Após ‘Que Horas Ela Volta?’, Anna Muylaert retorna às origens com ‘Mãe Só Há Uma’

POR GUILHERME GENESTRETI

“Mãe Só Há Uma”, primeiro filme da diretora paulista Anna Muylaert feito após o fuzuê de “Que Horas Ela Volta?”, é o oposto do longa protagonizado por Regina Casé: mais sutil, menos maniqueísta, mais econômico… É quase um retorno às origens da diretora de “Durval Discos” e “É Proibido Fumar”.

“Mãe Só Há Uma” fez sua estreia mundial na noite desta sexta (12), no Festival de Berlim.

Se “Que Horas..” levou o prêmio do público no ano passado nessa mesma mostra, ao menos no quesito entusiasmo, o novo longa não deixa a desejar: foi intensamente aplaudido, ainda que por uma plateia composta em grande parte por brasileiros –estavam ali, por exemplo, o diretor Karim Aïnouz e o diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel.

Apesar do entusiasmo, a diretora estava notadamente na defensiva quando apresentou o longa.

“Depois que pisei aqui no ano passado, minha vida mudou”, disse. “Foram centenas de horas falando sobre os problemas sociais brasileiros e o machismo no cinema. Relutei em voltar, pensando que poderia perder e me sentir deprimida. Mas minha função não é fazer gols, é fazer flores.”

 

Marina Zaparoli  e Naomi Nero em cena do filme "Mãe Só Há Uma", de Anna Muylaert Foto: Divulgação
Marina Zaparoli e Naomi Nero em cena do filme “Mãe Só Há Uma”, de Anna Muylaert Foto: Divulgação

Em “Mãe”, sai de cena o pano social das diferenças entre patrões e empregadas domésticas e entra um tema igualmente quente: a transexualidade –no caso, vivida no filme pelo adolescente Pierre (Naomi Nero).

Identidade, aliás, é questão central no longa: enquanto Pierre flerta com o que pode vir a se tornar o seu novo gênero, tem de enfrentar uma reviravolta: descobre que a mãe que o criou não é a sua biológica, de quem ele foi roubado ainda bebê. A trama é inspirada no sequestro real do bebê Pedrinho, roubado numa maternidade brasiliense em 1986.

Se Pierre tem de aceitar seus novos pais, eles terão também de aceitar sua nova identidade de gênero. O filme se equilibra entre os dois conflitos simultâneos.

Irá se frustrar quem espera em “Mãe” a mesma toada de “Que Horas”. Há muito mais nuances na relação entre as personagens do que no confronto declarado entre patroa versus empregada e sua filha do filme de 2015. “Mãe” vai se construindo com muito mais sutilezas, falas improvisadas e a atenção da diretora a pequenos detalhes cotidianos: os diálogos espontâneos, os gestos quase imperceptíveis –uma gama de elementos que tinha deixado de aparecer em “Que Horas”.

Dani Nefussi interpreta a mãe biológica e a mãe de mentira

Matheus Nachtergaele faz o pai biológico de Pierre. As cenas em que ele explode com o filho, especialmente uma rodada num boliche, são muito mais repletas de nuances do que as cenas de conflito entre Regina Casé e Karine Telles em “Que Horas Ela Volta?”.

O filme anterior também abria alguma margem para o improviso dos atores (vide aquelas encenadas por Lourenço Mutarelli), mas era muito mais contido nessa busca por espontaneidade. Nesse aspecto, “Mãe Só Há Uma” ganha de lavada. Ganha também quem era mais fã da Muylaert do início da carreira: menos ‘cinemão’ e mais naturalismo.

Sem Legendas-Noticias do Cinema Brasileiro

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