Veja as séries que passaram de ano e as que foram canceladas em 2015

 

A semana que passou quebrou o marasmo típico dessa época do ano nos bastidores da TV norte-americana com o anúncio de renovações de seis séries. Elas se juntam a outras 53 atrações que irão ter novas temporadas em 2016 (veja lista abaixo). Em contrapartida, séries como Under the Dome, Downton Abbey, Revenge, CSI e Hannibal deram adeus neste ano. No total, 31 produções foram canceladas ao longo de 2015.

A onda de renovações dos últimos dias começou na terça (8), com a divulgação da quarta temporada de The Blacklist, e finalizou na quinta (10), com a informação de que a HBO dará para The Leftovers a terceira e derradeira temporada.

A grande surpresa ficou por conta de Wayward Pines, que terá mais um ano. A atração produzida pelo cineasta indiano M. Night Shyamalan esteve longe de ser um fiasco, mas foi previamente construída para ter somente uma temporada _ou seja, elaborada como uma minissérie. Tanto que praticamente todos os protagonistas morreram no episódio final. Só sobrou um, o garoto Ben Burke (Charlie Tahan). Mas a Fox não anunciou se Burke retornará nem como será a trama da nova leva de episódios.

Com The Leftovers, a HBO ignorou os números ruins de audiência nos Estados Unidos e deu crédito à inovação e ousadia de Damon Lindelof, um dos criadores da série, para que ele termine de contar a sua história _uma das melhores do ano, aliás.

O canal Showtime também também anunciou que Homeland vai para a sexta temporada e que The Affair, atual detentora do Globo de Ouro de melhor série dramática, terá o terceiro ano. Já a Netflix foi mais longe: sem ao menos ter estreado a segunda temporada da comédia Grace and Frankie, protagonizada por Jane Fonda e Lily Tomlin, já confirmou a terceira.

Não se mexe em time que ganha

Sucessos da TV norte-americana tiveram novas temporadas anunciadas sem nenhuma surpresa, como aconteceu com as séries Game of Thrones, The Walking Dead, Veep, Fargo, entre outras. Como de praxe, a Netflix deu novas temporadas para todas as séries estreantes do ano, caso de Bloodline, Narcos, Sense8 e Demolidor.

Séries estreantes ganharam força também em outros lugares, como a USA Network dando a segunda temporada para Mr. Robot, o Lifetime para UnReal e a NBC para Blindspot.

Além de Wayward Pines, outras atrações tiveram sobrevida inesperada. Casos de Mistresses, Tyrant e Aquarius.

DIVULGAÇÃO/CBS

A atriz Rachelle Lefevre em cena de Under the Dome, cancelada na terceira temporada

Fim inevitável

Já algumas séries não conseguiram se desvencilhar do destino certo: sair do ar. Assim foi com Under the Dome, que apesar de ter obtido uma popularidade alta no primeiro ano, ficou cansativa nas temporadas seguintes e recebeu o fatídico rótulo de “vai tarde” após o anúncio do cancelamento. Outras atrações que se enquadram nesse status indigno são Graceland, The Whispers, The Player e Proof.

Um adeus não foi tão triste. A série original de CSI, ambientada em Las Vegas, acabou após 15 temporadas. A despedida não foi tão dolorosa porque a magia do drama policial persiste em CSI: Cyber. Já com Hannibal foi diferente. Fãs de todo o mundo clamaram para que algum canal ou plataforma streaming, de preferência a Netflix, pegasse a série e continuasse a história do amado serial killer canibal. Mas não rolou. O fim veio na NBC mesmo, após três temporadas.

Confira abaixo quais séries foram canceladas em 2015 e quais irão ter novas temporadas no ano que vem:

Séries renovadas

2 Broke Girls (para a sexta temporada; da Warner)

Agent Carter (para a segunda temporada; do AXN)

American Crime (para a segunda temporada; do AXN)

American Horror Story (para a sexta temporada; do FX)

Aquarius (para a segunda temporada)

Ballers (para a segunda temporada; da HBO)

Banshee (para a quarta temporada; do Cinemax)

Bates Motel (para a quarta e quinta temporada; do Universal)

Better Call Saul (para a segunda temporada; da Netflix)

Bloodline (para a segunda temporada; da Netflix)

Blindspot (para a segunda temporada; da Warner)

Clube de Cuervos (para a segunda temporada; da Netflix)

Chicago Fire (para a quinta temporada; do Universal)

Chicago PD (para a quarta temporada; do Universal)

Demolidor (para a segunda temporada; da Netflix)

Episodes (para a quinta temporada)

Devious Maids (para a quarta temporada; do Lifetime)

Fargo (para a terceira temporada)

Fear The Walking Dead (para a segunda temporada; do AMC)

DIVULGAÇÃO/HBO

Lena Headey em Game of Thrones; drama da HBO vai ter mais uma temporada em 2016 

Game of Thrones (para a sexta temporada; da HBO)

Girls (para a quinta temporada; da HBO)

Halt and Catch Fire (para a terceira temporada; do AMC)

Homeland (para a sexta temporada)

House of Cards (para a quarta temporada; da Netflix)

Humans (para a segunda temporada; do AMC)

Longmire (para a quinta temporada; da Netflix)

Man Seeking Woman (para a segunda temporada; do FX)

Marco Polo (para a segunda temporada; da Netflix)

Masters of Sex (para a quarta temporada; da HBO)

Mistresses (para a quarta temporada; do Sony)

Mike & Molly (para a sexta temporada; da Warner)

Mr. Robot (para a segunda temporada; do Space)

Murder in the First (para a terceira temporada; da TNT Séries)

DIVULGAÇÃO/NETFLIX

Pelo papel de Pablo Escobar em Narcos, Wagner Moura concorrerá ao Globo de Ouro de 2016

Narcos (para a segunda temporada; da Netflix)

New Girl (para a quinta temporada; da Fox Life)

Orphan Black (para a quarta temporada; do A&E)

Orange Is the New Black (para a quarta temporada; da Netflix)

Scream (para a segunda temporada; da Netflix)

Silicon Valley (para a terceira temporada; da HBO)

Secrets and Lies (para a segunda temporada; do Sony)

Sense8 (para a segunda temporada; da Netflix)

The Affair (para a terceira temporada)

The Americans (para a quarta temporada)

The Blacklist (para a quarta temporada; do AXN)

The Comeback (para a terceira temporada; da HBO)

The Last Ship (para a terceira temporada; da TNT)

The Leftovers (para a terceira temporada; da HBO)

The Odd Couple (para a segunda temporada)

The Strain (para a terceira temporada; da Fox)

The Walking Dead (para a sétima temporada; da Fox)

Togetherness (para a segunda temporada; da HBO)

Tyrant (para a terceira temporada; do FX)

Um Drink no Inferno (para a terceira temporada; da Netflix)

Unbreakable Kimmy Schmidt (para a segunda temporada; da Netflix)

UnReal (para a segunda temporada)

DIVULGAÇÃO/HBO

Veep, estrelada por Julia Louis-Dreyfus, é a atual detentora do Emmy de melhor comédia

Veep (para a quinta temporada; da HBO)

Wayward Pines (para a segunda temporada; da Fox)

You’re The Worst (para a terceira temporada)

Zoo (para a segunda temporada; do Space)

 

Séries canceladas

Awkward (MTV)

Battle Creek

Beauty and the Beast (Universal)

Constantine (Space)

CSI (AXN)

Defiance (Syfy)

Dominion

Downton Abbey (GNT)

Extant

Forever (Warner)

Graceland

Hannibal (AXN)

Justified (Space)

Looking (HBO)

Melissa & Joey (Sony)

Mr. Robinson

Proof (TNT Séries)

Resurrection (AXN)

Revenge (Sony)

Stalker (Universal)

Strike Back (Cinemax)

Rookie Blue (Universal)

The Astronaut Wives Club

The Bastard Executioner

The Brink (HBO)

The Comedians

The Following (Space)

The Player (Universal)

The Whispers (AXN)

Under the Dome (TNT)

Wicked City

Original: http://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/series/veja-as-series-que-passaram-de-ano-e-as-que-foram-canceladas-em-2015-9946#ixzz3uE9Ddavy
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A incansável Kate Winslet

Qualquer um acharia que uma coleção enorme de prêmios — incluindo um Oscar, três Globos de Ouro, um Emmy e um Grammy — bastaria para garantir a uma atriz como Kate Winslet acesso instantâneo aos melhores papéis do cinema. Nem sempre. Basta considerar seu novo filme, Steve Jobs, o drama sobre o cofundador da Apple com roteiro de Aaron Sorkin e estreia prevista no Brasil para janeiro de 2016. “[O papel] não veio a mim. Eu fui até ele”, diz Winslet sobre sua aparição na pele de Joanna Hoffman — amiga e confidente de Jobs e ex-diretora de marketing da Apple. Quando ficou sabendo da produção, que tem direção de Danny Boyle e Michael Fassbender no papel principal, Winslet foi logo dizendo a si mesma: “Preciso entrar nessa.” A atriz arqueia uma sobrancelha antes de revelar o que pensou em seguida: “Maravilha. E como diabos vou conseguir isso?”

O relato de Winslet sobre o estratagema que usou para ganhar o papel é digno de um clássico com Katharine Hepburn, embora com um vocabulário mais poluído. No ano passado, enquanto desfilava pelo interior da Austrália com um figurino da década de 50 para filmar o romance feminista The Dressmaker, com estreia prevista para novembro no Brasil e ainda sem título em português, a atriz dava uma de detetive nos bastidores. Depois de perder Leonardo DiCaprio (que fez Titanic com Winslet) e Christian Bale, a produção de Steve Jobs optou por Fassbender. Quando ficou sabendo que o filme começaria a ser rodado dali a apenas cinco semanas, Winslet pensou: “Corra enquanto é tempo. Dê as caras, mostre que está disponível.”

Com uma rápida pesquisa sobre Hoffman, Winslet descobriu que a ex-executiva era uma morena do leste europeu, com bochechas rosadas e uma cabeleira armada típica dos anos 80. “Aposto que eles nem imaginam alguém como eu nesse papel”, pensou a atriz, que é britânica, alta, loira e dona de um rosto vitoriano clássico — e que caiu nas graças do público ao interpretar a mocinha inglesa rebelde em filmes como Razão e Sensibilidade (1995) e Titanic (1997). Winslet pediu ajuda ao marido, Ned RocknRoll, que foi despachado a uma loja de perucas. “Pus um cabelo curto, escuro, tirei a maquiagem do rosto, bati uma foto e mandei — sem dizer nada, nem no título.”

“Não sabia quem era”, diz Boyle, que recebeu a foto por meio do produtor Scott Rudin. Rudin, com quem Winslet vem trabalhando regularmente desde Iris (2001), revelou que era ela. E disse a Boyle: “Acredite em mim, você não vai querer trabalhar com mais ninguém.” Boyle foi a Melbourne e, certa manhã, lá estavam os dois conversando sobre o papel antes de Winslet partir para mais um dia de filmagens. “Ela tinha uma abelha na touca”, diz Boyle, usando uma expressão em inglês que descreve alguém obcecado por algo. “E quando [atores como ela] têm uma abelha na touca, trabalhar com eles é simplesmente perfeito.”

Sorkin ficou pasmo ao saber que Winslet estava disposta a fazer um papel coadjuvante. “Quando ela disse que queria interpretar Hoffman, a primeira coisa que pensei foi: ‘Por que a Kate Winslet está pregando uma peça em mim?’”

PRESENÇA NA TELA“Era crucial que essa personagem pudesse ficar de igual para igual com Steve Jobs”, diz Aaron Sorkin. “E, já que nem com uma escavadeira daria para empurrar Kate Winslet para fora da tela, foi bonito de ver.” Blusa Alexander McQueen e saia Valentino. Cabelo: Nicola Clarke; maquiagem: Lisa Eldridge; manicure: Nichola Joss. ENLARGE
PRESENÇA NA TELA“Era crucial que essa personagem pudesse ficar de igual para igual com Steve Jobs”, diz Aaron Sorkin. “E, já que nem com uma escavadeira daria para empurrar Kate Winslet para fora da tela, foi bonito de ver.” Blusa Alexander McQueen e saia Valentino. Cabelo: Nicola Clarke; maquiagem: Lisa Eldridge; manicure: Nichola Joss. PHOTO: FOTO DE WILLY VANDERPERRE, ESTILO DE ALASTAIR MCKIMM

Já a atriz diz ter se sentido “triunfante” ao conseguir o papel. Sentada num sofá do hotel Crosby Street, em Nova York, Winslet está curtindo um breve — e raro — intervalo sem os filhos: Mia, a filha de 14 anos com o primeiro marido, o cineasta de filmes independentes Jim Threapleton; Joe, o menino de 11 anos que teve com o segundo marido, o diretor Sam Mendes; e o caçula Bear, que tem um ano e meio e é fruto da união com RocknRoll, com quem ela se casou em 2012. “É só a segunda vez que deixo o bebê”, diz Winslet, que em geral viaja com a família e planeja os filmes em torno do calendário escolar. “As pessoas acham que [um ator] passa meses longe de casa. Muito jornalista me diz: ‘Aposto que você está louca para passar um tempo com as crianças.’ E eu penso: ‘P…, estou o tempo todo com elas.’ Não deixo ninguém para trás; não é assim que a coisa funciona.”

O cabelo loiro despenteado emoldura o rosto da atriz, que veste jeans preto justo e blusa preta transparente. Seus olhos azuis se estreitam quando ela descreve outra barbaridade que ouviu: “Agora há pouco, minha relações públicas me mandou um e-mail dizendo que um repórter do Daily Mail está com uma foto minha de um evento ontem à noite e quer saber como eu fiz para perder o peso que ganhei na gravidez.. E se eu quero comentar o fato de que especialistas andam dizendo que coloquei botox. Fico irritada com essa m…. Primeiro, essa última informação é 100% falsa. E, segundo, p…, já passou um ano e meio. É claro que uma hora vou voltar ao que era.”

Assim que passou a euforia de ter conseguido o papel em Steve Jobs, Winslet foi invadida pela sensação que todo trabalho lhe traz. “A primeira coisa que sinto é pânico”, diz. A ansiedade não diminui — ainda que esteja atuando desde os 14 anos, quando fazia dublagens num estúdio de gravação no porão de um prédio na rua South Audley, em Londres. É esse pânico que a leva a se preparar incessantemente.

O primeiro obstáculo a superar foi o sotaque atípico de Hoffman (que chegou aos Estados Unidos depois de viver na Armênia e na Polônia). “Foi o mais difícil que já fiz”, diz Winslet, que ganhou um Oscar pela fiel interpretação de uma alemã no filme O Leitor (2008). “Fazer um sotaque estrangeiro, especialmente do Leste Europeu, é ficar a um passo de um esquete do [programa humorístico] Saturday Night Live. Então, é bom ter um p… cuidado.” Para encarnar a voz de Hoffman, Winslet esteve com ela várias vezes antes de começar a filmar e fez um trabalho intenso com um preparador vocal. “Trabalhamos feito loucos.”

O visual dos anos 80 também exigiu habilidade. De peruca escura, Winslet aparece em modelos como um terno angular e um conjunto coordenado de saia, blusa e lenço. “Não é para ser um grande desfile de cabelo e maquiagem”, diz Ivana Primorac, a maquiadora e cabelereira cujo trabalho com Winslet já incluiu envelhecê-la por várias décadas para O Leitor, além de campanhas publicitárias da Lancôme. “A Kate não tem nenhuma vaidade. É o personagem que manda”, diz Primorac, que alertou Winslet sobre o papel. “No caso de Steve Jobs, pensamos: ‘Vamos tirar toda a maquiagem, deixar a cara lavada […] Então, os óculos — reverter o glamour.” E funcionou. No fim de uma pré-estreia fechada, um membro do comitê de seleção do Festival de Cinema de Nova York perguntou quem era a atriz “sensacional” que interpretava Hoffman.

Para Winslet, era importante fazer justiça a Hoffman, que entrou para a equipe do Macintosh em 1980 — a quinta integrante do bando de rebeldes que operava sob a bandeira pirata que depois foi içada no topo do prédio que ocupavam na sede da Apple. Na época, a divisão de marketing se resumia a Hoffman, que ajudou a posicionar o computador num mercado então dominado por IBM e Commodore. Hoffman também influenciou a vida pessoal e o guarda-roupa de Jobs. Insistia com ele para que desse atenção à filha Lisa e o apresentou a estilistas então em voga.

“Ela é a guia para entendermos esse homem extraordinário”, diz Boyle. Hoffman era uma das poucas pessoas do círculo íntimo de Jobs que não tinha medo de enfrentá-lo: ganhou duas vezes um prêmio interno da empresa por isso. Mas tinha uma profunda lealdade a ele. Um ano depois da estreia do Mac, quando Jobs deixou a Apple para criar a NeXT, que fazia computadores para a área de educação, Hoffman foi junto. Dali, ela foi para a General Magic e se aposentou em 1995, aos 40 anos de idade. (Quando Jobs se casou com Laurene Powell, em 1991, eles foram morar numa casa perto da de Hoffman em Palo Alto, na Califórnia, onde Jobs viveu até sua morte, em 2011.)

“Gostei de ver como [a Joanna] não tolerava idiotices, principalmente do Steve”, diz Winslet. “Sempre que uma mulher consegue manter sob controle um homem de pavio curto e famoso por ser imprevisível, é admirável. Tem uma história que ela conta”, diz Winslet, trocando sem esforço o sotaque para imitar Hoffman: “‘Meu Deus, trabalhei tanto numas projeções [de marketing] só para ouvir minha assistente dizer que ‘o Steve mudou as projeções’. Lembro de ter subido as escadas correndo, pensando: ‘Juro que vou enfiar uma faca no peito dele.’” Winslet solta uma gargalhada satisfeita.

“A Joanna basicamente se julgava igual [a Jobs], uma colega. Não tinha medo dele”, acrescenta. “Havia muito respeito e admiração entre os dois.”

PRONTA PARA ENCARAR: “Quero ler um roteiro e dizer, ‘P...! Como é que eu interpretaria esse personagem?’” Casaco Dior, cinto Ralph Lauren Collection, luvas Marc Jacobs e sapatos Jimmy Choo (desgastados).  ENLARGE
PRONTA PARA ENCARAR: “Quero ler um roteiro e dizer, ‘P…! Como é que eu interpretaria esse personagem?’” Casaco Dior, cinto Ralph Lauren Collection, luvas Marc Jacobs e sapatos Jimmy Choo (desgastados). PHOTO:FOTO DE WILLY VANDERPERRE, ESTILO DE ALASTAIR MCKIMM

Winslet e seu par nas telas, Fassbender, também parecem combinar bem. “Era crucial que essa personagem pudesse ficar de igual para igual com Jobs, que não fosse empurrada para fora da tela”, diz Sorkin. “E, já que nem com uma escavadeira daria para empurrar Kate Winslet para fora da tela, foi bonito de ver.”

No set, Winslet e Fassbender se relacionaram bem — talvez porque ambos sejam “equipes de uma pessoa só”, como diz Winslet. “Não tem uma rodinha em torno dele. É assim que eu sempre fiz. Aí, não dá para culpar ninguém quando você faz m…”

Jobs é estruturado em três atos — filmados, no geral, em longas tomadas com poucas interrupções —, tem nove personagens principais e retrata três episódios importantes da vida de Jobs no período entre 1994 a 1998. Numa decisão atípica, foi ensaiado e rodado em sequência, como se Boyle estivesse filmando uma peça de teatro. Winslet buscou toda a ajuda possível — incluindo passar o texto com o filho de 11 anos — para memorizar em poucas semanas o roteiro ritmado e cheio de diálogos, de 182 páginas.

Foi um esforço tão exaustivo que ela ficou aliviada por ter um papel coadjuvante. “Às vezes, é maravilhoso estar em uma posição em que você pode dar apoio aos outros atores”, diz Winslet, que exercitou seus dotes maternais no set — onde preparava chá para Fassbender e sempre tinha algo à mão para enganar a fome. “Acho que é bom, para o ator principal, ter gente ao redor que não esteja deslumbrada ou falando sobre o que vai fazer no fim de semana”, diz. “Pombas, tenho meio ato pela frente para gravar. Não venha me perguntar o que vou fazer sábado à noite.”

Aliás, Winslet chegava a planejar os fins de semana de Fassbender — para que ele não tivesse que pensar no assunto. “Ela estava sempre me ajudando com reservas de hotel e de restaurante e tentando garantir que eu estava me cuidando”, diz Fassbender. “Ela é um tremendo recurso no set — trouxe sua vasta experiência em tudo quanto é área. São coisas que vão além da atuação; ela é capaz de enxergar o todo.”

Boyle concorda. “Ela devia ser diretora e produtora também”, diz. “É uma parceira formidável para um diretor. Se estávamos filmando uma cena e tínhamos de refazer tudo por algum probleminha, quando eu via, ela já estava arrumando o cenário, pois tinha memorizado onde cada coisa devia estar”, diz Boyle. E acrescenta: “Ela é a pessoa mais organizada que já vi. […] Quando reservava uma passagem de avião ou um táxi para o Michael, não havia um pobre assistente ajudando. Ela mesma fazia tudo.”

Winslet vem se virando sozinha desde a infância em Berkshire, na Inglaterra, passada com os pais, duas irmãs e um irmão. Ela diz que sofreu bullying na escola e que decidiu logo cedo que queria ser atriz. “Nunca me interessei por outra coisa. Lembro de estar brincando com minhas amigas quando tinha oito anos e de ouvi-las dizendo: ‘Quando crescer, vou ser aeromoça’, ‘Vou ser cabeleireira’. E eu ficava ali pensando: você vai ser o quê?” Winslet frequentou uma escola de artes cênicas, começou fazendo uma ponta aqui, outra ali e, aos 15, conseguiu um papel numa série da BBC, o drama adolescente Dark Season. “Na minha cabeça, eu já tinha saído da escola, pois estava vivendo a vida”, diz Winslet. Dois anos depois, veio o primeiro filme, Almas Gêmeas. Sucesso de crítica, o intenso drama indie de Peter Jackson mostra uma amizade obsessiva que termina em assassinato. “Com 17 anos, já tinha me atirado por completo — estava trabalhando duro e vendo o mundo por causa disso”, diz.

Vestido Stella McCartney e luvas Lanvin. ENLARGE
Vestido Stella McCartney e luvas Lanvin. PHOTO: FOTO DE WILLY VANDERPERRE, ESTILO DE ALASTAIR MCKIMM

Nada, porém, podia prepará-la para o estrondo que foi Titanic, em 1997, que estrelou ao lado de DiCaprio, até hoje um amigo próximo. O filme faturou mais de US$ 600 milhões nos EUA, mas Winslet não quis ser a nova “mocinha” das telas — daí ter recusado o papel principal de Shakespeare Apaixonado para trabalhar na produção independente O Expresso de Marrakesh, no qual conheceu o primeiro marido, Threapleton. Aos 23 anos estava casada, aos 25 deu à luz Mia e aos 26 estava divorciada. “Ninguém ensina essas coisas e ninguém tampouco ajuda muito”, diz ela sobre a perseguição sofrida por revistas de fofocas. “É algo muito específico para pedir que as pessoas entendam. ‘Fulano falou barbaridades de mim no jornal.’ ‘Ah, ignora.’ Mas não dá, pois não é verdade.”

Pouco depois, Winslet conheceu o diretor Sam Mendes e foi morar com ele em Nova York. Os dois se casaram em 2003. No mesmo ano tiveram o filho Joe e, nos sete anos seguintes, mantiveram uma vibrante parceria criativa. Mendes dirigiu a mulher em Foi Apenas um Sonho (2008), que de novo trazia DiCaprio e, profeticamente, mostrava um casamento em crise. O casal se separou em 2010. “Conheço muita gente que não tem uma vida pública e já passou por vários casamentos, é sério. Foi isso que a vida me reservou. Nunca fiz planos para que as coisas fossem assim”, diz Winslet. “E, pombas, não é fácil, viu?” Ao lembrar que a imprensa de fofocas tentou — em vão — descobrir como e por que seus dois primeiros casamentos não vingaram, ela acrescenta: “Ninguém sabe de verdade o que aconteceu na minha vida. Ninguém sabe por que meu primeiro casamento não durou; nem o segundo. E eu tenho orgulho desses silêncios.”

Do novo marido, RocknRoll (que até 2008, quando mudou oficialmente de nome, chamava Edward Abel Smith), Winslet diz: “Graças a Deus pelo Ned — sério. Ele me dá tanto apoio, e é tão divertido. Ele é absolutamente tudo para mim. E para todos nós.” Os dois se conheceram quando passavam férias em Necker Island, um paraíso particular de propriedade do empresário Richard Branson, tio de RocknRoll. Eles se casaram em 2012 e hoje moram no interior, perto de Londres. Em casa, na maioria dos dias a atriz está de pé às seis, preparando o café da manhã e arrumando os filhos para a escola — longe da imagem estereotipada da estrela de cinema. “Você precisa usar essa expressão?”, pergunta, com uma careta. “É algo que sempre me incomodou. Eu não me sinto como uma [estrela] e tampouco vivo como uma.”

Quanto aos filhos, os mais velhos já assistiram a mãe em dois filmes recentes da série de ação Divergente (Divergente e Insurgente). Já Mia ultimamente anda “obcecada” com Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004), dirigido pelo francês Michel Gondry. “Ela ouve a trilha sonora o tempo todo.”

A própria atriz só consegue assistir aos filmes que faz uma única vez depois de prontos. Isso dito, é “superorgulhosa” do Oscar de melhor atriz por O Leitor, que enfeita seu banheiro. “A ideia é que todo mundo possa pegá-lo e dizer ‘Queria agradecer meu filho e meu pai.’ E dá para saber quando alguém fez isso, pois a pessoa continua lá dentro um tempo depois de ter dado a descarga. E sai com o rosto meio corado. É hilário.”

Embora Winslet tente manter a vida pessoal só para si, na frente da câmera ela é desinibida. “Às vezes, o personagem tem uma faceta da qual nem gosto ou o personagem viveu algo que eu não queria ter que sentir. Como Sabine em Um Pouco de Caos (2014), que viveu a perda de uma filha. “P…, foi horrível”, diz Winslet, que estava grávida de Bear durante a filmagem. “Você vai para casa, trata de esquecer, toma um chazinho. Mas, na hora, é uma droga.”

Até aqui, Winslet tampouco teve medo de se despir, literalmente, para as câmaras. Apareceu nua em 12 filmes, embora depois de três filhos ela diga: “Acho que hoje não dá mais […] nunca usei dublê de corpo, para mim seria como mentir”, diz. “Então, provavelmente, acabou para mim.” “Fico imensa quando estou grávida”, acrescenta. (“Certas coisas nunca vão voltar ao que eram, mas me sinto fisicamente bem e saudável.”) Quando era mais nova, Winslet admite que se criticava muito — “graças a Deus toda essa m… passou”, diz. “A gente fica fissurada no corpo na adolescência, aos 20 e poucos anos, o que não é legal. Quando chega aos 30, você pensa em manter a forma. Agora, vejo meu físico como um instrumento que tenho que manter porque sou mãe e tenho que ser o mais saudável possível para essas três pessoas que precisam de mim — mais do que preciso aparecer numa m… de cena sem roupa.”

VISÃO TOTAL: “Ela é um tremendo recurso no set”, diz Michael Fassbender, coestrela em Steve Jobs. “São coisas que vão além da atuação; ela é capaz de enxergar o todo.” ENLARGE
VISÃO TOTAL: “Ela é um tremendo recurso no set”, diz Michael Fassbender, coestrela em Steve Jobs. “São coisas que vão além da atuação; ela é capaz de enxergar o todo.” PHOTO: FOTO DE WILLY VANDERPERRE, ESTILO DE ALASTAIR MCKIMM

Ultimamente, Winslet parece ter entrado numa nova fase na carreira. “Quando você vai ficando mais velho, precisa ser mais interessante. É por isso que é importante escolher os papéis certos”, diz Primorac, mencionando a resolução das câmeras digitais de hoje, que exacerba as mínimas imperfeições. “Fiz um monte de filmes em que a Kate aparece supersexy no papel principal, mas hoje ela está mais interessada num papel em que possa franzir o cenho e ter rugas na testa. Em vez de pensar ‘Ai, será que vou ficar bem ao lado do Liam Hemsworth’ — e ainda fica, aliás —, ela está mais interessada num grande papel.”

“Não há muitos papéis realmente gratificantes para as mulheres, o que é um problema para a Kate”, diz Boyle. “Ela está travando uma batalha, como fazem os grandes atores: não é mais a mocinha loira — e está particularmente ciente disso, pois interpretou a maior de todas nessa categoria — e quer mudar a ideia que diretores e produtores fazem dela, [mostrar] que está crescendo e mudando como atriz.”

Ao que parece, Kate Winslet vai desfrutar o desafio. “Quero ler um roteiro e dizer, ‘P…! Como é que eu interpretaria esse personagem?’ E, depois, ir lá e achar um jeito de interpretá-lo”, diz, aos risos. “Quero crescer, quero mudar, quero morrer de medo.” Parte desse processo vai ser fazer 40 anos este mês, um aniversário que Winslet faz questão de marcar. “Não perdi um segundo”, diz, com um sorriso. “Meu Deus, tirei o máximo desses 40 anos.” •

Jennifer Lawrence lidera a lista de atrizes mais bem pagas, segundo a Forbes

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Estrela do cinema faturou R$ 180 milhões nos últimos doze meses

Já considerada no ano passado, segundo a Forbes, a atriz mais rentável do cinema, tendo arrecadado para filmes como Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 e X-Men US$ 1,4 bilhão, Jennifer Lawrence foi apontada em 2015 pela revista de economia como a intérprete mais bem paga do mundo.

A Forbes indica, como divulgou nesta quinta-feira, 20, a rede de TV norte-americana CBS, que a vencedora do Oscar por O Lado Bom da Vida tenha recebido US$ 52.000.000 – cerca de R$ 180 milhões –, US$ 1 milhão a mais do que a líder do ano passado, Sandra Bullock, agora na 15ª colocação com “apenas” US$ 8 milhões no bolso.

Lawrence é seguida por Scarlett Johansson (Lucy), com US$ 35.500.000, pela comediante Melissa McCarthy (Uma Ladra Sem Limites , com US$ 23.000.000, e pela chinesa Bingbing Fan (Homem de Ferro 3), com US$ 21.000.000.

Jennifer Lawrence protagonizará ainda neste ano o último filme da saga Jogos Vorazes, A Esperança – O Final, previsto para chegar em 19 de novembro aos cinemas do Brasil.

Veja a lista das 18 atrizes mais bem pagas do cinema:

Jennifer Lawrence: US$ 52,000,000
Scarlett Johansson: US$ 35,500,000
Melissa McCarthy: US$ 23,000,000
Bingbing Fan: US$ 21,000,000
Jennifer Aniston: US$ 16,500,000
Julia Roberts: US$ 16,000,000
Angelina Jolie: US$ 15,000,000
Reese Witherspoon: US$ 15,000,000
Anne Hathaway: US$ 12,000,000
Kristen Stewart: US$ 12,000,000
Cameron Diaz: US$ 11,000,000
Gwyneth Paltrow: US$ 9,000,000
Meryl Streep: US$ 8,000,000
Amanda Seyfried: US$ 8,000,000
Sandra Bullock: US$ 8,000,000
Emma Stone: US$ 6,500,000
Mila Kunis: US$ 6,500,000
Natalie Portman: US$ 6,000,000

Rolling Stone

É possível quebrarmos o monopólio norte-americano do cinema? por Leo Curcino

 

Gosto de contar histórias desde que me entendo por gente. Lembro que criei meu primeiro personagem com uns 7 anos de idade, obviamente, bem infantil, com aquela ingenuidade de criança. Desenhei quadrinhos boa parte da minha infância e adolescência. Eu fazia meus gibis manualmente, grampeava, plastificava capa e contracapa, desenhava e coloria à mão.

Revirei coisas antigas um dia desses quando fui à casa dos meus pais e até tirei foto de uma dessas revistinhas – talvez a única que tenha sobrado. Eu tinha uns 12 ou 13 anos de idade e lembro que era um “projeto”, se é que posso assim chamar, em dupla com o Pedro, meu amigo e colega de escola na época, que hoje, coincidência ou não, é meu sócio.

Roteiro & ilustrações: Leo Curcino | Cores: Pedro Xudré

Um tempo depois, empolguei com cinema. Queria muito estudar cinema, mas acabei fazendo Publicidade e Propaganda por falta de coragem mesmo. Confesso que tive medo de morrer de fome. Imagina! Cinema? No Brasil? Não, não, melhor não.

Só alguns anos depois de formado e com a situação profissional razoavelmente estável é que finalmente consegui fazer cinema. Talvez eu tivesse mesmo que ter feito isso antes, talvez não. Pelo menos agora eu estava fazendo.

 

E a sensação era a de que havia perdido muito tempo: havia muitos filmes para serem vistos, autores e diretores clássicos que eu nem conhecia, mestres dos quais sabia muito pouco ou quase nada. Fiquei um bom tempo (e ainda estou correndo atrás do prejuízo) vendo filmes e lendo livros de cinema desesperadamente. Terminei o curso, fiz meu primeiro curta.

Assim, depois de ler muito, conversar com gente do mercado e analisar o cenário atual, principalmente no Brasil, que várias questões vieram à tona.

Uma coisa leva à outra

Imagine que, ao chegar à praça de alimentação de um shopping, você percebe que metade dos restaurantes são da mesma cadeia de fast food. Isso seria praticamente uma forma de obrigar os clientes a consumirem aquela marca: comam hambúrgueres. Podemos até gostar de hambúrgueres, mas se há outras opções, é bem provável que a gente queira comer outras coisas de vez em quando.

O ato de assistir a produções estadunidenses é cultural, está consolidado na nossa rotina. E, para os Estados Unidos, esse é um produto extremamente valioso e faz parte, inclusive, da política internacional do país. É inegável a importância do audiovisual para o fortalecimento de uma nação.

Filmes, novelas e seriados de TV têm o poder de influenciar pessoas, lançar tendências, ditar comportamentos, criar moda, representar uma região, fortalecer o turismo, aumentar a autoestima de um determinado lugar e por aí vai. Nova Iorque já foi cenário de tantos filmes que assistimos, tantos seriados que gostamos de acompanhar, que é praticamente impossível não ficarmos, no mínimo, curiosos em conhecer a cidade. A admiração é quase inevitável. Muita gente já foi aos Estados Unidos dezenas de vezes, sem sequer ter passaporte.

Muitos pessimistas preferem dizer que o brasileiro não gosta de produções nacionais e ponto. Os brasileiros querem, sim, ver sua língua sendo falada nas telas e sua cultura sendo retratada. Bobagem pensar o contrário. O espectador médio até já se acostumou a ver filmes nacionais, mas boa parte do grande público ainda vê a produção brasileira como algo de baixa qualidade, de “imagem feia”. Talvez, vestígios das antigas pornochanchadas e do cinema boca do lixo.

Para atrair o grande público, precisamos diversificar nossas produções, até porque a percepção geral ainda é de que nossas temáticas giram muito entre miséria/história de bandido.

Ao contrário dos produtores, que captam recursos por meio de incentivo fiscal, os exibidores não possuem apoio do governo. E como são instituições com fins lucrativos, obviamente, preferem exibir produtos com grande potencial comercial. Por conta disso, é praticamente impossível, no atual modelo, concorrer com o produto estrangeiro, principalmente o estadunidense.

É uma discussão antiga. Já ensaiaram alternativas para mudar isso, mas nada muito relevante. O fato é que, de 2001 pra cá, a participação do mercado de produções nacionais só foi maior que 20% em 2003. Em 2012, não chegamos nem a 15%.

E qual seria a melhor alternativa para mudar essa realidade? Criar incentivos para exibidores? Criar uma lei de cota também nas salas de cinema como fizeram com a TV fechada? Me parece estranha essa questão. Não deveria ser o contrário? Em vez de brigarmos por uma participação mínima, não são os estrangeiros que deveriam brigar por uma fatia nossa?

Vamos fazer um filme?

Acredito que quanto melhor a qualidade do conteúdo audiovisual nacional (seja ele filme de ficção ou documentário, série, novela etc), mais os brasileiros vão querer ver conteúdo nacional. Quanto mais o brasileiro quiser ver conteúdo nacional, mais eles se tornarão comercialmente atrativos e, como consequência disso, estarão presentes em salas de cinema, na programação da nossa TV por assinatura e na internet, atraindo, assim, maior atenção das marcas.

Com o atual modelo de fomento, baseado em leis de incentivo fiscal e editais, os autores ficam extremamente dependentes do Estado para filmar no Brasil. Os processos não favorecem aqueles que estão começando e são complexos até para autores/produtores experientes.

Em suma, quem escolhe quais projetos serão produzidos no Brasil são os departamentos de marketing de grandes empresas.

O único jeito que conheço de evoluir é com a prática. Quanto mais filmes a gente fizer, melhor vamos ficar. Quanto mais gente tiver se dedicando ao audiovisual, mais chances teremos de revelar talentos, produzir coisas legais. Quanto mais coisas legais fizermos, mais jovens vão querer ser cineastas e vão se dedicar ao estudo do cinema. Quanto mais gente interessada em estudar, mais escolas e cursos serão criados.

Seria uma revolução real no cenário, não é verdade? É nisso que eu acredito.

E é sob esse contexto que criamos o Cineasta.cc. O site utiliza o crowdfuding e a colaboração coletiva para ajudar criadores a captar recursos para filmarem seus projetos no Brasil. Trata-se de uma tentativa de democratizar o mercado e permitir que mais pessoas consigam desenvolver e produzir suas ideias.

Tem um roteiro e precisa de ajuda para tirá-lo do papel? Gostou de um projeto e quer participar ou quer apoiar? Quer ver sua marca nas telas? Assista ao vídeo explicativo e entenda como funciona. Acredito que ele resume bem a proposta. E acho importante mencionar aqui (e aproveitar para agradecer novamente) o pessoal do Clint Studio de Floripa, que criou o vídeo.


 

Enfim, o fato é que um mercado autossustentável, com apoio de pessoas e da iniciativa privada, certamente contribuiria para o desenvolvimento do audiovisual brasileiro e do próprio país.

Quem quiser mandar dúvidas, comentários, sugestões ou entrar em contato conosco, o e-mail é contato@cineasta.cc.

Diretores cobram políticas contra monopólio do cinema americano

Durante o Festival Internacional de Cinema de Santiago, os cineastas cobraram decisão política dos governos contra monopólio das distribuidoras para possibilitar o acesso do público às produções de filmes nacionais

Durante o segundo Festival Internacional de Cinema de Santiago, realizado entre os dias 9 e 14 de agosto, cineastas denunciaram a falta de espaço na divulgação e distribuição do cinema latino-americano, sufocado pelo monopólio da indústria cinematográfica dos Estados Unidos.

Os cineastas Eliseo Subiela, da Argentina, Silvio Caiozzi, do Chile, e José Joffily, do Brasil, participaram do Festival que exibiu mais de 90 filmes de vários países, entre documentários, longas de ficção e curta-metragens. No evento os cineastas denunciaram que há um problema de decisão política dos governos para possibilitar o acesso do público às produções de filmes da América-Latina. “Temos um inimigo que é o cinema norte-americano”, ressaltou o argentino Subiela, afirmando que “é preciso criar políticas de defesa cultural para o setor”.

Para se ter uma idéia, 85% dos cinemas são ocupados apenas por cinco distribuidoras norte-americanas – Columbia, Fox, Universal Pictures e Warner – restando apenas 15% para a produção de todos os outros países.

Recordando o histórico do cinema chileno, Caiozzi afirma que no Chile, mesmo havendo aumento na produção de filmes, “não haverá resultado estável na história se não ocorrer um desenvolvimento na divulgação e distribuição”.

A produção norte-americana que invade as telas dos cinemas na América Latina e também em diversos outros países, não só sufoca as produções nacionais, como são feitas para submeter o pensamento das pessoas à sua cultura, ou seja, em sua maioria à cultura do individualismo, dos rambos, da “polícia do mundo”. São feitas para impedir que os países contem a sua história ao mundo, para impedir que os povos tenham identificação com seus Heróis, com seus antepassados e com sua realidade.

É o que vem denunciando também o cineasta argentino Fernando Solanas e o italiano Citto Maselli. Solanas afirmou em entrevista durante o Fórum Social Mundial, em Caracas, no ano passado, que “a memória é a principal arma de defesa dos povos, ainda mais com o grande aparato de desinformação que existe hoje e que tenta destruir a memória dos povos. Mas a resistência, a participação popular são fundamentais. E é imprescindível mostrar o que realmente aconteceu, que nunca é incorporado à história dos vencedores”.

COTAS DE EXIBIÇÃO

Conhecido como Fernando “Pino” Solanas, há alguns anos o cineasta vem se dedicando à investigação e à denúncia da recente crise na Argentina, trabalho que gerou uma série de quatro documentários, entre eles “Memórias do Saqueio”. Iniciou sua carreira com o filme “La Hora de los Hornos”, (1968), um clássico sobre a ditadura na Argentina, e em 2004 foi homenageado com o Urso de Ouro especial no Festival Internacional de Cinema de Berlim pelo conjunto de sua obra.

Solanas também coloca em questão o papel que a televisão tem no sentido de possibilitar o acesso aos filmes latino-americanos. “O cinema nacional deve ser exibido nas TVs. É preciso discutir e impor leis que regulamentem o espaço audiovisual. As emissoras têm de lembrar que esse espaço é uma concessão e pertence ao povo, e não à Globo, Televisa ou à família Cisneros”, afirma Solanas. Para ele, a criação de cotas de exibição para filmes nacionais e latinos, “ajudaria a resgatar a dignidade desses povos expropriados”.

JÚLIA CRUZ

Cannes_Os últimos como primeiros

Saul Fia, ou o filho de Saul, foi o segundo filme exibido na competição e de pronto ganhou o boca a boca no festival. Se não unânime, o concorrente húngaro saiu disparado na preferência de boa parte da imprensa especializada. As sessões lotaram e somente hoje, com a reprise de todos os competidores a Palma de Ouro, foi possível recuperar o drama impactante do estreante László Nemes. Não é raro encontrar certa aversão  atual dos espectadores ao tema do holocausto, compreensível em termos, tamanha a constância de sua evocação pelo cinema. Mas há algo tão pulsante e incômodo em Saul Fia, no partido estético opressivo e na abordagem, que se pode dizer tratar-se de uma exceção obrigatória.

A Fipresci, a federação internacional dos críticos de cinema, já reconheceu a contundência da produção e ontem concedeu a ela seu prêmio. Costuma ser um indicador precioso para a decisão do júri oficial, resultado que saberemos logo mais, a partir de 19h no horário local, cinco horas a mais do que no Brasil. Além do mérito próprio, Saul Fia pode se beneficiar de um status em geral mediano de seus concorrentes, muitos realizadores estabelecidos que em maior ou menor grau desapontaram. Curioso, contudo, que os três últimos títulos exibidos ressoam uma temática que lhe são comuns. Se há a óbvia relação com a morte num filme sobre o genocídio dos judeus, nem tanto se poderia esperar em Valley of Love e Chronic um olhar do trauma de quem desaparece e deixa marcas, sendo sobretudo este ente querido um filho.

A princípio o título húngaro parece desvendar de cara a situação filial. De certo modo, apenas. Saul (o ótimo Géza Röhrig, em interpretação contida) é o prisioneiro húngaro de um campo de concentração. Integra o chamado “sonderkommando”, as unidades formadas por judeus obrigados pelos nazistas a lidar com o preparo e o descarte dos corpos das vítimas exterminadas nas câmeras de gás. É o horror maior entre os horrores, como qualificou Claude Lanzmann a partir das entrevistas em Shoah, o extenso documentário sobre a matança aos judeus. Com uma grande marca em “X” nas costas, estes homens colaboram para matar portanto sua própria gente, enquanto esperam a determinação para sua morte.

Entre um grupo recém-chegado, Saul se dá conta de um menino que agoniza e em seguida assiste sua morte final por injeção. Decide enterrá-lo na tradição judaica e para tanto precisa de um rabino. O obstáculo não são apenas os alemães, mas os próprios colegas, imanados em torno de um plano de revolta. Na tela em formato quadrado, o cenário escuro dos subterrâneos onde se dá a dizimação se torna ainda mais angustiante e claustrofóbico, com a câmera todo o tempo no rosto imutável do protagonista, buscando sobreviver para conseguir seu intento. Instala-se outra dúvida, talvez a maior em termos de narrativa, mas insignificante sobre a paternidade ou não. O filme atenta, afinal, há algo bem mais complexo sobre a que ponto pode ser rebaixada a dignidade humana.

Se a ética e outros valores parecem desaparecer por completo numa situação de limite como o holocausto, Chronic coloca em questão os mesmos preceitos na atualidade e em condição bem mais próxima e cotidiana. Tim Roth é o cuidador de doentes terminais que concilia uma tragédia do passado recente com a tentativa de superá-la pelos casos em tratamento. A perda do filho lhe deixa dedicado ao trabalho, e mais, ele assume as histórias dos pacientes como parte integrante da sua vida. Surgem percalços, como a acusação de uma família de assédio sexual. Quando ajuda uma doente de câncer a viabilizar uma atitude drástica, as realidades por fim se unem. Como em Depois de Lúcia, vencedor da seção Un Certain Regard há dois anos, o diretor mexicano  Michel Franco constrói de modo sofisticado e discreto sua crônica de uma morte anunciada, primeiro nos lugares fechados e fotografia clean que a tudo esmorece, como aquelas vidas que se esvaem, e em seguida no espaço exterior onde se dá o desfecho perturbador. O que não significa necessariamente inesperado, mas isso tem a ver com o desdobramento da competição, pois em registro bem menos original e algo constrangedor Gus Van Sant faz o mesmo em Sea of Trees. O epílogo de Chroniccontraria muitas opiniões por aqui. Isto não invalida a qualidade de um dos filmes mais bem delineados de uma competição morna.

É o que tenta também Guillaume Nicloux em Valley of Love, outro dos realizadores incensados em produção menor e agora mais ambicioso ao filmar nos Estados Unidos com Isabelle Huppert e Gerard Depardieu. As estrelas do cinema francês talvez sejam o melhor a acompanhar no drama do casal separado que viaja ao Vale da Morte americano impelido por um pedido em carta deixada pelo filho suicida. Ele promete surgir a eles, o que a espiritualizada personagem de Huppert acredita mais do que o ex-marido. Há a mesma construção em toada de suspense e pequenas alterações, mas tanto o percurso do roteiro quanto seu fecho não são a confirmação de um conflito familiar que poderia ser bem mais potente.  

__Blog do Orlando Margarido__

Atrizes dividem prêmio em Cannes e francês leva Palma de Ouro

Cannes

(  A atriz francesa Emmanuelle Bercot (esquerda), o diretor francês Jacques Audiard (centro) e o ator francês Vincent Lindon  )

__O filme francês Dheepan venceu a Palma de Ouro em Cannes neste domingo. O drama conta a história de um ex-guerrilheiro do Sri Lanka que enfrenta a violência ao migrar para a França. Além da Palma de Ouro, o filme de Jacques Audiard levou os prêmios de ator e atriz. O aclamado chinês Mountains May Depart, de Jia Zhangke, saiu sem estatueta.

O Prêmio do Júri foi entregue a The Lobster, sobre um hotel em que é preciso encontrar um namorado em até 45 dias.

Audiard fez piada ao receber o prêmio. “Agradeço a Michael Haneke por não ter filme este ano”, brincou o francês, que em 2009 perdeu a Palma para “A Fita Branca”, do diretor austríaco.

O prêmio de melhor diretor, no entanto, foi entregue ao taiwanês Hou Hsiao Hsien, responsável pelo filme de artes marciais The Assassin (A assassina). Já o roteiro do mexicano Michel Franco em Chronic lhe valeu o prêmio da categoria. Nele, Tim Roth vive um enfermeiro com um segredo envolvendo pacientes terminais.

A Palma de melhor atriz foi dividida entre a americana Rooney Mara, pelo drama Carol, e a francesa Emmanuelle Bercot, por Mon Roi (Meu Rei). O francês Vincent Lindon levou a Palma de ator com o personagem de um executivo desempregado há mais de um ano.

O diretor húngaro László Nemes ficou com o Grande Prêmio do Júri, com Son of Saul (O filho de Saul), sobre um judeu que quer enterrar seu filho com dignidade em um campo de concentração. O colombiano de La Tierra y la Sombra, com coprodução brasileira, venceu o prêmio de melhor diretor estreante.

Única mulher da Nouvelle Vague nos anos 60, a francesa Agnes Varda, recebeu uma Palma de Ouro pelo conjunto da carreira. “Um prêmio de resistência ao cinema de autor”, discursou.

__Redação – Carta Capital__

Jornalismo mundo-cão é o alvo de Jake Gyllenhaal

Ao interpretar repórter policial em ‘O Abutre’, ator reflete sobre o papel da mídia e da informação. Confira na entrevista a CartaCapital

por Eduardo Graçapublicado 17/12/2014 06:23, última modificação 17/12/2014 19:02

O Abutre

Jake Gyllenhaal em cena de ‘O Abutre’

 O burburinho em torno de O Abutre começou em setembro, no Festival de Cinema de Toronto, no Canadá: o filme de estreia do diretor Dan Gillroy (roteirista de títulos como Gigantes de Aço eO Legado Bourne e irmão do diretor Tony Gillroy, indicado ao Oscar por Conduta de Risco), era o melhor trabalho já feito por Jake Gyllenhaal.

O ator de 34 anos, famoso pelos olhos azuis, indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante em 2006 pelo sofrido Jack Twist deO Segredo de Brokeback Mountain, apaixonou-se de tal maneira pela história de Louis Bloom que decidiu produzir o thriller. O longa, que estreia este mês nos cinemas brasileiros, foi eleito um dos dez melhores filmes do ano pela centenária National Board of Review por traçar um raio-x do telejornalismo mundo-cão americano.

Gyllenhaal vive Louis Bloom, uma figura sinistra, surgida do nada, dona de uma ambição sem tamanho, nenhum pendor ético e um desconhecimento absoluto do jornalismo acadêmico. Assim, ele se torna uma estrela da mídia televisiva de Los Angeles. “O filme é sombrio. Los Angeles, onde nasci e sempre vivi, é essencialmente horizontal. A topografia local e o fato de fazer sol praticamente o tempo todo imprime em seu cenário uma perversidade singular. Aqui, você pode ver tudo o que acontece, embora muitas vezes de dentro de um carro. Só é preciso ter a coragem de abrir a janela para observar o lado selvagem da segunda maior metrópole americana”, disse o ator a CartaCapital em um hotel do SoHo, em Manhattan.

Lúcido, Gyllenhaal diz que vê O Abutre como uma oportunidade para discutir, de forma intensa e hipnotizante, um tema criminosamente deixado de lado pelas sociedades civis do mundo ocidental: a transformação da indústria da informação nos últimos anos e o fim do que ele chama de “hierarquização da notícia”: “Eu sair na rua e comprar um café na esquina não pode ter o mesmo destaque, nem sequer aparecer na mesma página de um jornal ou no mesmo segmento de um telejornal que o discurso anual do presidente dos EUA. Não pode! Quando esta distinção se dissipa, o que fica é o caos. E isso é muito perigoso”.

Gyllenhaal, que havia perdido 11 kg para viver Bloom, chega para a conversa com braços imensos, explodindo na camisa de malha, resultado do treinamento intenso na famosa academia de boxe Church, em Nova York, por conta das filmagens de Southpaw (ainda sem título em português), o novo filme de Antoine Fuqua, em que vive o boxeador Billy Hope, um campeão nos ringues cuja vida pessoal devastada por uma série de tragédias.

CartaCapital: Você disse certa vez que gosta de voltar do set de filmagem e desabar, em casa ou no quarto de hotel, feliz e exausto de ter experimentado de fato um dia de trabalho duro. Foi assim em O Abutre?

Jake Gyllenhaal: Foi, mas havia uma pressão constante, inerente a este personagem, que me ajudou muito no processo de criação. Hoje, quando vejo o filme, penso que consegui deixar aquela energia muito específica dele lá nas filmagens, o que é muito gratificante

CC: Como foi o processo de pesquisa?

JG: Eu havia acabado de fazer Marcados para Morrer (dirigido por David Ayer, em 2012) e, para o filme, passei cinco meses no sudeste de Los Angeles tentando entender o que é de fato ser um policial naquela área mais barra-pesada da cidade. Zanzei com eles, neste período, pelo menos três vezes por semana, o dia todo. Observei cenas de crime e, quase sempre, haviam repórteres setoristas de polícia por lá. Ou seja: eu os vi primeiro pela ótica dos policiais. Quando O Abutre virou realidade, entrei em contato com dois irmãos que rodam L.A. fazendo isso à noite e com quem já havia esbarrado durante as filmagens de Marcados para Morrer. De um modo bizarro, a vida deles me era familiar, tive quase uma sensação de déjà vu. Em seguida, comecei imediatamente a memorizar este filme como se fosse uma peça.

 

CC: Era essencial criar um tom específico para o Louis?

JG: Exatamente. Os solilóquios dele são gigantescos, nunca havia feito nada igual para um filme. Eu precisava estar muitíssimo bem preparado. Veja bem, fizemos Marcados para Morrer com 7 milhões de dólares, uma produção bem barata para os padrões de Hollywood. O Abutre custou apenas um pouco mais, 8,5 milhões de dólares, e só tínhamos 26 dias de filmagens, nem uma hora a mais. Eu sabia que, inevitavelmente, perderíamos uma ou outra locação, e a única saída para o caso de termos de alterar radicalmente a ordem de gravação seria eu ter o texto completo, de trás para a frente, na ponta da língua. Aqueles diálogos viraram minha bíblia. Cada ponto, cada vírgula, cada expressão, eu os tinha na cabeça.

CC: Não houve, então, espaço para improvisação. De que modo você prefere trabalhar?

JG: Não vou mentir, adoro improvisar e faço isso em quase todos os projetos em que me envolvo, é como prefiro trabalhar, mas neste caso era simplesmente impossível. O que mudávamos aqui e acolá era a intenção ou o contexto, mais especificamente a intensidade de determinadas falas. Em uma cena eu gritava, tal qual um celerado. Em outra, optamos por manter um estado quase letárgico, de alguém frio, sem contato com as emoções dos outros. O processo de edição, comandado pelo Dan (Gillroy), foi crucial para o filme ser o que ele é.

CC: Você passou a consumir informação e a pensar o jornalismo de modo diferente depois de mergulhar no mundo de Louis?

JG: Sim, mas é importante frisar que o trabalho dele e de seus pares é completamente diferente do dos paparazzi, por exemplo. Louis trabalha com vida e morte, não com o registro, muitas vezes banal, do cotidiano dos famosos. Mas, de alguma forma, o filme pergunta se o público, o espectador, o consumidor de informação, não é também um cúmplice ativo, um responsável direto pela existência dos repórteres mundo-cão. Tratamos de algo muito sério: do desejo desenfreado por informação em nosso tempo e da necessidade emergencial de profissionais capazes de determinar exemplarmente o grau de importância dos fatos.

Jake Gyllenhaal sair na rua e comprar um café na esquina não pode ter o mesmo destaque, nem sequer dividir espaço, aparecer na mesma página de um jornal e no mesmo segmento de um telejornal que o discurso anual do presidente dos EUA. Não pode! Quando essa distinção, se dissipa o que fica é o caos hierárquico. Veja bem, meu trabalho é a arte. Abomino, naturalmente, qualquer tipo de categorização aleatória, de castas, de rótulos, com uma exceção. O Abutre só reforçou minha certeza de que, no caso da informação, a hierarquização da produção e da edição de notícias jamais foi tão necessária quanto nos tempos de hoje. Se eu abrir meu celular agora, posso encontrar com facilidade algo similar ao que Louis faz. O perigo desta história não são os Louis da vida, e sim o campo fértil criado para este tipo de trabalho informativo, que só aumenta.

CC: Você diria que este é seu personagem mais assustador?

JG: Sinceramente, não sei. Porque a graça e a parte mais assustadora de O Abutre é a real possibilidade de se identificar, de simpatizar com ele. E até concordar com algumas de suas tiradas. Por exemplo, com a maneira como ele usa frases feitas comuns no mundo corporativo e da autoajuda, que são ironicamente exatas e críticas àquele universo específico. O senso ético do Louis é o de um jovem que se isolou da vida real e mantém uma relação muito mais estreita com o computador, com a internet. Uma de suas frases mais interessantes é: “Passo a maior parte do meu tempo conectado e eu sei absolutamente tudo sobre você”. Ele é uma metáfora ambulante que, ao mesmo tempo, revela algo profundo sobre esta geração.

O AbutreCC: Você cresceu em Los Angeles. O quão diferente são os noticiários locais do que é apresentado em O Abutre?

JG: Não muito, toda noite tem uma tragédia. E o que fazemos com a programação televisiva, seja no campo do entretenimento, seja abrindo espaço para esse tipo de narrativa no noticiário da noite, é uma decisão eminentemente política. Louis acredita que é um artista, que de fato está fazendo algo com inegável ressonância estética.

CC: O que você acha do argumento de que esses programas são mostrados por uma razão óbvia: a audiência?

JG: É uma questão complexa, mas, sim, somos, nós todos, cúmplices do que aconteceu com a indústria da informação no mundo ocidental. Veja bem: estou me incluindo neste barco. Já me peguei algumas vezes deixando uma notícia de fato importante quando alguém me manda uma mensagem para ver um gato caindo de quatro andares e sobrevivendo. “Jake, corra, alguém fez um vídeo, e o gato era tão fofo!” Eu vou ver, né? É parte da natureza humana. Não me interessa patrulhar o consumidor de informação, meu problema é com a ausência de discussão sobre este fenômeno. O Abutre é uma tentativa de discutir um tema fundamental para todos nós que não está sendo debatido como se deveria na esfera pública. Isso me assusta. Meu convite é para o espectador, para pensar um pouco em como criamos e alimentamos profissionais como o Louis.

CC: Louis tem trejeitos marcantes e uma voz singular. Você trabalhou muito nas características físicas dele?

JG: Passei muitos dias correndo no Griffith Park, em Los Angeles, aumentando a distância diariamente, até chegar a 24 Km. Queria que o Louis fosse algo assim como um coiote como os que vivem nas cercanias da cidade. Pensava na topografia de L.A. e em como eles são pilhados, vêm dos morros que circundam a cidade, cansados e famintos, com o olhar de quem vai fazer algo ruim. Era o Louis.

CC: Você também é o produtor-executivo do filme. A satisfação foi similar à de atuar?

JG: Em cada pedaço. Aprendi de fato como a coisa funciona. Eu amei esta experiência. O aspecto financeiro, a formação da equipe técnica, do elenco, a celebração de terminar cada dia de filmagem, a sensação é indescritível. É um jogo de xadrez diferente do que eu estava acostumado, não era mais o tabuleiro de se criar o personagem e seguir adiante com ele. Era mais. Quando entro no cinema agora, a primeira coisa que faço é perguntar ao meu diretor qual o volume ideal para a projeção. Aprendi que isso é tão essencial para se contar a história quanto minha atuação. Ambição, trabalho duro, jogo de cintura e fé são fundamentais para o produtor-executivo, o que, ironicamente, eram as armas principais do Louis também no roteiro do filme. Ou seja, casou direitinho.

O AbutreCC: Os críticos seguem dizendo que este é seu melhor trabalho no cinema. Você concorda com eles?

JG: Concordo que esta é uma questão completamente subjetiva. Por outro lado, estou extremamente orgulhoso deste filme e satisfeito com o que fiz. Este ano foi particularmente intenso para mim, filmei Demolition, de Jean-Marc Vallée, Southpaw de Anthony Fuqua, e Everest, de Baltasar Kormákur (todos com estreia marcada no Brasil em 2015), mas em cada hora livre que tive me peguei tentando convencer as pessoas a ver O Abutre. Dá para você ter ideia do quanto eu amo este filme. O que posso dizer é que nunca me orgulhei tanto de algo que fiz no cinema.

CC: É maluquice encontrar algo de outro de seus personagens mais marcantes no cinema, o Donnie Darko, do filme de mesmo nome, no Louis?

JG: É! (risos!) Mas eles são como primos de segundo grau que não se vêem há tempos, né? Aliás, eu não gostaria de vê-los de jeito nenhum na mesma mesa de jantar em um feriado nacional. Ia dar confusão. Mas minha família, coitados, eles têm de lidar com este encontro, de uma maneira ou de outra, todos os anos, no Dia de Ação de Graças (rindo muito). Há, em comum, uma maneira de pensar fantasiosamente e uma grande inocência nestes dois personagens.

CC: Como fazer a audiência se identificar, torcer por alguém como o Louis, através da exposição desta inocência?

JG: Lembro que estava olhando os repórteres de tevê de Los Angeles correndo de um lado para o outro atrás da tragédia da vez durante o processo de pesquisa de O Abutre quando tive o clique: “Eles são como crianças em busca da próxima árvore para subir e do próximo objeto para queimar”. Eles são muito mais perigosos, claro, mas a inocência, o aspecto alucinógeno, também presente no Donnie Darko, estava lá. O Louis tem sua própria viagem psicodélica também.

Eduardo Graça – Carta Capital

Birdman”, “Boyhood” e “O Jogo da Imitação” lideram Globo de Ouro 2015

"O Jogo da Imitação", "Birdman", "Boyhood" e "Still Alice" estão entre os indicados do Globo de Ouro 2015

  • “O Jogo da Imitação”, “Birdman”, “Boyhood” e “Still Alice” estão entre os indicados do Globo de Ouro 2015

A Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood anunciou nesta quinta (11) os indicados ao Globo de Ouro 2015. Como já era esperado, “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”, de Alejandro González Iñárritu, foi o destaque, com sete indicações, enquanto outro favorito, “Boyhood – Da Infância à Juventude“, de Richard Linklater, dividiu o segundo lugar com “O Jogo da Imitação” –ambos tiveram cinco indicações.

“Birdman” foi indicado nas categorias melhor filme de comédia ou musical, ator de comédia ou musical (Michael Keaton), diretor, roteiro (Alejandro González Inarritu, Nicolas Giacobone, Alexander Dinelaris Jr.), atriz coadjuvante (Emma Stone), ator coadjuvante (Edward Norton) e trilha sonora (Antonio Sanchez).

“Boyhood” foi lembrado como melhor filme de drama, diretor, ator coadjuvante (Ethan Hawke), atriz coadjuvante (Patricia Arquette) e roteiro (Linklater). Já “O Jogo da Imitação” ficou com melhor filme de drama, ator de drama (Benedict Cumberbatch), atriz coadjuvante (Keira Knightley), roteiro (Graham Moore) e trilha sonora (Alexandre Desplat).

“Birdman” se destacou em festivais e entre os indicados do SAG Awards, prêmio do Sindicato dos Atores de Hollywood, que tem muitos votantes em comum com o Oscar. Protagonizado por Michael Keaton, o filme retrata um ator decadente, marcado por ter interpretado um super-herói, que tenta retomar a carreira com uma peça na Broadway.

Já “Boyhood”, que acompanha o crescimento de um garoto durante 12 anos, vinha ganhando força com prêmios de diversas associações de críticos. “O Jogo da Imitação”, por outro lado, era aposta certa apenas como melhor ator de drama, para Benedict Cumberbatch, e ganha força com as outras indicações.

Entre os melhores filmes do ano de drama também foram selecionados “Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo”, “Selma” e “A Teoria de Tudo”. “O Grande Hotel Budapeste“, “Caminhos da Floresta”, “Pride” e “Um Santo Vizinho” completam a lista de melhor comédia ou musical.

A categoria em que as indicações foram mais óbvias foi a de melhor atriz de drama, com todas as favoritas recebendo indicações: Jennifer Aniston, por “Cake”; Felicity Jones, por “A Teoria de Tudo”; Julianne Moore, por “Still Alice”; Rosamund Pike, por “Garota Exemplar“; e Reese Witherspoon, por “Livre”.

Nas animações, não houve grandes surpresas: os selecionados foram “Operação Big Hero”, “Festa no Céu“, “Os Boxtrolls“, “Como Treinar o seu Dragão 2” e “Uma Aventura Lego“.

Já nas canções originais, diversos artistas pop receberam indicações: “Big Eyes”, de Lana del Rey para “Grandes Olhos”; “Glory” de John Legend e Common para “Selma”; “Mercy Is”, de Patty Smith e Lenny Kaye para “Noé“; “Opportunity”, de Sia para “Annie”; “Yellow Flicker Beat”, de Lorde para “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1“.

O Globo de Ouro também apresentou suas indicações na área de TV, com destaque para as séries “Fargo” e “True Detective”.

Os vencedores serão conhecidos no dia 11 de janeiro de 2015, durante cerimônia em Los Angeles que novamente terá Tina Fey e Amy Poehler como apresentadoras.

Como já havia sido anunciado, o ator, diretor e produtor George Clooney, vencedor do Oscar, vai receber o prêmio Cecil B. DeMille, um Globo de Ouro honorário por sua contribuição ao cinema.

Em 2014, os grandes destaques da premiação foram “12 Anos de Escravidão” e “Trapaça”. O primeiro levou o prêmio de melhor filme de drama, enquanto o segundo ficou com melhor filme de comédia ou musical, melhor atriz (Amy Adams) e melhor atriz coadjuvante (Jennifer Lawrence).

Indicados ao Globo de Ouro 2015 – 24 vídeos


Veja a lista completa:

Melhor filme de drama
Boyhood – Da Infância à Juventude
“Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo”
“O Jogo da Imitação”
“Selma”
“A Teoria de Tudo”

Melhor filme de comédia ou musical
“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”
O Grande Hotel Budapeste
“Caminhos da Floresta”
“Pride”
“Um Santo Vizinho”

Melhor diretor
Alejandro González Iñárritu (“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”)
Wes Anderson (“O Grande Hotel Budapeste”)
Ava DuVernay (“Selma”)
David Fincher (“Garota Exemplar“)
Richard Linklater (“Boyhood – Da Infância à Juventude”)

Melhor ator de drama
Steve Carell (“Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo”)
Benedict Cumberbatch (“O Jogo da Imitação”)
Jake Gyllenhaal (“O Abutre”)
David Oyelowo (“Selma”)
Eddie Redmayne (“A Teoria de Tudo”)

Melhor ator de comédia ou musical
Ralph Fiennes (“O Grande Hotel Budapeste”)
Michael Keaton (“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”)
Bill Murray (“Um Santo Vizinho”)
Joaquin Phoenix (“Vício Inerente”)
Christoph Waltz (“Grandes Olhos”)

Melhor atriz em drama
Jennifer Aniston, “Cake”
Felicity Jones, “A Teoria de Tudo”
Julianne Moore, “Still Alice”
Rosamund Pike, “Garota Exemplar”
Reese Witherspoon, “Livre”

Melhor atriz de comédia e musical
Amy Adams (“Grandes Olhos”)
Emily Blunt (“Caminhos da Floresta”)
Helen Mirren (“A 100 Passos de Um Sonho”)
Julianne Moore (“Mapa para as Estrelas”)
Quevenshane Wallis (“Annie”)

Melhor ator coadjuvante
Robert Duvall (“O Juiz“)
Ethan Hawke (“Boyhood – Da Infância à Juventude”)
Edward Norton (“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”)
Mark Ruffalo (“Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo”)
J.K. Simmons (“Whiplash: Em Busca da Perfeição”)

Melhor atriz coadjuvante
Patricia Arquette, “Boyhood – Da Infância à Juventude”
Keira Knightley, “O Jogo da Imitação”
Emma Stone, “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”
Meryl Streep, “Caminhos da Floresta”
Naomi Watts, “Um Santo Vizinho”

Melhor animação
“Operação Big Hero”
Festa no Céu
Os Boxtrolls
Como Treinar o seu Dragão 2
Uma Aventura Lego

Melhor roteiro
Wes Anderson, “O Grande Hotel Budapeste”
Gillian Flynn, “Garota Exemplar”
Alejandro González Inarritu, Nicolas Giacobone, Alexander Dinelaris Jr., “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)”
Richard Linklater, “Boyhood – Da Infância à Juventude”
Graham Moore, “O Jogo da Imitação”

Melhor Filme Estrangeiro
“Força Maior” (Suécia)
“Gett: The Trial of Viviane Amsalem” (França)
“Ida” (Polônia)
“Leviatã” (Rússia)
“Tangerines” (Estônia)

Melhor canção
“Big Eyes” – “Grandes Olhos” (Lana Del Rey)
“Glory” – “Selma” (John Legend, Common)
“Mercy Is” – “Noé” (Patty Smith, Lenny Kaye)
“Opportunity” – “Annie”
“Yellow Flicker Beat” – “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1” (Lorde)

Melhor trilha sonora
“O Jogo da Imitação” – Alexandre Desplat
“A Teoria de Tudo” – Jóhann Jóhannsson
“Garota Exemplar” – Trent Reznor
“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” – Antonio Sanchez
Interestelar” – Hans Zimmer

Fonte :. Uol -SP

Jogos Vorazes é um paradoxo na cultura pop contemporânea

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Nesta primeira parte do capítulo final da saga, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) está no Distrito 13, após literalmente destruir os jogos para sempre. Sob a liderança da Presidente Coin (Julianne Moore) e o aconselhamento de seus amigos, Katniss mais uma vez abre suas asas para salvar Peeta (Josh Hutcherson) e uma nação movida por sua coragem. O livro no qual o filme é baseado é o terceiro da trilogia escrita por Suzanne Collins, com mais de 65 milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos. Estreia no Brasil: 19-11.

Ao chegar à primeira parte de seu último segmento, Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1, a franquia “Jogos Vorazes” (mais os filmes do que os livros) é um paradoxo na cultura pop contemporânea. É, claro, fruto de Hollywood, da indústria do entretenimento e produzido com o objetivo primordial de gerar lucros. Por outro lado, é também o retrato de uma sociedade opressiva, na qual a riqueza e o poder estão sob o controle de poucos, que exploram e subjugam milhares que, por sua vez, vão finalmente vão rebelar-se numa revolução socialista visando redistribuição desse patrimônio.

Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) é a inocente útil para tal revolução. Bem, nem tão inocente, mas bastante útil com seu poder de mobilização das massas desde quando assumiu o lugar de sua irmã Prim (Willow Shields), escolhida para os Jogos Vorazes (no primeiro filme, de 2012), nos quais jovens dos vários distritos de um lugar chamado Panem (que é o que sobrou dos EUA) competiam num reality show de selvageria e morte. Ao tomar o lugar da caçula e subverter as regras da competição, a protagonista mostra que existem fissuras no sistema – essas se materializam finalmente na conclusão do segundo filme da série, lançado no ano passado.

Agora que Jogos Vorazes entra em sua reta final – o terceiro livro de Suzanne Collins é dividido em duas partes, assim, o próximo e último filme será lançado daqui a um ano – não há mais tempo para os jogos propriamente ditos, na distopia pós-apocalíptica desse futuro obscuro até então orquestrada pelo presidente Snow (Donald Sutherland). A suposta destruição do Distrito 13 visou servir de exemplo a todos os rebeldes. Era o que se supunha, pois quando este é encontrado como foco de resistência, oculto no subsolo daquilo que o lugar foi um dia, ressurge a esperança. E Katniss é a heroína certa para mobilizar os outros 12 distritos a continuar a rebelião.

Como já ficou claro nos outros filmes, Katniss é uma protagonista feminina peculiar. Encontrar o grande amor de sua vida, casar e ter filhos estão longe de ser seu objetivo de vida – embora tenha dois pretendentes, o valente e prestativo Gale (Liam Hemsworth), seu amigo de infância; e Peeta (Josh Hutcherson), garoto que conheceu quando participou pela primeira vez dos Jogos Vorazes e por quem nutre sentimentos dúbios de ternura e gratidão, já que acredita que lhe deve sua vida. Não, coisas de amor não têm vez para a garota, para quem sobreviver num mundo inóspito é sua meta primordial. Só por essa atitude numa sociedade patriarcal, Katniss já se destaca.

Se a garota é a cara da revolução – liderando os rebeldes e despertando o sentimento de rebeldia em todos os distritos –, a mente por trás desta é a Presidente do Distrito 13, Alma Coin (Julianne Moore), cujos longos cabelos grisalhos parecem guardar mais do que anos de sabedoria. Ao lado de Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman), que também já foi um dos organizadores dos Jogos na Capital, ela trama a derrocada e derrubada da elite. Este filme, o 3.1, apresenta, então, a construção da transformação, que deverá eclodir no segmento final.

Agora, o que realmente importa: o quanto de nosso presente “Jogos Vorazes” é capaz de perceber? Na verdade, muito, e de formas variadas. Seu cenário distópico serve a interesses de ambos os lados do espectro político – e disso surge o apelo quase universal dos filmes e dos livros: eles podem agradar a qualquer ideologia. Eles podem ser um retrato do mundo do capital financeiro – cada competidor é um investimento precioso de seu distrito – como também do mercado do trabalho – cada competidor luta por uma vaga numa sociedade em crise financeira eterna.

Se a ideia da transformação, da revolução, é plantada desde o primeiro filme, e alimentada em cada um deles, é preciso também lembrar que esta é uma série produzida por Hollywood, uma das indústrias mais lucrativas dos EUA – ao lado da bélica, outra que também está no centro do filme. Afinal, os Jogos Vorazes são todas as guerras em que o país se envolveu e ainda se envolve: é preciso dar alguma ocupação a milhares de jovens que não encontram emprego na pátria-mãe. Voltando a Hollywood: cinema é indústria e precisa gerar lucro, não instigar revoluções (ao menos não os grandes blockbusters). E, ao culpar a televisão (os Jogos Vorazes são televisionados), o cinema transfere a culpa da alienação para outro meio – quando ele mesmo é tão ou mais culpado por isso. Sem contar que transformar a trilogia de livros em quatro filmes é mais uma evidência do quanto este tipo de cinema é focado no business.

Enfim, como algo feito para gerar lucros e mais lucros pode ser uma crítica à alienação ou à concentração de riquezas? É nessa contenção, nessa incapacidade de transpor os seus limites, de pensar além do que lhe é dado que reside o grande paradoxo da série. E também a sua beleza.

Publicado no CineWeb 

Por Alysson Oliveira

http://cineweb.com.br/filmes/filme.php?id_filme=4666

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