Diretores cobram políticas contra monopólio do cinema americano

Durante o Festival Internacional de Cinema de Santiago, os cineastas cobraram decisão política dos governos contra monopólio das distribuidoras para possibilitar o acesso do público às produções de filmes nacionais

Durante o segundo Festival Internacional de Cinema de Santiago, realizado entre os dias 9 e 14 de agosto, cineastas denunciaram a falta de espaço na divulgação e distribuição do cinema latino-americano, sufocado pelo monopólio da indústria cinematográfica dos Estados Unidos.

Os cineastas Eliseo Subiela, da Argentina, Silvio Caiozzi, do Chile, e José Joffily, do Brasil, participaram do Festival que exibiu mais de 90 filmes de vários países, entre documentários, longas de ficção e curta-metragens. No evento os cineastas denunciaram que há um problema de decisão política dos governos para possibilitar o acesso do público às produções de filmes da América-Latina. “Temos um inimigo que é o cinema norte-americano”, ressaltou o argentino Subiela, afirmando que “é preciso criar políticas de defesa cultural para o setor”.

Para se ter uma idéia, 85% dos cinemas são ocupados apenas por cinco distribuidoras norte-americanas – Columbia, Fox, Universal Pictures e Warner – restando apenas 15% para a produção de todos os outros países.

Recordando o histórico do cinema chileno, Caiozzi afirma que no Chile, mesmo havendo aumento na produção de filmes, “não haverá resultado estável na história se não ocorrer um desenvolvimento na divulgação e distribuição”.

A produção norte-americana que invade as telas dos cinemas na América Latina e também em diversos outros países, não só sufoca as produções nacionais, como são feitas para submeter o pensamento das pessoas à sua cultura, ou seja, em sua maioria à cultura do individualismo, dos rambos, da “polícia do mundo”. São feitas para impedir que os países contem a sua história ao mundo, para impedir que os povos tenham identificação com seus Heróis, com seus antepassados e com sua realidade.

É o que vem denunciando também o cineasta argentino Fernando Solanas e o italiano Citto Maselli. Solanas afirmou em entrevista durante o Fórum Social Mundial, em Caracas, no ano passado, que “a memória é a principal arma de defesa dos povos, ainda mais com o grande aparato de desinformação que existe hoje e que tenta destruir a memória dos povos. Mas a resistência, a participação popular são fundamentais. E é imprescindível mostrar o que realmente aconteceu, que nunca é incorporado à história dos vencedores”.

COTAS DE EXIBIÇÃO

Conhecido como Fernando “Pino” Solanas, há alguns anos o cineasta vem se dedicando à investigação e à denúncia da recente crise na Argentina, trabalho que gerou uma série de quatro documentários, entre eles “Memórias do Saqueio”. Iniciou sua carreira com o filme “La Hora de los Hornos”, (1968), um clássico sobre a ditadura na Argentina, e em 2004 foi homenageado com o Urso de Ouro especial no Festival Internacional de Cinema de Berlim pelo conjunto de sua obra.

Solanas também coloca em questão o papel que a televisão tem no sentido de possibilitar o acesso aos filmes latino-americanos. “O cinema nacional deve ser exibido nas TVs. É preciso discutir e impor leis que regulamentem o espaço audiovisual. As emissoras têm de lembrar que esse espaço é uma concessão e pertence ao povo, e não à Globo, Televisa ou à família Cisneros”, afirma Solanas. Para ele, a criação de cotas de exibição para filmes nacionais e latinos, “ajudaria a resgatar a dignidade desses povos expropriados”.

JÚLIA CRUZ

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