As melhores séries de todos os tempos

Esta semana o Sindicato dos Roteiristas Americanos divulgou uma lista onde constam os 101 melhores programas ficcionais de todos os tempos. Como normalmente ocorre, a lista não agradou a todos que esperam ver suas séries favoritas incluídas.

 Em maio de 2012, quando o WGA (Writers Guild of America) anunciou que iria elaborar a lista, foi dito que seriam levados em consideração apenas programas com o mínimo de seis horas produzidos (o que deixou os telefilmes de fora), falados em inglês e que tivessem sido exibidos nos EUA. Na avaliação, não seria levada em consideração a popularidade do programa, direção, edição, estética ou atuação, apenas o roteiro que, além de bem desenvolvido, teria que refletir a cultura de sua época.

A lista surpreendeu por algumas escolhas e pela ausência de programas que, pelo roteiro, precisavam ter sido incluídos. Por exemplo, I Love Lucy e O Prisioneiro entraram apenas pelo piloto, quando deveriam ser representados por todos os episódios ou, no caso de I Love Lucy, teria que entrar pelo menos as três primeiras temporadas. Mas, se ainda assim quisessem escolher apenas um episódio, este teria que ser L. A. At Last e não o piloto. Além da Imaginação aparece apenas pela primeira temporada, quando a qualidade da série se manteve ao longo de sua duração, caindo o nível na fase em que os episódios foram produzidos com uma hora de duração; Jornada nas Estrelas é representada por toda a série, quando até mesmo os trekkers concordam que a última temporada ofereceu episódios muito abaixo de seu potencial; o mesmo vale para Arquivo X e House que, a partir da quinta temporada perderam seu valor. E assim por diante.

Acho extremamente difícil (se não impossível) elaborar uma lista das melhores séries de todos os tempos. O principal problema é que, para fazer essa lista, seria necessário conhecer todas as séries já produzidas ou pelo menos conhecer uma amostragem considerável. Ainda assim, apenas ter conhecido não é o suficiente. Seria preciso rever tudo, com o objetivo de seleção, porque não dá para confiar na memória. Também não dá para confiar na fama conquistada pela série quando exibida (a exemplo de As Panteras e Baywatch, que fizeram muito sucesso mas jamais conseguiriam entrar na lista de melhores roteiros). Muitos poderiam utilizar a crítica publicada na época como referência, mas aí seria a opinião de terceiros e não da pessoa que está encarregada de dar seu voto.

                                                                     A Familia Soprano

O que pareceu muito bom na época que foi exibido pode não ter o mesmo significado hoje. Um bom roteiro é aquele que, representando sua época, consegue sobreviver à passagem do tempo. E aí entra outra questão. Na minha opinião, a lista não deveria incluir as séries que ainda estão em produção, porque para avaliar se a qualidade do roteiro sobreviveu ao tempo é necessário que passe, pelo menos, dez anos do fim de sua produção.

Desta forma, Mad Men, Breaking Bad, 30 Rock, Friday Night Lights e tantas outras que figuram na lista, não poderiam ser levadas em consideração. Também não deveriam considerar séries apenas pelo episódio piloto (que configura telefilme) ou os talk shows (que poderiam figurar em uma lista própria). Afinal, eles são essencialmente programas de entrevistas, apenas uma parte é dedicada aos shows de stand-ups do apresentador.

Entre as séries esquecidas ou desconsideradas, acho um erro não terem incluído Cidade Nua (anos 50), Combate (anos 60), Maude (anos 70), Blackadder, Yes Prime Minister (ambas britânicas dos anos 80), Da Terra à Lua (anos 90) ou Slings & Arrows (canadense dos anos 2000 – se bem que estou em dúvida sobre quando ela estreou nos EUA), só para citar algumas. Estas certamente entrariam na minha lista.

Com relação aos dois primeiros lugares da lista, que coincidentemente representam os gêneros drama e comédia, acho que A Família Soprano é uma das melhores séries já produzidas pela TV americana e merece figurar entre as dez primeiras da lista. Seu valor histórico é inquestionável. Graças ao sucesso de Oz (que figura em último lugar da lista), David Chase ofereceu A Família Soprano para a HBO, abrindo as portas para outras produções de qualidade artística e de conteúdo. Seu desenvolvimento de roteiro (personagens e situações) é primoroso e sua estética cinematográfica é um verdadeiro exemplo da capacidade da TV de oferecer produtos tão bons quanto ou melhores que o cinema.

Ainda assim, se eu tivesse que escolher que série mereceria figurar em primeiro lugar, apenas pela qualidade de seu roteiro e representação cultural, esta seria The Wire. Apesar de todas as mudanças que A Família Soprano promoveu, ela ainda oferece um roteiro que se apóia no tradicional, ou seja, ele acompanha a vida de um protagonista em torno do qual os demais personagens giram. Direta ou indiretamente, seus desejos, suas vontades, suas ações e opiniões determinam o rumo da história e daqueles que fazem parte da trama. Se tirarmos Tony Soprano da história, a série fica aleijada e perde seu sentido.

Em The Wire, criada por David Simon, o protagonista é a cidade de Baltimore e o tráfico de drogas. Além de oferecer belíssimos personagens e desenvolvimentos de situações, a série inovou ao mudar de foco a cada temporada. Na primeira, temos o trabalho da polícia contra o tráfico de drogas; na segunda, a relação da sociedade com o tráfico; na terceira, a política do governo no combate ao tráfico; na quarta temos a ação do sistema educacional na prevenção e combate às drogas dentro das escolas; e na quinta, a relação dos meios de comunicação no combate ao tráfico. Tendo em vista as mudanças de foco, cada temporada elegia uma espécie de protagonista da trama, levando os demais personagens a figurarem como coadjuvantes, mesmo tendo ganho destaque na temporada anterior. A série se transformou em matéria acadêmica, mas nunca recebeu um Emmy ou foi paparicada pela mídia (embora tenha recebido o apoio da crítica).

                                                  Elenco de ‘Seinfeld’                  
O segundo lugar da lista divulgada pelo WGA é ocupado pela série Seinfeld que, por ser comédia, é considerada a melhor sitcom da TV americana. Jamais escolheria a série como a melhor comédia de todos os tempos (e olha que sou fã de Seinfeld).

Além de resgatar o tipo de humor que se fazia nas décadas de 1940 e 1950, com o vaudeville e programas humorísticos, a série promoveu uma transformação negativa na produção de sitcoms. Quando foi classificada como uma série sobre o nada, slogan no qual a NBC se apoiou para divulgá-la, Seinfeld passou a ser utilizada como referência dos produtores que tentaram reproduzir seu sucesso. Com isso, apesar de algumas exceções, como Arrested Develompent, 30 Rock ou Parks and Recreation, por exemplo, as sitcoms da rede aberta esvaziaram seu conteúdo. Eles (e nós) ainda estão pagando pelo erro de acreditar que Seinfeld é uma sitcom sobre o nada. É uma série sobre comportamentos e consequências.

Retratando o comportamento de pessoas como elas realmente são (em suas mentes) e não como elas se apresentam na sociedade, a série cresce por ser situada em Nova Iorque (os personagens não funcionariam da mesma forma em outro lugar). Ambientada em uma cidade multicultural e individualista, Seinfeld conseguiu explorar personagens infantilizados, mais preocupados com suas vontades e desejos que com o ambiente e aqueles que os rodeiam.

Se tivesse que eleger algo com este tipo de abordagem, The Larry Sanders Show seria a minha escolhida. A série retrata os bastidores de produção de um talk show. Esta foi a primeira comédia da HBO a fazer sucesso (embora Sex and the City, que veio depois, tenha repercutido mais na mídia). Na verdade, foi The Larry Sanders Show que definiu a produção de séries na HBO. Seu sucesso com a crítica levou o canal a investir em Oz, que abriu as portas para A Família Soprano, que levou a Sex and the City e assim por diante.

Na minha opinião, Tudo em Família/All in the Family, deveria figurar em segundo lugar na lista (representando a primeira comédia). Não existiria Um Amor de Família, Os Simpsons, South Park ou qualquer outra comédia que faz humor em cima de tabus se não fosse por Tudo em Família (que é uma adaptação de série britânica). Esta foi uma das primeiras representantes das topical sitcoms, gênero que a ditadura do politicamente correto e a abordagem sobre o nada tentam destruir. Passados mais de trinta anos, a série permanece atual e com um humor afiado, mesmo para os dias de hoje em que boa parte das situações retratadas parecem ser típicas do período. Tudo em Família traz um texto ainda relevante ao mostrar personagens debatendo diversas temáticas sobre a sociedade e sobre o indivíduo, cada um defendendo seu ponto de vista e seu comportamento, evoluindo ao longo dos anos.

Mas, como disse no início desta postagem, cada um tem sua opinião sobre quais produções deveriam ou não figurar na lista. Talvez o ideal seja selecionar as melhores por décadas (e ainda assim seria difícil). Analisando o resultado de um modo geral, boa parte das séries selecionadas mereceram o reconhecimento do WGA, quanto a isto não há dúvida. Mudando a ordem, incluindo alguns títulos e tirando outros a lista poderia se tornar de fato uma referência para quem tenta conhecer as séries que melhor representam, em termos de qualidade, o que a TV americana tem a oferecer.

Quem tiver curiosidade sobre quais séries considero as melhores dos últimos anos, pode conferir a lista anual de Top 10 que publico todo o mês de dezembro neste blog. Basta clicar aqui.

Cliquem nas fotos para ampliar.

Fernanda Turquim-Blog-Veja-Abril

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