Cinco filmes cult que traduzem a alma russa

6/04/2014 Anastassia Gorbátova, especial para Gazeta Russa
Lênin disse certa vez que “de todas as artes, o cinema é a mais importante para nós” – e ele continua certo. Os russos copiavam seus personagens favoritos, se vestiam e comportavam como eles, liam os mesmos livros, escutavam as mesmas músicas. A Gazeta Russa compilou os cinco filmes mais bem sucedidos que influenciaram a mentalidade nacional.
Cinco filmes cult que traduzem a alma russa
Filme “Carnival Night” trouxe fama instantânea à atriz Liudmila Gurtchenko Foto: Kinopoisk.ru

1.    Carnival Night (Noite de Carnaval, em tradução livre)

Comédia musical, 1956, 49 milhões de espectadores

Enquanto os funcionários de uma Casa de Cultura se preparam para a festa de Ano Novo, o burocrata velho e pomposo Ogurtsov tenta transformar a celebração em uma entediante palestra e estragar toda a diversão. Hoje em dia, o enredo parece banal, mas em 1956 foi visto como inovador. Depois da morte de Stálin, três anos antes, o regime passou por um período de indulgência política conhecido como “degelo”. Os diretores finalmente tinham alguma liberdade de expressão, e “Carnival Night” se tornou um dos prenúncios dos novos tempos. Ogurtsov se tornou símbolo negativo dos velhos tempos, porque diversão sempre foi uma parte muito importante da mentalidade russa.

Pela primeira vez no cinema soviético desde a década de 1930, o público pode ouvir uma verdadeira banda de jazz – durante a década de 1940 e o início dos anos 1950, o jazz era oficialmente chamado de música “nociva” e alguns cantores do gênero sofreram repressão.

2.     White Sun of The Desert (Sol Branco do Deserto, em tradução livre)

Faroeste, 1970, 50 milhões de espectadores

Soldado do Exército Vermelho Fiódor Sukhov (dir) Foto: Kinopoisk.ru

Durante o período de estagnação dos anos 1970, o povo soviético precisava mais do que nunca de uma figura heroica nas telonas. O soldado do Exército Vermelho, Fiódor Sukhov, protagonista do filme, apareceu na hora certa. O diretor Vladímir Motil queria fazer um verdadeiro “faroeste soviético”. E ele conseguiu – trata-se de uma obra do gênero bastante discreta, dramática e profundamente patriótica.

Retornando para casa pelo deserto asiático após a guerra civil, Sukhov se depara com

Voltando para casa da guerra civil através do deserto asiático, Sukhov encontra o harém do criminoso local Abdullah e decide proteger as mulheres de serem mortas por seu cruel marido. cruel. Durante o filme, um monte de personagens morre, mas Sukhov obtém êxito na maior parte de suas boas intenções. Sukhov também é um herói romântico: ele sonha em voltar para sua amada esposa Katerina Matveievna, que simboliza o lar e a própria Rússia.

A trilha sonora do filme, escrita pelo famoso poeta Bulat Okudjava e pelo compositor do filme Isaak Shwartz, tornou-se muito popular, especialmente a música “Your Honor Lady Luck”.

Mas os chefes do estúdio não gostaram nem um pouco do filme, pediram para remontar a edição várias vezes, cortar algumas cenas e até mesmo quiseram encostar a obra na prateleira. Felizmente, o líder soviético Leonid Brejnev viu o filme sem querer, ficou bastante satisfeito e ordenou que fosse oficialmente lançado.

3.     Ivan Vasilievich Changes Profession (Ivan Vassilievitch muda de profissão, em tradução livre)

Comédia e ficção científica, 1973, 60 milhões de espectadores

Churik (esq) com Ivan, o Terrível Foto: Kinopoisk.ru

Todos no território pós-soviético ainda conhecem o diretor Leonid Gaidai, uma vez que seus filmes parecem ter sido feitos realmente para o povo. Entre as obras mais famosas está a trilogia de comédia: “Operação Y e outras aventuras de Churik”, “Sequestro, Modo Caucasiano” e “Ivan Vassilievitch muda de profissão”. No primeiro filme, o jovem físico Churik encontrar uma namorada e consegue seu primeiro emprego; no segundo, vai para o Cáucaso, encontrar outra garota e a resgata das mãos de sequestradores. No terceiro e último filme da trilogia, baseado na peça de Bulgakov, o jovem cientista cria uma máquina do tempo e, por um infeliz engano, o tsar Ivan, o Terrível, troca de lugar com a entediante autoridade soviética Buncha. O filme é uma amostra típica das séries de televisão – com gritos, perseguições, quedas etc. Mas trata-se de uma obra muito espirituosa com excelente trilha sonora e momentos marcantes.

Trailer de “Ivan Vasilievich” (com legendas em inglês) Vídeo: YouTube

Muitos memes de todos os três filmes ainda são usados diariamente pelos russos.

4.     The Meeting Place Can Not Be Changed (O  ponto de encontro não pode ser alterado, em tradução livre)

Policial, série de TV, 1979, 80 milhões de espectadores

Vladímir Vissotski no papel de Gleb Jeglov Foto: Kinopoisk.ru

Essa série em cinco partes conta a história de dois detetives em Moscou, no ano de 1946, em uma missão para desmantelar o grupo criminoso Black Cat Gang, que roubava e matava pessoas. O jovem tira, Charapov, tinha acabado de retornar da Segunda Guerra Mundial e ainda mantinha uma postura muito corajosa, romântica e um tanto inocente. O seu chefe, Jeglov, é uma figura polêmica e faria de tudo, incluindo ilegalidades, para obter o que precisa. Sua frase marcante, tão conhecida por ser repetida até os dias de hoje, até mesmo pelo presidente Vladímir Pútin, é “Ladrão deve ir para cadeia, independente de qualquer coisa”. Apesar de ambiguidade do personagem, o público preferiu Jeglov, interpretado pela grande estrela soviética Vladímir Vissotski.

Banda Black Cat canta “Murka”, música que se tornou muito popular entre os membros da máfia russa Vídeo: YouTube

Durante as cinco noites em que a série foi exibida, o índice de criminalidade na URSS caiu, uma vez que as ruas ficaram desertas – todo mundo permanecia em casa para assistir Jeglov desemaranhar a rede mafiosa.

5.     Brother

Policial, 1997, 146 mil espectadores no cinema, milhões em cópias de VHS e DVD

Serguêii Bodrov na interpretação de Danila Bagrov Foto: Kinopoisk.ru

Esse filme do diretor cult Aleksêi Balabanov se distingue dos demais da lista por se tratar do símbolo do novo país – a Rússia pós-soviética. Serguêi Brodov Jr., que interpretou o protagonista Danila Bagrov, tornou-se o herói da nova geração. Um ex-soldado chega a São Petersburgo para visitar o irmão. Porém, quando seu irmão pede a ele para matar o chefe da máfia, tiroteios e assassinatos rolam solto. Tendo perdido sua integridade na cidade grande, o irmão mais velho de Danila o denuncia para os criminosos, mas Danila consegue derrotá-los. Em vez de preparar uma vingança, prefere fugir da cidade.

Esse filme explora uma novo tipo de personagem, bastante representativo para a década de 1990 na Rússia: um criminoso honesto. As questões morais desaparecem  – Danila realmente mata pessoas, comporta-se de modo agressivo, mas ele possui a sua própria verdade e código de honra, melhor expressos em suas palavras: “O poder está na verdade, quem estiver certo é forte”.

Ele também mantém uma atitude bastante emocional por música e especialmente por sua banda favorita Nautilus Pompilius, cujas canções compõem a trilha sonora do filme. A música é uma espécie de farol no oceano de violência.

Em 2000, a sequência “Brother 2” chegou às telonas. Dessa vez é contada a história da viagem de Danila para os EUA. Lá, o protagonista enfrenta diversos problemas que o fazem perceber que nenhum país é melhor do que a Rússia, enquanto seu irmão, atraído pelo sonho americano, decide permanecer nos Estados Unidos.

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