuidade de criança. Desenhei quadrinhos boa parte da minha infância e adolescência. Eu fazia meus gibis manualmente, grampeava, plastificava capa e contracapa, desenhava e coloria à mão.

Revirei coisas antigas um dia desses quando fui à casa dos meus pais e até tirei foto de uma dessas revistinhas – talvez a única que tenha sobrado. Eu tinha uns 12 ou 13 anos de idade e lembro que era um “projeto”, se é que posso assim chamar, em dupla com o Pedro, meu amigo e colega de escola na época, que hoje, coincidência ou não, é meu sócio.

Roteiro & ilustrações: Leo Curcino | Cores: Pedro Xudré

Um tempo depois, empolguei com cinema. Queria muito estudar cinema, mas acabei fazendo Publicidade e Propaganda por falta de coragem mesmo. Confesso que tive medo de morrer de fome. Imagina! Cinema? No Brasil? Não, não, melhor não.

Só alguns anos depois de formado e com a situação profissional razoavelmente estável é que finalmente consegui fazer cinema. Talvez eu tivesse mesmo que ter feito isso antes, talvez não. Pelo menos agora eu estava fazendo.

 

E a sensação era a de que havia perdido muito tempo: havia muitos filmes para serem vistos, autores e diretores clássicos que eu nem conhecia, mestres dos quais sabia muito pouco ou quase nada. Fiquei um bom tempo (e ainda estou correndo atrás do prejuízo) vendo filmes e lendo livros de cinema desesperadamente. Terminei o curso, fiz meu primeiro curta.

Assim, depois de ler muito, conversar com gente do mercado e analisar o cenário atual, principalmente no Brasil, que várias questões vieram à tona.

Uma coisa leva à outra

Imagine que, ao chegar à praça de alimentação de um shopping, você percebe que metade dos restaurantes são da mesma cadeia de fast food. Isso seria praticamente uma forma de obrigar os clientes a consumirem aquela marca: comam hambúrgueres. Podemos até gostar de hambúrgueres, mas se há outras opções, é bem provável que a gente queira comer outras coisas de vez em quando.

O ato de assistir a produções estadunidenses é cultural, está consolidado na nossa rotina. E, para os Estados Unidos, esse é um produto extremamente valioso e faz parte, inclusive, da política internacional do país. É inegável a importância do audiovisual para o fortalecimento de uma nação.

Filmes, novelas e seriados de TV têm o poder de influenciar pessoas, lançar tendências, ditar comportamentos, criar moda, representar uma região, fortalecer o turismo, aumentar a autoestima de um determinado lugar e por aí vai. Nova Iorque já foi cenário de tantos filmes que assistimos, tantos seriados que gostamos de acompanhar, que é praticamente impossível não ficarmos, no mínimo, curiosos em conhecer a cidade. A admiração é quase inevitável. Muita gente já foi aos Estados Unidos dezenas de vezes, sem sequer ter passaporte.

Muitos pessimistas preferem dizer que o brasileiro não gosta de produções nacionais e ponto. Os brasileiros querem, sim, ver sua língua sendo falada nas telas e sua cultura sendo retratada. Bobagem pensar o contrário. O espectador médio até já se acostumou a ver filmes nacionais, mas boa parte do grande público ainda vê a produção brasileira como algo de baixa qualidade, de “imagem feia”. Talvez, vestígios das antigas pornochanchadas e do cinema boca do lixo.

Para atrair o grande público, precisamos diversificar nossas produções, até porque a percepção geral ainda é de que nossas temáticas giram muito entre miséria/história de bandido.

Ao contrário dos produtores, que captam recursos por meio de incentivo fiscal, os exibidores não possuem apoio do governo. E como são instituições com fins lucrativos, obviamente, preferem exibir produtos com grande potencial comercial. Por conta disso, é praticamente impossível, no atual modelo, concorrer com o produto estrangeiro, principalmente o estadunidense.

É uma discussão antiga. Já ensaiaram alternativas para mudar isso, mas nada muito relevante. O fato é que, de 2001 pra cá, a participação do mercado de produções nacionais só foi maior que 20% em 2003. Em 2012, não chegamos nem a 15%.

E qual seria a melhor alternativa para mudar essa realidade? Criar incentivos para exibidores? Criar uma lei de cota também nas salas de cinema como fizeram com a TV fechada? Me parece estranha essa questão. Não deveria ser o contrário? Em vez de brigarmos por uma participação mínima, não são os estrangeiros que deveriam brigar por uma fatia nossa?

Vamos fazer um filme?

Acredito que quanto melhor a qualidade do conteúdo audiovisual nacional (seja ele filme de ficção ou documentário, série, novela etc), mais os brasileiros vão querer ver conteúdo nacional. Quanto mais o brasileiro quiser ver conteúdo nacional, mais eles se tornarão comercialmente atrativos e, como consequência disso, estarão presentes em salas de cinema, na programação da nossa TV por assinatura e na internet, atraindo, assim, maior atenção das marcas.

Com o atual modelo de fomento, baseado em leis de incentivo fiscal e editais, os autores ficam extremamente dependentes do Estado para filmar no Brasil. Os processos não favorecem aqueles que estão começando e são complexos até para autores/produtores experientes.

Em suma, quem escolhe quais projetos serão produzidos no Brasil são os departamentos de marketing de grandes empresas.

O único jeito que conheço de evoluir é com a prática. Quanto mais filmes a gente fizer, melhor vamos ficar. Quanto mais gente tiver se dedicando ao audiovisual, mais chances teremos de revelar talentos, produzir coisas legais. Quanto mais coisas legais fizermos, mais jovens vão querer ser cineastas e vão se dedicar ao estudo do cinema. Quanto mais gente interessada em estudar, mais escolas e cursos serão criados.

Seria uma revolução real no cenário, não é verdade? É nisso que eu acredito.

E é sob esse contexto que criamos o Cineasta.cc. O site utiliza o crowdfuding e a colaboração coletiva para ajudar criadores a captar recursos para filmarem seus projetos no Brasil. Trata-se de uma tentativa de democratizar o mercado e permitir que mais pessoas consigam desenvolver e produzir suas ideias.

Tem um roteiro e precisa de ajuda para tirá-lo do papel? Gostou de um projeto e quer participar ou quer apoiar? Quer ver sua marca nas telas? Assista ao vídeo explicativo e entenda como funciona. Acredito que ele resume bem a proposta. E acho importante mencionar aqui (e aproveitar para agradecer novamente) o pessoal do Clint Studio de Floripa, que criou o vídeo.


 

Enfim, o fato é que um mercado autossustentável, com apoio de pessoas e da iniciativa privada, certamente contribuiria para o desenvolvimento do audiovisual brasileiro e do próprio país.

Quem quiser mandar dúvidas, comentários, sugestões ou entrar em contato conosco, o e-mail é contato@cineasta.cc.

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Diretores cobram políticas contra monopólio do cinema americano

Durante o Festival Internacional de Cinema de Santiago, os cineastas cobraram decisão política dos governos contra monopólio das distribuidoras para possibilitar o acesso do público às produções de filmes nacionais

Durante o segundo Festival Internacional de Cinema de Santiago, realizado entre os dias 9 e 14 de agosto, cineastas denunciaram a falta de espaço na divulgação e distribuição do cinema latino-americano, sufocado pelo monopólio da indústria cinematográfica dos Estados Unidos.

Os cineastas Eliseo Subiela, da Argentina, Silvio Caiozzi, do Chile, e José Joffily, do Brasil, participaram do Festival que exibiu mais de 90 filmes de vários países, entre documentários, longas de ficção e curta-metragens. No evento os cineastas denunciaram que há um problema de decisão política dos governos para possibilitar o acesso do público às produções de filmes da América-Latina. “Temos um inimigo que é o cinema norte-americano”, ressaltou o argentino Subiela, afirmando que “é preciso criar políticas de defesa cultural para o setor”.

Para se ter uma idéia, 85% dos cinemas são ocupados apenas por cinco distribuidoras norte-americanas – Columbia, Fox, Universal Pictures e Warner – restando apenas 15% para a produção de todos os outros países.

Recordando o histórico do cinema chileno, Caiozzi afirma que no Chile, mesmo havendo aumento na produção de filmes, “não haverá resultado estável na história se não ocorrer um desenvolvimento na divulgação e distribuição”.

A produção norte-americana que invade as telas dos cinemas na América Latina e também em diversos outros países, não só sufoca as produções nacionais, como são feitas para submeter o pensamento das pessoas à sua cultura, ou seja, em sua maioria à cultura do individualismo, dos rambos, da “polícia do mundo”. São feitas para impedir que os países contem a sua história ao mundo, para impedir que os povos tenham identificação com seus Heróis, com seus antepassados e com sua realidade.

É o que vem denunciando também o cineasta argentino Fernando Solanas e o italiano Citto Maselli. Solanas afirmou em entrevista durante o Fórum Social Mundial, em Caracas, no ano passado, que “a memória é a principal arma de defesa dos povos, ainda mais com o grande aparato de desinformação que existe hoje e que tenta destruir a memória dos povos. Mas a resistência, a participação popular são fundamentais. E é imprescindível mostrar o que realmente aconteceu, que nunca é incorporado à história dos vencedores”.

COTAS DE EXIBIÇÃO

Conhecido como Fernando “Pino” Solanas, há alguns anos o cineasta vem se dedicando à investigação e à denúncia da recente crise na Argentina, trabalho que gerou uma série de quatro documentários, entre eles “Memórias do Saqueio”. Iniciou sua carreira com o filme “La Hora de los Hornos”, (1968), um clássico sobre a ditadura na Argentina, e em 2004 foi homenageado com o Urso de Ouro especial no Festival Internacional de Cinema de Berlim pelo conjunto de sua obra.

Solanas também coloca em questão o papel que a televisão tem no sentido de possibilitar o acesso aos filmes latino-americanos. “O cinema nacional deve ser exibido nas TVs. É preciso discutir e impor leis que regulamentem o espaço audiovisual. As emissoras têm de lembrar que esse espaço é uma concessão e pertence ao povo, e não à Globo, Televisa ou à família Cisneros”, afirma Solanas. Para ele, a criação de cotas de exibição para filmes nacionais e latinos, “ajudaria a resgatar a dignidade desses povos expropriados”.

JÚLIA CRUZ

Cannes_Os últimos como primeiros

Saul Fia, ou o filho de Saul, foi o segundo filme exibido na competição e de pronto ganhou o boca a boca no festival. Se não unânime, o concorrente húngaro saiu disparado na preferência de boa parte da imprensa especializada. As sessões lotaram e somente hoje, com a reprise de todos os competidores a Palma de Ouro, foi possível recuperar o drama impactante do estreante László Nemes. Não é raro encontrar certa aversão  atual dos espectadores ao tema do holocausto, compreensível em termos, tamanha a constância de sua evocação pelo cinema. Mas há algo tão pulsante e incômodo em Saul Fia, no partido estético opressivo e na abordagem, que se pode dizer tratar-se de uma exceção obrigatória.

A Fipresci, a federação internacional dos críticos de cinema, já reconheceu a contundência da produção e ontem concedeu a ela seu prêmio. Costuma ser um indicador precioso para a decisão do júri oficial, resultado que saberemos logo mais, a partir de 19h no horário local, cinco horas a mais do que no Brasil. Além do mérito próprio, Saul Fia pode se beneficiar de um status em geral mediano de seus concorrentes, muitos realizadores estabelecidos que em maior ou menor grau desapontaram. Curioso, contudo, que os três últimos títulos exibidos ressoam uma temática que lhe são comuns. Se há a óbvia relação com a morte num filme sobre o genocídio dos judeus, nem tanto se poderia esperar em Valley of Love e Chronic um olhar do trauma de quem desaparece e deixa marcas, sendo sobretudo este ente querido um filho.

A princípio o título húngaro parece desvendar de cara a situação filial. De certo modo, apenas. Saul (o ótimo Géza Röhrig, em interpretação contida) é o prisioneiro húngaro de um campo de concentração. Integra o chamado “sonderkommando”, as unidades formadas por judeus obrigados pelos nazistas a lidar com o preparo e o descarte dos corpos das vítimas exterminadas nas câmeras de gás. É o horror maior entre os horrores, como qualificou Claude Lanzmann a partir das entrevistas em Shoah, o extenso documentário sobre a matança aos judeus. Com uma grande marca em “X” nas costas, estes homens colaboram para matar portanto sua própria gente, enquanto esperam a determinação para sua morte.

Entre um grupo recém-chegado, Saul se dá conta de um menino que agoniza e em seguida assiste sua morte final por injeção. Decide enterrá-lo na tradição judaica e para tanto precisa de um rabino. O obstáculo não são apenas os alemães, mas os próprios colegas, imanados em torno de um plano de revolta. Na tela em formato quadrado, o cenário escuro dos subterrâneos onde se dá a dizimação se torna ainda mais angustiante e claustrofóbico, com a câmera todo o tempo no rosto imutável do protagonista, buscando sobreviver para conseguir seu intento. Instala-se outra dúvida, talvez a maior em termos de narrativa, mas insignificante sobre a paternidade ou não. O filme atenta, afinal, há algo bem mais complexo sobre a que ponto pode ser rebaixada a dignidade humana.

Se a ética e outros valores parecem desaparecer por completo numa situação de limite como o holocausto, Chronic coloca em questão os mesmos preceitos na atualidade e em condição bem mais próxima e cotidiana. Tim Roth é o cuidador de doentes terminais que concilia uma tragédia do passado recente com a tentativa de superá-la pelos casos em tratamento. A perda do filho lhe deixa dedicado ao trabalho, e mais, ele assume as histórias dos pacientes como parte integrante da sua vida. Surgem percalços, como a acusação de uma família de assédio sexual. Quando ajuda uma doente de câncer a viabilizar uma atitude drástica, as realidades por fim se unem. Como em Depois de Lúcia, vencedor da seção Un Certain Regard há dois anos, o diretor mexicano  Michel Franco constrói de modo sofisticado e discreto sua crônica de uma morte anunciada, primeiro nos lugares fechados e fotografia clean que a tudo esmorece, como aquelas vidas que se esvaem, e em seguida no espaço exterior onde se dá o desfecho perturbador. O que não significa necessariamente inesperado, mas isso tem a ver com o desdobramento da competição, pois em registro bem menos original e algo constrangedor Gus Van Sant faz o mesmo em Sea of Trees. O epílogo de Chroniccontraria muitas opiniões por aqui. Isto não invalida a qualidade de um dos filmes mais bem delineados de uma competição morna.

É o que tenta também Guillaume Nicloux em Valley of Love, outro dos realizadores incensados em produção menor e agora mais ambicioso ao filmar nos Estados Unidos com Isabelle Huppert e Gerard Depardieu. As estrelas do cinema francês talvez sejam o melhor a acompanhar no drama do casal separado que viaja ao Vale da Morte americano impelido por um pedido em carta deixada pelo filho suicida. Ele promete surgir a eles, o que a espiritualizada personagem de Huppert acredita mais do que o ex-marido. Há a mesma construção em toada de suspense e pequenas alterações, mas tanto o percurso do roteiro quanto seu fecho não são a confirmação de um conflito familiar que poderia ser bem mais potente.  

__Blog do Orlando Margarido__

Atrizes dividem prêmio em Cannes e francês leva Palma de Ouro

Cannes

(  A atriz francesa Emmanuelle Bercot (esquerda), o diretor francês Jacques Audiard (centro) e o ator francês Vincent Lindon  )

__O filme francês Dheepan venceu a Palma de Ouro em Cannes neste domingo. O drama conta a história de um ex-guerrilheiro do Sri Lanka que enfrenta a violência ao migrar para a França. Além da Palma de Ouro, o filme de Jacques Audiard levou os prêmios de ator e atriz. O aclamado chinês Mountains May Depart, de Jia Zhangke, saiu sem estatueta.

O Prêmio do Júri foi entregue a The Lobster, sobre um hotel em que é preciso encontrar um namorado em até 45 dias.

Audiard fez piada ao receber o prêmio. “Agradeço a Michael Haneke por não ter filme este ano”, brincou o francês, que em 2009 perdeu a Palma para “A Fita Branca”, do diretor austríaco.

O prêmio de melhor diretor, no entanto, foi entregue ao taiwanês Hou Hsiao Hsien, responsável pelo filme de artes marciais The Assassin (A assassina). Já o roteiro do mexicano Michel Franco em Chronic lhe valeu o prêmio da categoria. Nele, Tim Roth vive um enfermeiro com um segredo envolvendo pacientes terminais.

A Palma de melhor atriz foi dividida entre a americana Rooney Mara, pelo drama Carol, e a francesa Emmanuelle Bercot, por Mon Roi (Meu Rei). O francês Vincent Lindon levou a Palma de ator com o personagem de um executivo desempregado há mais de um ano.

O diretor húngaro László Nemes ficou com o Grande Prêmio do Júri, com Son of Saul (O filho de Saul), sobre um judeu que quer enterrar seu filho com dignidade em um campo de concentração. O colombiano de La Tierra y la Sombra, com coprodução brasileira, venceu o prêmio de melhor diretor estreante.

Única mulher da Nouvelle Vague nos anos 60, a francesa Agnes Varda, recebeu uma Palma de Ouro pelo conjunto da carreira. “Um prêmio de resistência ao cinema de autor”, discursou.

__Redação – Carta Capital__

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