Documentos revelam como a CIA interferiu em ‘Zero Dark Thirty’

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Usar uma consultoria para um filme ou um livro não é, em si, um pecado e pode impedir um autor de cometer muita bobagem. Mas o que Bigelow e Boal fizeram, aparentemente, é outra coisa: publicar a história oficial, com base em um suposto acesso privilegiado aos meandros da operação. A “licença artística” e a “abordagem jornalística”, que os dois disseram aos críticos ter sido as guias do filme, eram na verdade um pretexto para fazer um longo comercial autorizado da CIA e de Obama.

A mão peluda da agência no controvertido filme sobre a caçada a Osama Bin Laden foi muito além de uma consultoria.
Que Zero Dark Thirty – A Hora Mais Escura, no Brasil – era um filme de propaganda da Era Obama, você já sabia. A diretora Kathryn Bigelow se defendeu como pôde das acusações de ter perpetrado um panfleto ao contar a história da caçada a Bin Laden. “Eu apoio firmemente o direito de artistas criarem suas obras sem a interferência do governo”, disse.

Balela de Bigelow.

O site Gawker obteve, com exclusividade, um memorando da CIA que expõe como a agência colocou sua mão peluda no roteiro de Mark Boal, de modo a remover ou alterar cenas em que aparecia mal na fita.

Boal, diz o documento, “concordou em compartilhar os detalhes do script conosco, então estamos absolutamente confortáveis com o que ele estará mostrando”.

Ele respondeu ao Gawker por email: “Como em qualquer obra de arte, as decisões finais quanto ao conteúdo foram tomadas pelos cineastas”.

Segundo o Gawker, uma pessoa que participou da produção confirmou que houve mudanças específicas após sugestões da CIA. Um papel de 2012 fala em cinco teleconferências cuja intenção era “ajudar a promover um retrato adequado da agência e da Operação Bin Laden”.

A sequencia em que a protagonista Maya apenas observa um preso ser submetido a uma sessão de afogamento (water boarding), sem tomar parte diretamente, foi, aparentemente, uma das orientações. Ao que tudo indica, ela punha a mão na massa numa primeira versão. “Nós enfatizamos que ela não administrou técnicas de interrogatório”, diz o memo.

Boal também retirou uma cena em que um cachorro intimidava um suspeito: “Nós objetamos que essas táticas não são usadas”. O animal foi retirado – embora essa técnica tenha sido usada à larga em Guantánamo e Abu Ghraib, com fotos que rodaram o mundo. Boal e Bigelow também deixaram de fora uma festa em Islamabad em que um soldado enche a cara e dispara uma rajada de AK-47 para o alto.

Usar uma consultoria para um filme ou um livro não é, em si, um pecado e pode impedir um autor de cometer muita bobagem. Mas o que Bigelow e Boal fizeram, aparentemente, é outra coisa: publicar a história oficial, com base em um suposto acesso privilegiado aos meandros da operação. A “licença artística” e a “abordagem jornalística”, que os dois disseram aos críticos ter sido as guias do filme, eram na verdade um pretexto para fazer um longo comercial autorizado da CIA e de Obama.

Rambo, francamente, é mais honesto.

Kiko Nogueira-DCM

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