Mestre do jogo__Como Peter Dinklage conquistou Game of Thrones simplesmente sendo ele mesmo

Mestre do jogo

por BRIAN HIATT | TRADUÇÃO: LIGIA FONSECA

É bom ser Peter Dinklage atualmente – uma filha linda, um casamento feliz, uma casa nas montanhas, um trabalho legal em Game of Thrones, o “triunfo apesar das adversidades” que sua carreira se tornou (embora ele hesite em reconhecer isso: “Triunfei porque sou uma adversidade?”). Não há muito do que reclamar, mas há uma irritação que perdura: em público, Dinklage não pode se esconder.

“Não consigo ser anônimo”, diz, “por causa da minha estatura” (1,34 m, para ser exato). Chapéus e óculos de sol não ajudam. Ele parece estar mais à vontade consigo mesmo do que a maioria dos humanos em qualquer tamanho ou forma: basicamente não anda, mas desfila. “Ele é quem é”, diz Lena Headey, que faz a irmã dele, Cersei Lannister, em Game of Thrones. “Não há nada nele que não seja totalmente confiante.” No entanto, tomando uma Guinness na churrascaria New Paltz (um lugar que ele escolheu, apesar de ser vegetariano desde a adolescência), Dinklage alega que é só pose.

“Toda a malemolência é só uma defesa”, afirma. “Quando as pessoas te relembram tanto quem você é – não pela fama, mas pela altura, durante a vida inteira – ou você se esconde em um canto escuro, ou usa isso com orgulho, como uma armadura.”

Quase certamente não é intencional, mas Dinklage está praticamente citando o evangelho de Tyrion Lannister, seu personagem em Game of Thrones, um zero à esquerda devasso, maquiavélico e secretamente justo. O próprio Dinklage não tem uma ideia em particular sobre por que a série se tornou um fenômeno tão grande: “Não consigo explicar por que o seriado é tão popular”, declara. “Star Wars ou Senhor dos Anéis lidam com grandes mitos ao estilo de Joseph Campbell, o bem e o mal. Nosso programa não é tão claro assim. É uma espécie de antítese dessas coisas – aquelas que não são preto no branco.” Tanto quanto qualquer outro personagem, é Tyrion que personifica essa ambiguidade moral, como o filho semipária de uma família rica e manipuladora que desenvolveu uma fraqueza por “bastardos, aleijados e coisas quebradas”.

Ele também tem as melhores falas. “Tyrion é o palhaço da turma”, diz George R.R. Martin, criador da série de livros que inspirou o seriado. “Sua sagacidade o fez ser aceito pelos personagens valentões, intimidadores e dominantes ao redor dele.”

Tudo começou em um porão de classe média em Nova Jersey, com algumas marionetes, um triciclo e um álbum duplo do The Who. Quando Dinklage tinha 6 ou 7 anos, ele e o irmão mais velho (agora um violinista de sucesso) montavam espetáculos no porão da casa dos pais para “velhinhos da vizinhança. Fazíamos Quadrophenia com bonecos”, ele relembra. “Montávamos baterias com latas de atum, fazíamos o show inteiro e vendíamos ingressos por uma tampinha de garrafa ou algo assim. Colocávamos os alto-falantes deitados no chão do andar de cima para o som sair do teto. Basicamente éramos os Batutinhas de Nova Jersey.”

Na infância, Dinklage sofreu cirurgias dolorosas de raspagem de ossos, “um procedimento comum” para evitar complicações da acondroplasia, a condição genética que causa seu nanismo. O pai, um vendedor, e a mãe, professora de música, nunca falaram muito sobre a altura do filho. “Se houvesse um filme sobre nossa vida, haveria uma conversa em cada cena, mas não, nunca falamos”, ele explica. “A vida não é assim. Ninguém fala sobre nada! Acho que isso teria se destacado e eu teria lembrado ou pensado: ‘Argh, você está sendo esquisito, sai fora’.”
Entrevista RS: George R.R. Martin.
Os pais explicaram sobre a condição dele no começo? Dinklage balança a cabeça. “Não há nada a explicar. É como explicar suas mãos. Você cresceu com isso, faz parte de quem você é, não é como se algo tivesse acontecido da noite para o dia, como uma doença. Você precisa explicar uma doença ou um ferimento repentino. Mas quando é parte de sua fisionomia?” Ele faz uma pausa. “Lembro que me assisti em uma peça da escola no vídeo e pensei: ‘Uau, sou muito mais baixo do que as outras crianças’. Aquilo foi de cortar o coração.”

Na escola católica que frequentou, ele continuou fazendo peças – eram um refúgio em um lugar onde ele não se encaixava: “Era um garoto carrancudo que fumava e usava roupa preta e ia para a escola cheia de esportistas”. Dinklage não precisa falar muito sobre a adolescência para deixar claro que ela não foi, na maior parte do tempo, divertida: menciona o pavor de alguns atletas e que não ser “muito popular” deixou algumas feridas psicológicas que demoraram para sarar. “Agora, estou tão deprimido”, ele meio brinca, meio fala sério, depois de discutir o assunto por dois minutos. “Não podemos falar sobre Cantando na Chuva ou algo assim?”

No 2º ano, uma professora que reconheceu o talento dele decidiu mostrá-lo em uma peça chamada Sharon’s Grave. “Foi a primeira vez em que representei um papel escrito para alguém do meu tamanho”, lembra. “Ele era um cara infeliz carregado nas costas do irmão mais velho e burro. Foi tipo ‘Ah, uau, há papéis por aí’. Só mais tarde fugi de papéis específicos para gente da minha estatura.”

Você continua lendo esta matéria na edição 93 da Rolling Stone Brasil, Junho/2014.

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