Já ouviu falar de Nollywood? Cinema nigeriano põe africanos em cena

 

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Atrizes checam o roteiro antes da gravação de uma cena de filme no vilarejo de Illah (Nigéria). Conhecida como Nollywood, a indústria cinematográfica do país dá chance aos africanos de se identificarem com aquilo que veem nas telas e nas TVs
Sentado numa banqueta azul sob o calor sufocante, Ugezu J. Ugezu, um dos principais cineastas da Nigéria, reescrevia furiosamente seu script enquanto as câmeras se preparavam para rodar. “Corta!”, gritou ele, depois de terminar uma cena importante, um confronto entre os dois personagens principais. Então, quase sem fôlego, acrescentou: “É o melhor que dá para fazer”.

Esse foi o sétimo e último dia de filmagens em uma aldeia perto daqui para “Beyond the Dance” (Além da Dança), a história de Ugezu sobre a escolha de uma noiva por um príncipe africano. A produção foi realizada em ritmo acelerado.

“Em Nollywood, não perdemos tempo”, disse ele. “Não foi a profundidade técnica que tornou nossos filmes tão populares. Foi a história. Nós contamos histórias africanas.”

As histórias narradas pela florescente indústria cinematográfica da Nigéria, conhecida como Nollywood, tornaram-se um fenômeno cultural na África, a vanguarda da crescente influência do país em todo o continente, na música, na comédia, na moda e até na religião.

País mais populoso da África, a Nigéria superou sua rival, África do Sul, como maior economia do continente há dois anos, graças em parte ao crescimento explosivo da indústria de cinema. Nollywood, termo que ajudei a cunhar com um artigo em 2002, quando os filmes da Nigéria começavam a ganhar popularidade fora do país, é uma expressão do ilimitado empreendedorismo nigeriano e a percepção do país como líder natural na África, destinado a falar em nome do continente.

“Os filmes nigerianos são muito populares na Tanzânia e culturalmente afetaram muita gente”, disse Songa wa Songa, jornalista tanzaniano. “Muita gente hoje fala com sotaque nigeriano aqui graças a Nollywood. Os nigerianos conseguiram, por meio de Nollywood, exportar quem eles são, sua cultura, seu estilo de vida, tudo.”

Nollywood gera cerca de 2.500 filmes por ano, o que faz dela a maior produtora depois de Bollywood, na Índia. Seus filmes deslocaram os dos Estados Unidos, da China e da Índia nos televisores que há em todos os bares, salões de cabeleireiro, aeroportos e lares da África.

Glenna Gordon/The New York Times

Crianças assistem a filme de Nollywood em Igbuzor (Nigéria)
A indústria emprega um milhão de pessoas, perde só para a agricultura na Nigéria, bombeando US$ 600 milhões anualmente na economia nacional, segundo um relatório de 2014 da Comissão de Comércio Internacional dos EUA. Em 2002, fez 400 filmes e faturou US$ 45 milhões.

Nollywood repercute em toda a África com suas histórias do passado pré-colonial e de um presente apanhado entre a vida nas aldeias e a modernidade urbana. Os filmes exploram as tensões entre os indivíduos e suas famílias, entre a atração da vida urbana e a da aldeia, entre o cristianismo e as crenças tradicionais. Para inúmeras pessoas, em um lugar que por muito tempo foi moldado por estrangeiros, Nollywood está redefinindo a experiência africana.

“Duvido que uma pessoa branca, um europeu ou norte-americano, possa apreciar os filmes de Nollywood como pode um africano”, disse Katsuva Ngoloma, linguista da Universidade de Lubumbashi, na República Democrática do Congo, que escreveu sobre a importância de Nollywood. “Mas os africanos, ricos, pobres, todos se enxergam nesses filmes de alguma maneira.”

Em Yeoville, um bairro de Johannesburgo que é um cadinho cultural de migrantes, uma costureira de Gana recebeu encomendas há pouco tempo das últimas modas vistas nos filmes de Nollywood. Cabeleireiras da República Democrática do Congo, de Moçambique e do Zimbábue, trabalhando em salões ou nas ruas, ofereciam trançados de cabelo nos estilos preferidos das atrizes da Nigéria.

“Os filmes nigerianos expressam como nós vivemos enquanto africanos, o que experimentamos em nossa vida cotidiana, coisas como a feitiçaria, as disputas entre sogras e noras…”, disse Patience Moyo, 34, uma trançadora de cabelos do Zimbábue. “Quando você vê esses filmes, sente que está realmente acontecendo. De alguma maneira eles tocam sua vida.”

Quando fiz a primeira reportagem sobre essa indústria, há mais de uma década, os filmes eram montados de modo tão improvisado que, durante uma entrevista, um diretor de produção me ofereceu o papel de um homem branco maligno (apesar de minha origem japonesa, ele me afirmou que eu estava bastante próximo.)

Depois que casualmente criei o termo “Nollywood” em uma conversa com um colega, um editor fez este título para uma reportagem: “LA e Bombaim, abram alas para Nollywood”.

O nome pegou e se espalhou. Mas o sucesso não tirou de Nollywood suas maneiras liberais: em minha recente visita a uma aldeia nigeriana onde meia dúzia de filmes estavam sendo feitos, um produtor se aproximou e me ofereceu o papel de um homem branco maligno que traz um vampiro para a Nigéria.

Ainda em 2002, os filmes eram simplesmente conhecidos como vídeos caseiros da Nigéria. Foram popularizados primeiro por videocassetes negociados por toda a África, mas hoje Nollywood está disponível em canais de televisão via satélite e a cabo, assim como em serviços de streaming, como o iRokoTV.

Em 2012, reagindo à crescente popularidade na África francófona, um canal via satélite chamado Nollywood TV começou a oferecer filmes 24 horas dublados em francês. A maioria dos filmes nigerianos é em inglês, embora alguns sejam em uma das principais línguas étnicas do país.

Até a ascensão de Nollywood, os filmes feitos na África de língua francesa, com verbas do governo francês, dominavam o setor no continente. Mas esses filmes atendiam aos gostos dos críticos e do público ocidentais e conquistaram poucos fãs na África, sem deixar uma marca cultural.

Em Nollywood, porém, os filmes ainda são financiados por investidores privados que esperam ter lucro.

“Você quer fazer um filme? Tem o roteiro? Você procura imediatamente o dinheiro e faz o filme”, disse Mahmood Ali-Balogun, um importante cineasta nigeriano. “Quando você consegue uma verba da França ou da União Europeia, eles podem ditar onde você coloca a câmera, o acabamento do roteiro, não é um bom modelo para nós na África.”

Ali-Balogun falava de seu escritório em Surulele, Lagos, berço de Nollywood. A produção de filmes desde então passou para outras cidades, especialmente Asaba, que já foi uma sonolenta capital estadual no sudeste da Nigéria. Em qualquer dia, podem-se encontrar aqui mais de dez equipes filmando –obras “épicas” com roteiros antigos como “Além da Dança” estão em produção nas aldeias próximas, enquanto filmes de “glamour” sobre a vida moderna usam a própria cidade como cenário.

Uma recente produção nessa categoria foi “Okada 50”, a história de uma mulher e seu filho que, depois de deixarem a aldeia, abrem uma empresa de caixões na cidade e aterrorizam seus vizinhos.

A maioria dos filmes tem orçamento de cerca de US$ 25 mil e é filmada em uma semana.

Quando terminados em Asaba, os filmes chegam a todos os cantos da África, lançados originalmente em inglês, dublados em francês ou em línguas africanas e às vezes adaptados, reembalados e muitas vezes pirateados para plateias locais. Muitos filmes também são promovidos por um relacionamento simbiótico com o cristianismo pentecostal na Nigéria, que pastores exportaram para toda a África.

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Na República Democrática do Congo, pastores que visitaram a Nigéria anos atrás voltaram com vídeos e os mostraram na igreja para dar aulas de cristianismo e atrair novos membros, disse Katrien Pype, uma antropóloga belga da Universidade de Leuven que escreveu sobre o fenômeno.

Hoje em Kinshasa, a capital do Congo, Nollywood permeia a cultura dominante. As mulheres locais copiam a moda, a maquiagem e os penteados das atrizes; músicos locais resmungam contra a popularidade das importações nigerianas, como Don Jazzy e os gêmeos P-Square.

Tresor Baka, um dublador congolês que traduz filmes nigerianos para o idioma local, o lingala, disse que os filmes são populares porque “a Nigéria conseguiu reconciliar a modernidade com os costumes antigos, sua cultura e tradições”.

Nollywood também criou um modelo para a produção de cinema em outros países africanos, disse Matthias Krings, um especialista alemão em cultura popular africana, professor na Universidade Johannes Gutenberg.

Em Kitwe, Zâmbia, os cineastas locais recentemente faziam seu último filme ao verdadeiro estilo de Nollywood: um melodrama familiar filmado em dez dias, em uma residência, com orçamento de US$ 7 mil. Gravado em DVD, o filme será vendido em Zâmbia e nos países vizinhos.

Reconhecendo a influência do cinema nigeriano, o produtor do filme, Morgan Mbulo, 36, disse: “Agora podemos contar nossas próprias histórias”.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

 

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