Game of Thrones” é muito mais do que sangue e seios

Publicado originalmente no Guardian.(DCM)

POR AYELET HAIMSON LUSHKOV

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Como professora de literatura clássica, eu fico muitas vezes à procura de material para fazer a ponte entre o passado e o presente, e Game of Thrones é ideal para isso. Muitos de nós, inclusive eu, não conseguimos nos cansar dessa série, mas dificilmente ela é a primeira história de derramamento de sangue em busca de uma coroa.

O que torna Game of Thrones particularmente um bom embaixador para a “velha literatura” é que o seriado abre não uma associação, mas todo um mundo de associações literárias. Por um lado, o novo noivo de Margaery, o jovem rei Joffrey, é um vilão que, apesar de parecer de desenho animado, tem o carisma de um personagem de Shakespeare. Um herdeiro da persona teatral de Ricardo III, Joffrey cumpre todos os clichês tirânicos, deleitando-se em caprichos cruéis e obcecado com sua permanência no poder.
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Mas Game of Thrones não é uma simples reencenação de Shakespeare. Acho que, enquanto Ricardo, pelo menos no palco, manifesta sua maldade em sua deformidade, Game of Thrones rompe essa junção de aparência e caráter. Joffrey executa todo o tipo de vilania enquanto exibe sua boa aparência dourada; seu tio Tyrion, entretanto, embora ridicularizado por seu nanismo como “o demônio” ou “meio-homem”, rouba os holofotes com uma mistura de encanto, ressentimento, astúcia e escrúpulo ocasional.

Margaery e Loras ficam ambos esperando uma chance com a tentativa malfadada de coroar Renly, não apenas o marido de Margaery, mas também amante secreto de Loras. Esse é um dos meus enredos favoritos, apesar da insistência dos meus alunos de que qualquer coisa a ver com Robb Stark deve ser infinitamente superior. Mas eu mantenho a minha preferência, até porque a história de Renly e Loras tem o pedigree de um bom clássico de Virgílio.

Na Eneida, Virgílio conta a história de Niso e Euríalo, um casal de jovens amantes de Troia que faz uma incursão ousada contra o inimigo e encontra sua morte prematura. A primeira coisa que ouvimos sobre Loras Tyrell é que ele é jovem, bonito e conhecido como o “Cavaleiro das Flores”. Em Virgílio, encontramos um paralelo: quando Euríalo é morto, o poeta o compara a uma flor roxa, cortada pelo arado, uma papoula, com a cabeça caída sob o peso da chuva. É um dos momentos mais tocantes da Eneida, e os campos de papoula da Flandres o tornaram um símbolo ainda mais comovente da tragédia da juventude desperdiçada.

Logo no início da Eneida, Niso e Euríalo participam de uma corrida, que mais tarde se transforma em uma corrida desesperada para salvar suas vidas. Assim, também, o grande “Torneio da Mão” no início de Game of Thrones abre o caminho para as verdadeiras batalhas que virão, com a perda de Renly no torneio, descrito no romance original, prenunciando a morte do jovem.

Mais de uma vez eu quis perguntar ao autor, ao diretor e aos roteiristas se eles tinham dado uma olhada em Virgílio ou Shakespeare. Eu não posso dizer o que eles pensam. Mas, realmente, isso importa?

A literatura é um processo de associação criativa. Game of Thrones, apesar de seu interesse lascivo em sangue e seios, tem musculatura intelectual suficiente para acomodar muitas associações literárias – e o inverno (da série) ainda está por vir.

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